quinta-feira, 1 de março de 2012

Quem ganha a queda de braço?

Discordar de um jornalista brilhante como Reynaldo Azevedo é dose para cavalo. Seu poder de argumentação é estrondoso, de causar inveja. Tem uma capacidade e uma cultura que chegam a ser humilhantes. Mas, mesmo assim, acho que dessa vez sua irritação e indignação com o governo Dilma ultrapassaram as fronteiras do bom-senso. Claro que Reynaldo forra sua análise com carradas de informações, o que leva qualquer um a acompanhá-lo na aventura do raciocínio. Só que, apesar disso, há que se dar uma pausa para pensar.
Dilma segundo Romero Brito
Não gosto do fraseado intermitente das ministras Maria do Rosário e Eleonora Menigucci. Porém, admito que a responsável pela pasta dos Direitos Humanos não queira jogar cal sobre as feridas da ditadura militar. Da mesma maneira que a hoje secretária das Mulheres não pode esquecer que comeu o pão que o diabo amassou quando caiu nas mãos dos agentes da ditadura.
Rosário, embora representante do governo, tem todo direito que querer que se investigue o passado, apesar de o Supremo ter deixado claro que a lei não retorage para restringir (princípio, aliás, básico do Direito). Existe um grupo de pessoas que quer saber da sua posição e, sobretudo, conta com ela para que a barbárie não seja esquecida.
Sobre Eleonora, o fato de ter sido militante não quer dizer que ela quisesse uma ditadura de esquerda no Brasil. Era, sim, ligada a um partido radical, maoísta, stalinista ou qualquer porcaria assim. Mas como não chegou ao poder (foi esmagado antes), Reynaldo não pode afirmar que sairiamos de um regime de força para cair em outro. Essa possibilidade a história negou ao Brasil.
Eleonora admitiu imensas imbecilidades, como aquela do auto-aborto, que foi "aprender" na Colômbia. Isso Reynaldo lembrou. Só que não representa que a secretária das Mulheres vá assumir um cargo no governo impondo concepções particulares.
Não foi somente ela que defendeu posições diametralmente opostas quando estava fora do governo. Fernando Henrique Cardoso rasgou o verbo: "Esqueçam tudo que eu disse". Ou seja, uma coisa é ser sociólogo, responsável pelas suas próprias teorias, outra é ser presidente, impedido naturalmente de sair defendendo qualquer tese.
Fiz essa longa introdução para mostrar que se um lado quer se manifestar, outro também pode. Da mesma forma que Rosário e Eleonora falam para seus públicos, os clubes militares falam para os deles. A reserva das Forças Armadas pretende que as torturas da ditadura caiam no esquecimento, nem que seja à força. Defendem a Lei da Anistia, que inegavelmente favoreceu os agentes criminosos do Estado e deu-lhes proteção eterna. Não podem ser alcançados, apesar dos estrilos das duas ministras.
O que as duas fazem é justamente isso: estrilar. Mais nada. Não deram um único passo no sentido de ferir o que está previsto na lei. Porém, o entendimento, dos militares, é ferrabrás. Com uma truculência própria de quem ainda não superou as marcas deixadas pela história, os clubes elevaram o tom, em afronta. E sabiam que ergueriam uma voz que não é somente a deles, mas de toda uma categoria. Nesse ponto, Rosário e Eleonora estão em franca desvantagem: falam somente por si mesmas e por um contingente bem menor que o das Forças Armadas.
O problema dos clubes é que verbalizam aquilo que a ativa militar não pode nem deve fazer. Representam o pensamento da caserna. Daí o status de sublevação que o governo está dando. Já disse aqui que Dilma tem desprezo pelos homens de farda, assim como Celso Amorim não é conselheiro para coisa alguma.
A polêmica teria terminado se os clubes tivessem botado a viola no saco.  Mesmo com a carta tendo sido retirada do ar, teriam dado o recado. Ficava o registro do pensamento divergente, do incômodo com as posturas das duas ministras. Nisso, viria embutido o aconselhamento ao Palácio do Planalto de que procurasse conter os arroubos opinativos de ambas.
Em vez disso, os clubes decidiram bater de frente. E quem insiste, provoca. Quem provoca, nesse caso, se insubordina. Isso ninguém pode admitir. Não será Dilma que o fará.
Reynaldo lembra que os presidentes anteriores cozinharam os militares em banho-maria. Verdade, mas todos por razões diferentes: Sarney e Itamar porque termiam a ameaça (superestimada) de que a caserna resolvesse novamente tomar o país nas mãos, como santa salvadora; FHC porque, espertamente, criou o Ministério da Defesa e cassou a possibilidade de os militares articularem e se articularem politicamente; e Lula porque tinha de lidar com um rol de insatisfações, que vão desde os baixos soldos ao desaparelhamento das Forças - isso não o impediu de tratar com mão de ferro o episódio do apagão aéreo.
Eu acreditava que, da parte de Dilma, haveria somente mais habilidade no tratamento da questão; que alguém conseguiria tirar-lhe o gosto de bile da boca. Errei, pois Amorim ajudou-a a levar o caso na ponta da faca. O grande equívoco está aí, na falta de habilidade ao conduzir uma questão que pode se avolumar.
Sobre o enquadramento dos militares, a meu conceito a presidente está rigorosamente certa: não se pode permitir que uma ordem seja descumprida. E exatamente por aqueles que se dizem guardiães da disciplina.
A temperatura da crise é alta. Os dois lados não fazem qualquer menção de um movimento de recuo. Os comandantes das três Forças serão chamados a intervir e a eles será lembrado que o governo tem assuntos pendentes, que dizem diretamente às fardas - como reaparelhamento da tropa e melhorias nas condições salariais são somente dois deles. E que podem escolher se tais questões sobrem ou descem a fila de prioridades.
Vai rolar a bola para os militares mostrando que, em matéria de atendimento às pretensões deles, o que é ruim pode ficar pior. Junto virá uma repreensão, que será engolida pelos clubes em posição de sentido. Pagarão pelo desassombro, pela insubordinação.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Os desprezos de Dilma

A presidente não esconde alguns desprezos. Um é pela classe política masculina, outro são os militares. Acreditando que realmente Dilma é uma tecnocrata e defensora da meritocracia, talvez formasse um ministério somente de técnicos, preferencialmente mulheres, se pudesse. No caso das Forças Armadas, no conceito de quem passou o diabo numa cela da ditadura, o melhor seria extingui-las.
Isso explica algumas dificuldades de relacionamento da presidente. Ela enxerga nos políticos homens toda a sordidez de uma sociedade machista e conservadora, que fez o País caminhar nas piores direções. Foram eles que, numa observação psicológica enviezada (mas explicada pelas circunstâncias), empurraram o Brasil para a ditadura. Associaram-se ao reacionarismo militar em nome da manutenção de privilégios, de grupos de influência.
Nem mesmo os ex-companheiros de luta armada são vistos por Dilma sem desdém. Pior ainda ela enxerga aqueles que se bandearam para partidos de centro-direita, tal como o PSDB é considerado.
No caso dos petistas, alguns representam, para a presidente, oportunismo próprio de quem foi caroneado ao poder. Não têm convicções: da mesma forma que antigos tucanos, democratas e peemedebistas, vários dos seus colegas de partido pegaram o bonde da oposição apostando numa vitória que custou, mas veio. Enquanto Lula não abriu a porteira para que assaltassem o governo e seus braços, escoraram-se em sindicatos cuja bandeira primeira era fazer oposição e, numa etapa seguinte, promover mudanças para as categorias às quais representam.
Esses ela ainda tolera. Trata-se de benevolência, conforma a própria Dilma faz questão de deixar cada vez mais evidente.
Os militares, porém, são um trago difícil de engolir.
A presidente é muito transparente nas suas impressões. Ao decidir entre a honenagem aos militares mortos no incêndio na estação brasileira na Antártida e a entrega de casas na periferia de Recife, erguidas com recursos do PAC, Dilma nem pensou duas vezes. Ninguém espere cena semelhante àquela do filme A Dama de Ferro, na qual Margaret Thatcher/Maryl Streep assina cartas de condolências aos militares mortos por um ataque argentino, no começo da guerra das Malvinas. Com os homens fardados, o tratamento será no limite do protolocar, beirando o desrespeitoso.
Dilma também foi apagar um incêndio eleitoral em Pernambuco, onde PT e PSB se digladiam pela Prefeitura de Recife. Tanto que João da Costa (PT), prefeito da capital e que busca apoio para a reeleição, e o governador Eduardo Campos (PSB) estiveram juntos na entrega das casas populares. A presidente tem repetido que não vai interferir nas disputas de outubro, mas isso será impossível.
Outros assuntos na agenda estarão sempre acima de qualquer compromisso com os militares. Para o Rio, para a homenagem, despachou o vice Michel Temer e o ministro da Defesa, Celso Amorim, que não se sabe se por mau gosto ou falta de senso compareceu com um fato claro, pouco adequado a uma cerimônia fúnebre. Para uma classe que já anda irritada com a presidente, esse tratamento apenas piora as coisas.
Dilma não se importa em travar queda de braço com os militares. Até gosta desse confronto. É uma forma de devolver o sofrimento de décadas atrás. Por isso deixou que as ministras Eleonora Menigucci e Maria do Rosário os fustigassem, a primeira no discurso de posse, a outra numa entrevista. Quando os clubes militares se manifestaram, enquadrou-os mandando que retirassem a nota de protesto dos respectivos sites. 
A reserva voltou a se pronunciar em nova nota, curiosamente parafraseando no título uma expressão de La Pasionária, militante comunista e uma das líderes da luta contra o franquismo. Os clubes são associações civis, embora seus membros estejam subordinados à ativa.
Dessa vez, os signatários são 98 oficiais que decidiram confrontar a presidente mostrando quem têm nome, sobrenome e patente. A carta dificilmente será retirada do ar e, se for, virá uma terceira, uma quarta, uma quinta e quantas respostas forem necessárias se aos militares for cassada a expressão. 
Dilma não os considera insubordinados, tamanho é o desprezo que devota a eles. Acha-os impertinentes, provocativos, e vai buscar uma maneira de fazê-los de pagar pela afronta. Usará o poder de ser a comandante das Forças Armadas para emasculá-los.
A diferença é que, agora, será com sutileza, politicamente, para evitar que o clima de confronto contamine a ativa e a temperatura suba desnecessariamente. E a decisão não passará por Amorim, que tem se mostrado péssimo conselheiro na condução da questão.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Então isso é jornalismo?

"Nada do que a senhora disse vai mudar minha opinião. Tenho opinião formada". Foi isso (ou algo semelhante) quer o repórter Beto Júnior, da novela Fina Estampa, disse à Ester Volkoff ao final da exclusiva que obteve dela, no rumoroso caso sobre quem tem direito a alegar a maternidade da pequena Vitória.
Não, não estou debochando quando uso o adjetivo "rumoroso" para uma situação de novela. Tampouco estou tratando o episódio como brincadeira.
Conhecendo a Globo como conheço, uma falsa polêmica vai surgir nos programas da emissora: que direito tem a mãe que doa óvulos e fica sabendo do nascimento da criança gerada do seu embrião, num ventre que não é o seu? 
Ressalve-se, porém: a questão é atiçada por um jornalista que "já tem opinião formada".
Desde que comecei a trabalhar em redações que ouço o quanto Agnaldo Silva, autor da novela, foi bom repórter. Ainda que não sejamos da mesma geração, ele descende diretamente da época do lide, sub-lide, corpo e pé, como as matérias são estruturadas desde que Prudente de Moraes Neto introduziu a regra americana no "Diário Carioca", então de Horácio de Carvalho, nos anbos 50. Ouvi inúmeras vezes de Helio Fernandes, jornalista anterior a essa época, que Prudente, então chefe de Redação e seu colega, trouxe a novidade depois de temporada nos Estados Unidos.
No momento em que o lide é introduzido na formulação das reportagens, sua adoção é estribada noutra regra de ouro: o repórter deve registrar TODAS as versões do fato. Assim, o jornalista se distanciou.
É a ideia: a de que seja um narrador privilegiado, mas isento, dos fatos. Mais nada. A interpretação cabe ao leitor. Num diário, há setores específicos abertos à compreensão particular dos episódios: o editorial, o artigo, a coluna, o comentário do leitor. Todos refletem visões pessoais, das quais se discorda ou se concorda à vontade.
Ao repórter, porém, tal privilégio não é possível.
Estarrece que Agnaldo e seus colaboradores na novela apresentem um personagem com "opinião formada" e pronto para expressá-la nas páginas do veículo no qual trabalha. Nem o mais especial dos repórteres faz isso. Quem escamoteia o entendimento jamais fica conhecido pela correção profissional.
Sim, repórter pode ter opiniões, teses, teorias. Não é proibido tê-las, desde que confirmadas pelos fatos. Especular é do jogo, é legítimo. Mas se as fontes não confirmam, não é reportagem: é crônica, é artigo.
A novela transmite a perigosa imagem de que a imprensa é desleal e que jornalismo é, por definição, escandaloso. E fantasioso. O ex-presidente Lula não se cansava de atacar os veículos quando denunciavam os absurdos e malfeitos do governo. Primeiro, argumentava falaciosamente que os jornais representavam uma elite econômica que queria tirá-lo do poder. Depois, surrava o jargão de que somente desgraça é notícia. Sinistramente e por dedicados asseclas, tentou emplacar um mecanismo de controle da opinião, instrumento absolutamente claro de censura e amordaçamento.
Mau jornalismo não é jornalismo. Há achacadores, vendedores de espaço, aríetes movidos a soldo para atacar ou proteger. Mas basta ver a posição que desfrutam no universo da imprensa. São insignificantes, têm importância desprezível. Ninguém os leva a sério.
Minha defesa é do Jornalismo com J maiúsculo; da informação, do esclarecimento, da utilidade pública. O restante é secos e molhados, como sugeriu Millôr Fernandes.
Choca que Agnaldo insinue ressentimento com a imprensa com um personagem tolo. O mecanismo insidioso: se um ex-repórter faz um ataque tão contundente, no folhetim de uma casa dona de poderosos veículos de jornalismo, algo há de estranho. Quem assiste à novela conectará o trabalho jornalístico à invasão, ao desprezo pelos ângulos da história. Afinal, todo repórter vai para a cobertura com uma "opinião formada", disposto a apresentá-la como fato.
Jamais, em tempo algum, propus aqui censura ou limites ao trabalho de Agnaldo. Mas me aborrece ver a imagem passada pela novela - que tanto diverte quanto educa e informa; não fosse assim, jamais seria um eficiente veículo de merchandising - daquilo que supostamente seria jornalismo: uma atividade vil, exercida por arrivistas que desprezam a verdade e não se comportam como observadores isentos dos fatos.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Contorcionismo etimológico e desonestidade intelectual

Pela minha idade e pelo estrato social de que venho, convivi de perto com o racismo. Não que eu seja negro, japonês, árabe ou qualquer outra coisa, mas porque os adultos da minha época tinham profundo desprezo pelo negro. Hoje podem não assumir isso, por causa da igualmente abominável "correção política". Mas cresci ouvindo expressões que, por mais que tentasse, jamais consegui usar.
"Crioulada" era sinônimo de bobagem, de malfeito, de irresponsabilidade. "Crioulice" era uma crítica ao suposto gosto duvidoso que os negros tinham ou têm. De ambas há uma versão mais explícita e despudorada: "coisa de crioulo".
Tem ainda o velho mote da piada do cachorro que entrou na igreja e, ao sair, fez cocô. "Negro quando não caga na entrada, caga na saída". Era para ser engraçado. Isso porque o negro, desde sempre no Brasil, é o subalterno, o iletrado, o obtuso, o descartável. É o escravo que jamais deixou de ser, desde 13 de maio de 1888.
Chamar alguém de "neguinho" passou a ser aceito como gíria, mas poucos sabem as origens. "Neguinho" vinha sempre acompanhado de uma situação negativa: "neguinho" morreu de medo; "neguinho" se deu mal; "neguinho" entrou pelo cano. Quando surgia o "neguinho se deu bem" foi porque conseguiu tirar vantagem, porque mostrou oportunismo.
O que é "neguinho"? Vulgo de marginal, de bandido. Sempre no plural. Ou seja, "neguinho" é relativo a mais de um. Mais de um bandido ou marginal pode ser qualificado como quadrilha. Ou bando.
Quando grafavam o R, o significado negativo ficava claro. "Essa negRinha", "negRinho safado", "negRinha burra", "negRinho ladrão". Isso era falado entre os dentes, rilhando o R. 
Tive um colega com quem trocava LPs. Pelé era seu apelido. Nem preciso dizer a cor de sua pele ou seus cabelos de que maneira eram. Fato é que foi ele quem me apresentou algumas pérolas, como "Kick ou the jams", do MC5; "Tomorrow you belongs to me", da Alex Harvey Band; "Loud'n'proud", do Nazareth; "Live 'n kickin'", do West, Bruce & Laing. Fina flor do rock pesado. Aliás, a molecada branca do São Vicente de Paulo vivia se informando em matéria de rock com o atendente da cantina.
Nem por isso Pelé era o "negro de alma branca". Quando Paulo Cesar Caju começou a sair com as louronas, foi criticado. As raças não se misturam, diziam os mais estúpidos. Não era o "negro de alma branca"; era o negro de alma negra. Pelé, o craque, também não podia ser visto com mulheres que não fossem negras. E Pelé, sim, era considerado o "negro de alma branca": bom moço, sorridente, simpático, falante, preoucpado com as criancinhas do Brasil, gostado pelos generais, elogiado pela Igreja, garoto-propaganda da Vitasay. Disse até que o brasileiro não sabe votar. Quer ser mais "negro de alma branca" do que isso?
Mas o que é o "negro de alma branca"?
O negro que age como branco, que circula no grupo de brancos, na elite. Nem por isso é aceito. É recebido, mas não é considerado. É atendido, mas não é introduzido.
Ninguém na elite branca casa filha com o "negro de alma branca". Continua sendo o que sempre foi: negro. O verniz social que eventualmente adquiriu não o credencia a ser "branco".
Resumo da ópera: "negro de alma branca" é o "Pai Tomaz", o "negro da casa"; o negro escravo mental e cativo, o negro que não se importa de ser malhado, maltratado e humilhado; o negro que é besta de carga e, na cabeça do senhor ou do feitor, gosta de tal condição.
"Negro de alma branca" é pejorativo aqui, nos Estados Unidos, na Jamaica, no Haiti, no Caribe, na África. Paulo Henrique Amorim jamais quis elogiar Heraldo Pereira ao chamá-lo assim. Foi processado e condenado por isso.
Quem diz que a expressão "negro de alma branca" não é pejorativa comete profunda desonestidade intelectual, faz ginástica filosófica, contorcionismo etimológico.
Mais nada.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Coincidências demais

Aconteceu comigo há muitos anos.
Todo final de tarde, eu e mais um grupo de amigos íamos para a Praia de Icaraí jogar bola. Eu mesmo, que nunca fui grande coisa, tornei-me um bom ponta direita e um bom goleiro devido à insistência. Claro que isso me custou um ano de colégio: a reprovação veio implacável justamente para mim que, de todos, era o pior aluno; o que tinha mais dificuldades de aprender as aulas do sisudo Instituto Abel, de Niterói.
Entre nós existia um rapaz, Marcos Damião. Não sei que fim levou porque, depois do episódio que vou narrar, trocamos uns tapas e rompemos ali uma amizade sempre marcada pela rivalidade.
(Talvez não fosse amizade. Mas o fato é que ele sempre foi recebido na minha casa e eu na dele, apesar dos ressentimentos que a mãe de Damião fazia questão de externar. Não sei se eram comigo. Talvez fossem com o mundo. O pai, Seu Enio, coronel aposentado da PM, era uma doce figura pelo que me lembro.)
Naquele dia, na praia, estava tudo escrito que terminaria.
Eu e Damião tínhamos um colega em comum, Felipe, que além de bom jogador era um tremendo gozador. O ruivinho batia um bolão e todos o queriam no time. Naquele dia ele estava no meu. Não lembro se por opção ou por vontade própria, fui para o gol.
A bola rolou. Damião não era mau jogador, mas não era o craque que pensava ser. Era voluntarioso, tinha disposição, mas sua técnica não era das mais apuradas. Ainda assim fazia o gênero "chato" na areia: aquele que só é marcável quando se joga duro, muito duro. Quase na covardia.
Damião estava inspirado naquela tarde, comendo a bola - como diz a gíria. A certa altura, alguém rola perfeita para ele. Ele ajeita com o lado de dentro do pé direito e escolhe o ângulo. Ia lá certinha não fosse por um detalhe: eu.
Naquele dia eu também estava inspirado.
Voei na bola e consegui espalmá-la. Uma "ponte" dessas de Canal 100. A molecada, claro, veio me abraçar. O gol de Damião era certo, eu impedira. Felipe era um dos mais eufóricos.
Percebi, porém, que o rosto de Damião se fechara. Não gostou da minha defesa. Lembro agora que ele tinha pouco espírito esportivo.
A bola continuou rolando. Numa outra jogada, a bola vem da linha de fundo, cruzada rasteira na área. Me antecipo errado e passa por baixo de mim. Atrás, esperando limpinha, quem? Damião! O gol escancarado. Deve ter falado dentro de si mesmo:
"Agora eu me consagro!"
Eis que... Eis que algo aconteceu. Na praia, o piso é irregular. A bola pode ter dado uma quicadinha de nada, suficiente para mudar a posição da batida. Damião, que em vez de encher o pé quis arrematá-la de lado, foi vítima da empáfia, do desejo bobo de vingança numa brincadeira de adolescentes.
Quando bateu na bola, ela subiu. Subiu e explodiu no travessão! E nem deu a ele a chance de pegar o rebote. Atônito com o erro, incrédulo com tamanho capricho, ficou parado vendo a criança voltar para o centro da área, até que fosse rifada por alguém.
Começou a encarnação. Felipe estava às gargalhadas. Eu também não pude me conter - e aproveitei para tripudiar, já que era a segunda que perdia para mim, no mesmo jogo, em questão de minutos. O restante do pessoal, com maior ou menor peso, fez de Damião o esparro da tarde. 
Não se viu mais Damião "em campo" naquele dia.
Comecinho da noite, fomos todos para uma vila em frente ao prédio de Damião, na Otávio Carneiro. Ali batíamos papo, quando recomeçou a encarnação. De todos ouviu poucas e boas, mas comigo resolveu encrespar. Damião levantou-se, aproveitou que eu estava sentado e chutou minha perna.
Claro, o tempo fechou. Dei-lhe uns tabefes, levei outros. Lembro de uma vizinha gritar, enquanto nos estapeávamos:
"Esse menino vive arrumando confusão".
O menino era Damião.
Eu não sabia disso.
Difícil foi, depois do arranca-rabo, subir até a casa dele para pegar meu time de botão. Fui chorando porque realmente tinha em Damião um colega, um companheiro. Com quem mais eu jogaria botão?
Terminou ali. Nunca mais vi Damião, nem a mãe, nem o pai, nem a irmã dele. Nem Felipe. Fui embora da Otávio Carneiro como se eu fosse o culpado. Enfim...
Por que contei tudo isso? Porque aquele gol que o Deivid perdeu foi muito parecido com o que Damião desperdiçou.
Deivid, Damião... Dois Ds, dois gols perdidos...
Incrível coincidência.
  

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Da cobertura da CBF ao Botafogo campeão de 1989

Naquele começo de dezembro de 1988, antes da eleição de Ricardo Teixeira, eu tinha acabado de deixar a sucursal da revista Placar e seguira para O Globo, levado por Renato Maurício Prado, então editor de Esportes e que fizera a mesma troca. Jamais me considerei brilhante, somente esforçado - até hoje. Um pouco e autocrítica nunca é demais.
O jornal tinha uma senhora equipe de Esportes: como subs, Carlos Silva, Nilson Damasceno e Antônio Nascimento (atual editor); de redatores, Márcio Tavares, Julius Rocha, Fernando Calazans (hoje colunista) e Haroldo Habib; chefes de reportagem, Hideki Takizawa e Antônio Arruda; reporteres: Antônio Maria Filho, Marcos Penido, Mário Jorge Guimarães, Jorge Areias, Jorge Luiz Rodrigues, Álvaro Oliveira Filho, Marcelo de Moraes, Ricardo Prado, Ester Lima e eu. Certa vez, o insuspeito Roberto Porto (aliás, amigo de mais da metade da editoria) escreveu no Jornal dos Sports, onde tinha coluna, que se tratava da melhor equipe de jornalismo esportivo do Rio.
Isto posto, vamos ao que interessa: a eleição de Ricardo Teixeira. Nos dias que precederam o pleito, ele reuniu todos os repórteres que cobriam a CBF para um almoço. Na época, o presidente do pomposamente chamado "Comitê de Imprensa" era o queridíssimo Arthur Parahyba, já falecido. Parahyba, com quem tive a honra de trabalhar, era daqueles repórteres da velha guarda que perdiam a notícia, mas não perdiam a amizade. Ou seja, chapa branca. Mas era uma boníssima figura.
Em nome do "Comitê", o pobre Parahyba foi obrigado a fazer um discurso, patético registre-se. Na CBF ficava a nata dos encostados ou dos iniciantes, dentre os quais eu me inseria. O único que não se inseria nessa categoria era Oldemário Touguinhó (Jornal do Brasil). Mas lá estavam Israel Gympel (Rádio Record-SP), Baffinha (Jovem Pan), Osvaldo "Cachorrão" Pedroza, Silvio Barsetti (então Jornal dos Sports), Paulo Júlio Clement (primeiro Gazeta de Notícias e depois Jornal dos Sports), Mário Silva ou Wellington Campos (Rádio Nacional-RJ), Luiz Carlos Silva ou Elso Venâncio (para a Rádio Globo) e outros cujo nome não lembro. De vez em quando, Tino Marcos (Rede Globo) aparecia para algo mais importante.
Faziam uma cobertura sem postura crítica e se digladiando uns com os outros para ver quem ia na próxima viagem internacional da seleção. Eu, Silvio e Paulo Júlio éramos patos novos e não mergulhávamos fundo. O pessoal da Globo e Oldemário estavam acima das mesquinharias.
A certeza da vitória de Teixeira era total. Mas na construção da sua diretoria algumas coisas começaram a cheirar mal. Tal como o novo diretor de Futebol, o notório Eurico Miranda, que com Antônio Soares Calçada era dono do Vasco.
Também começaram os rumores de que Carlos Alberto Parreira, outras dessas unanimidades burras criadas pela imprensa, não viria para comandar a seleção, conforme Teixeira garantira aos jornalistas. Uns diziam que estava complicado para ele se livrar do contrato que tinha com a seleção da Arábia Saudita, que dirigiu na Copa de 1990; outros, que ele não estava a fim de se aporrinhar com o Brasil, fonte permanente de cobranças - preferia ganhar o dinheiro dele sem muita chateação.
Teixeira prometera divulgar o novo técnico da seleção no exato dia em que vencesse a eleição, que transcorreu sem problemas. Uma tensão ou outra, um cartola estadual ou outro que ainda não tinha aparecido, mas o filhote de Havelange se consagraria facilmente novo presidente da CBF. No começo da tarde, a fatura estava resolvida.
E a lista? E o novo técnico?
O tempo passava, a turma cobrava. Eis que aparece Eurico Miranda para avisar que o novo técnico da seleção era o sapientíssimo... Sebastião Lazaroni! Um camarada que em menos de três anos saíra da condição de preparador físico para a de bicampeão do Campeonato Carioca, primeiro com o Flamengo e depois com o Vasco. Estava, naquela altura, treinando um clube qualquer do mundo árabe, para onde vão todos os futebolistas que querem ganhar muito dinheiro e rápido. Claro que Lazaroni não fora sacado do bolso do colete: a futura cúpula da CBF já sabia que Parreira não viria e tratou de arranjar um estepe.
Não se pode dizer que Teixeira descumpriu a promessa de lançar uma seleção permanente, com comissão técnica formada. Também não se pode negar que trouxera um profissional que estava no Oriente Médio. Sua marca foi sempre essa: prometia uma coisa e a cumpria parcialmente. E foi levando, sempre insensado, todos esses anos.
A última grande aparição do presidente da CBF foi nos debates da Copa, no SportTV, depois que a Holanda eliminou o Brasil com toda justiça da Copa na África do Sul. Teixeira falou o que quis e como quis. Não houve críticas mais pesadas ao trabalho de Dunga, à sua postura, às suas escolhas. Ao contrário, os jornalistas presentes naquela entrevista ou estavam moídos demais pela derrota para não reforçarem os ataques que até então faziam ou perceberam que era malhar em ferro frio - seriam as mesmas respostas de sempre, de um cartola manhoso que despreza a imprensa.
Mas voltando àquela segunda-feira de janeiro de 1989, na Rua da Alfândega. A confusão custou a mim e a Jorge Areias, incumbidos de fazer a cobertura direta da eleição, um esporro em regra de Renato e uma dura geladeira de algumas semanas. Primeiramente, divulgara-se uma lista com 24 jogadores, à qual, uma hora depois, foi acrescentada nova relação, esta com seis outros nomes. Total de 30. Avisei a Areias que tinha mais gente. E prosseguimos a cobertura.
À noite, já na redação, Renato me chama:
"Fabio, que negócio é esse de que a lista não tem 24 nomes, mas 30? Ligaram lá do Sul perguntando isso. A Rádio Gaúcha está dando 30!"
A essa altura a primeira edição já estava rodando.
"É verdade, Renato...", respondi, com a voz quase inaudível.
"PU-ta-que-pa-RIU!", e se levantou indignado. Fiquei lívido. Toda a seção de Economia, logo ao lado, me olhava.Lá de longe me olhavam. Quase desmaiei.
Mal tive como dizer que havia avisado ao Areias o acréscimo dos nomes. Seguiu-se uma daquelas broncas que você jamais esquece, em que é chamado de incompetente para baixo. Estava certo de que, no dia seguinte, receberia bilhete azul.
Não foi assim. Fiquei encostado, "cobrindo" América e Bangu, que não tinham qualquer espaço no noticiário. Durou pouco tempo, mas foi doloroso. Poucos dias depois eu voltava para a cobertura da CBF, para aturar Lazaroni e seu português ininteligível.
Vieram as eliminatórias, os amistosos, os remanejamentos e fui para a cobertura do Botafogo, que em 1989 quebrou o jejum de 21 anos sem títulos. Tempos de Valdir Espinosa, Emil Pinheiro, Paulinho Criciúma, Maurício, Josimar, Renato, Luizinho, Mazolinha, Mauro Galvão, Wilson Gotardo...
Essa é outra história. Conto um dia desses.

E ele chegou para salvar a lavoura...

Faço questão de voltar 22 anos no tempo, quando cobri, para O Globo, a eleição de Ricardo Teixeira na presidência da CBF.
Em 1989, o cartola ainda era genro de João Havelange, o que lhe garantiu o apoio de quase todas as federações de futebol, presidida por uma gente que, até pelo aspecto físico, carecia de caráter e moral. No dia da votação, vi um entra e sai na antiga sede da Confederação, na Rua da Alfândega, Centro do Rio, de figuras ridículas, com cabelos e bigodes pintados de preto, tentando aparentar a juventude que a calva e as rugas lhes roubavam. Personagens lamentáveis, vestidas com gravatas berrantes sobre paletós descombinando, com a calças ou fatos (terno, lembro, é o que tem colete) de qualidade duvidosa.
Era essa gente que controlava (e ainda controla, só que hoje tem mais verniz) o futebol brasileiro. Pela descrição de cada um se pode calcular o que eram suas gestões.
Teixeira era, acima de tudo, apoiado pela imprensa. Não havia um único jornal, jornalista ou colunista que não o visse como uma figura arejada, conectada com o mundo que então se vivia. Sobretudo, achavam que ele era um personagem sem mácula, vindo da inicativa privada e, portando, em condições de dar ao futebol brasileiro a modernidade compatível com os tempos pós-Nova República. Essa mesma que legou José Sarney aos brasileiros, mesmo que por acaso.
Seus antecessores eram Octávio Pinto Guimarães e Nabi Abi Chedid. Octávio estivera por mais de uma década à frente da Federação de Futebol do Rio. Nabi vinha do Bragantino, que pouco tempo antes surgira no futebol paulista como modelo de um time bem montado e de administração ágil. O técnico era ninguém menos que Vanderlei Luxemburgo, então visto como esperança de novos dias em matéria de táticas e escalações. Mas, em 1989, ele não passava de um ex-lateral esquerdo do Flamengo, medíocre por sinal.
Octávio tinha contra si o amparo que dera ao almirante Heleno Nunes, aquele do "Onde a Arena vai mal, mais um no Nacional" - referindo-se ao desempenho do partido da ditadura e à utilização do futebol como pé-de-cabra político. Nabi tinha estreita relação com o notório Paulo Maluf, um dos delfins do regime dos generais que terminara, mas não estava esquecido.
Na presidência da CBF provaram-se inábeis e trapalhões. Octávio, magro e baixo, fumava desbragadamente com uma piteira, que lhe conferia um ar falsamente aristocrático e germânico, tal como sua Nova Friburgo. Tinha voz baixa, grossa, anasalada e um olhar estranhamente malévolo. Nabi era o contrário: grandalhão, gordão, falava cuspindo por trás das lentes grossas do óculos de aro quadrado. Era o esparro preferido do então presidente do Flamengo, o esperto Márcio Braga, que com a verve carioca de quem nasceu e foi criado na Zona Sul do Rio, porém jamais trabalhou, conseguia tirar-lhe a paciência com facilidade. Nas resenhas esportivas da TV, era de morrer de rir ver Nabi se esbaforindo, querendo bater em Márcio, apesar de não estarem no mesmo estúdio.
Pesou contra essa dupla o fracasso brasileiro na Copa de 1986, no México. Para variar, a CBF foi acusada de desorganização na elaboração dos trabalhos preparatórios. Preferiram atacar os dois cartolas e deixar passar batida as turrices de Telê Santana, que escalou um time pífio para a disputa do Mundial. Ninguém queria se indispor com o técnico, que quatro anos antes naufragara no Sarriá ao não saber mandar sua equipe segurar o resultado contra a Itália. Mas essa é outra história.
Para piorar a situação de Octávio-Nabi, os principais times brasileiros se fecharam numa entidade que propunha moralizar o futebol e dar-lhe a organização que a CBF parecia incapaz de montar: o Clube dos Treze. Ameaçaram romper com a entidade e montar um campeonato brasileiro paralelo. Seu presidente, Carlos Miguel Aidar, então comandante do São Paulo, tinha até o apoio da Globo para a transmissão dos jogos. A CBF já era descartável.
Para segurá-los e acalmá-los, a Confederação montou o famoso campeonato com o Módulo Verde e o Módulo Amarelo. No Verde, só o Clube dos Treze, acrescentado de três convidados; no Amarelo, o restante da antiga primeira divisão - tinha ainda o Azul e o Branco, equivalentes à terceira e quarta divisões. O Flamengo ganhou o Verde e, claro, se recusou a enfrentar o Sport Recife, vencedor do Amarelo, justamente porque não faria sentido algum ter disputado um torneio em tese mais difícil. O restante dessa história também já se sabe.
Contra toda essa bagunça, Teixeira vinha como salvação da lavoura. Turbinado por Havelange, o sogrão ainda presidente da Fifa, chegava com a incumbência maior de fazer um campeonato brasileiro mais racional (leia-se: com até 20 clubes) e conciliar o nosso calendário de eventos ao europeu, já que naquela época o êxodo de jogadores era intenso e vergonhoso. Além disso, foi-lhe atribuída a missão de montar uma seleção brasileira permanente, com comissão técnica montada e à disposição para correr o Brasil e o exterior vendo os melhores jogos e capinando os melhores jogadores.
Parte disso ele cumpriu, mas não demorou muito para cair na vala comum da politicagem que, pensava-se, era página virada. Afinal, ninguém se mantém no mesmo lugar por mais de duas décadas se não fizer acordos e não for generoso.
Mas isso eu conto no post seguinte.