O governo Dilma insiste nessa bobagem de trem-bala só para poder dizer ao mundo que o Brasil está construindo uma infra-estrutura de transportes com vistas à Copa e à Olimpíada. Pretende empurrar a conta para o cidadão-contribuinte-eleitor ao bancar 80% do projeto, deixando para as empreiteiras 20% - e nem assim elas se interessaram. Isso por si só é estranho: como é que as grandes fazedoras de obras do País deram de ombros para um projeto dessa magnitude?
Fácil entender. Eles entrariam com R$ 6 bilhões, isso numa etapa inicial. O grande problema é que não pararia nessa cifra. Chegaria a mais que o dobro, uns R$ 14 bilhões. Sem contar o seguinte: o governo, como fazedor de obras, é porco; assim, partes do projeto ficariam emperradas, o que levaria a iniciativa privada a assumi-los para não perder o tanto que empurrou nesse saco sem fundo. De R$ 14 bilhões, para que as empreiteiras não ficassem no prejuízo de ter completado trecho de um projeto inacabado, essa conta subiria sabe-se lá para quanto.
E aí, amigos, quem é o doido que se arrisca a segurar um cálculo que sabe-se onde começa, mas não se sabe onde termina? E não adianta o ministro Guido Mantega, da Fazenda, jogar seu peso sobre os construtores, acusando-os de atuarem contra o Brasil. Esse patriotismo histriônico e extemporâneo não os comove. O que os empurra é entrar numa obra com um determinado orçamento e ir tocando o barco, com os aditamentos necessários. O governo já provou que é um sócio traiçoeiro. Melhor fazer a obra toda, obter o financiamento e depois explorá-la com contratos de concessão.
Aliás, quanto duraria o contrato de cencessão do trem-bala? Esse trambolho que pretende ligar o Rio a Campinas, para piorar ainda mais as condições de sua execução, ainda será vítima da visão curta e do provincianismo dos políticos. O governador Sérgio Cabral Filho batalha a inclusão de uma estação no meio do caminho e, como eles, vários pensam no mesmo. Ou seja, de bala esse trem não teria coisa alguma. Ou você imaginaria uma composição dessas saindo do Rio, parando em Itatiaia, depois em Queluz, em Lorena, em São José dos Campos, em São Paulo e depois em Campinas? Seria uma rematada estupidez e perderia a razão de ser do projeto: unir duas cidades, separadas por oito horas de carro, em apenas três.
Por muito menos, o Trem de Prata, que saía da Central do Brasil, morreu sem deixar viúvos. Sem contar que o lobby das empresas de ônibus que fazem a ligação Rio-São Paulo seria mais um empecilho ao projeto do trem-bala. Vale lembrar que uma delas, a Cometa, pertence à família de João Havelange, ex-presidente da Fifa. E que o bem localizado Ricardo Teixeira, seu ex-sogro, poderia jogar todo o peso da CBF para fazer o negócio sonhado por Dilma tornar-se um imenso mico.
Mas não termina aí a saga do trem-bala. E as empreiteiras que tomam conta das bem pavimentadas estradas do interior paulista, sem contar a Via Dutra, também ela já privatizada? Dirão que o trem de alta velocidade terá custos que limitarão seu uso a uma certa classe social. Bobagem: se não for relativamente barato, o projeto torna-se inviável. Para piorar, têm ainda as passagens aéreas, cujos custos são cada vez democráticos.
Ou seja, dei um rol de problemas e de adversários do trem-bala. Só quem o deseja é o governo federal, mais por vaidade do que por utilizade.
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões (Graciliano Ramos)
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segunda-feira, 11 de julho de 2011
sexta-feira, 8 de julho de 2011
A mesma coisa há mais de 20 anos
O Ricardo Teixeira que está aí, destilando importância na entrevista concedida à revista Piauí, já podia ser percebido em 1989. Cobri para O Globo a eleição da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que o elegeu por unanimidade, na sequência da desastrosa gestão de Octávio Pinto Guimarães e Nabi Abi Chedid. Depois de uma dupla de trapalhões, o então genro do presidente da FIFA, João Havelange, se credenciava como a pessoa certa para arrumar toda a bagunça reinante.
Já naquela época, a pele de Teixeira tinha a tonalidade Vermelho Johnnie Walker. Entendam como que quiserem essa relação que acabo de fazer. Era respaldado por supostamente todas as pessoas sérias dos clubes e das federações, essas mesmas que apóiam qualquer pessoa desde que regiamente remuneradas. Até o sinistro Eduardo Vianna, o Caixa D’água – incrível como se orgulhava do estranho apelido -, estava com Teixeira. E não era à toa: o diretor de Futebol da CBF, que se elegeu com o novo presidente, era ninguém menos que Eurico Miranda, então vice-presidente do Vasco da Gama e amigo do peito do Caixa.
Ninguém traz Eurico para perto de si sem que algo de muito estranho esteja por trás. Mas, naquela época, final de governo Sarney, com Lula anunciando que iria disputar sua primeira eleição presidencial e um certo governador de Alagoas fazendo saber a todo o Brasil que perseguia implacavelmente os marajás do seu Estado, imaginava-se que o País estava virando uma página cinzenta da sua história. Viu-se depois que a realidade matou a esperança a pauladas.
Uma das promessas de Teixeira era anunciar o técnico da seleção assim que tomasse posse, no começo de 1990, e que levaria o time à Copa da Itália. O então futuro presidente da CBF já havia externado em alto e bom som quem seria: Carlos Alberto Parreira. Parreira, então treinando um time qualquer do mundo árabe, não confirmava nem negava. Creio que acreditava que os xeiques iriam liberá-lo quando Teixeira assumisse. As negociações para isso, aliás, pareciam ir de vento em popa.
Parreira, porém, não veio e a resposta foi dada em cima da hora. O recém-eleito presidente da CBF, nessa época ainda num prédio de portaria apertada na Rua da Alfândega, no Centro do Rio, ficou de saia-justa. Promessa é dívida e a imprensa queria o nome do técnico da seleção na Copa.
Foi um corre-corre, porque, junto com o técnico, também seria anunciada uma lista de 22 jogadores, pré-convocados para o Mundial. Estava lá eu escoltado pelo veterano Jorge Areias, quase dois metros de um mulato educadíssimo. Eu era a impetuosidade, a juventude, e Areias a experiência, a tranquilidade. Deu tudo errado, porque, no meio da confusão, acrescentaram mais quatro nomes aos 22. Avisei a Areias, que, pelo jeito, esqueceu-se. O resultado é que Renato Maurício Prado, nosso chefe na época, deu-nos uma bronca de homéricas proporções. Aliás, isso tem outro nome: um puta esporro. Quase pagamos com nossos empregos.
Enfim, voltando à CBF, nada de o nome do técnico sair. Os veteranos nos corredores da entidade, como Baffinha, Israel Gympel, Cachorrão, Arthur Parahyba, Mário Silva, perceberam que aquela demora era porque algo estava errado. Começou o zum-zum-zum. Depois de alguma tensão, aparece Eurico que, com a cara mais deslavada do mundo, anuncia Sebastião Lazaroni técnico da seleção.
Os meses que se seguiram, com Lazaroni usando expressões que não tinha a menor ideia do que significavam – a ponto de a imprensa, jocosamente, colocar o nome nesse estranho dialeto de “lazaronês” -, mostraram que a CBF não mudara tanto assim. Continuava uma confusão dos diabos e com todos querendo tirar proveito desse reino em que ninguém se entendia.
O resultado disso vocês devem se lembrar: a seleção de 1990 foi um bando em campo, eliminada com justiça pela Argentina de Maradona e Caniggia. Teixeira sobreviveu aos mais variados vendavais, sobretudo a CPI da Bola, em que o notório Eurico – que sabe-se lá como foi eleito deputado federal, prometendo “defender os interesses do Vasco” - rasgou o relatório final na frente das câmeras e disse que apresentaria outro, um “alternativo”. Eurico, aliás, para o bem do futebol, desapareceu e levou junto sua figura esdrúxula e anti- higiênica.
Teixeira ainda não.
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