A demissão de Pedro Novais do Ministério do Turismo expõe uma face dramática do governo Dilma: como são ruins seus auxiliares. Quem não caiu de podre - e já não importa aqui se alguns personagens foram ou não herdados de Lula -, saiu por postura incompatível com o cargo. Sem contar aqueles que balançaram, seja por abusar nas diárias, seja por irrigar currais eleitorais, ou mesmo quem simplesmente trocou de lugar por absoluta inépcia, impressiona a reforma ministerial que a presidente foi obrigada a fazer pela má qualidade da equipe que montou.
Isso dá um desalento que faz pensar no seguinte: se esses eram ruins, imaginem aqueles que virão para substituí-los. Claro, se fossem figuras de valor, já teriam sido lembrados antes. Não me ocorre uma reforma do primeiro escalão feita por causa da incompetência na escolha e pela incapacidade de vários ministros andarem em linha reta. Sabe-se de reformas que são realizadas porque os titulares dos ministérios têm pretensões políticas, seja ao Legislativo, seja ao Executivo, ou até mesmo para assumirem outros cargos - como o Tribunal de Contas da União. Mas porque foram flagrados em postura vergonhosa, se servindo do erário, é a primeira vez, caso a memória não esteja me traindo.
A saída de Pedrinho - permitam-me chamá-lo assim, seja pela estatura física, seja pela moral - já era cantada em verso e prosa há tempos. Desde que a Polícia Federal descobriu a roubalheira que corria sob suas barbas, vinha cambaleando - embora, nesse episódio, tivesse uma desculpa: boa parte da bandalheira aconteceu na gestão do seu antecessor, chegadíssimo à senadora Marta Suplicy (PT-SP), que até se escondeu no banheiro para não enfrentar os repórteres e dar explicações sobre o caso.
Só que Pedrinho é um incorrigível. A Folha de S.Paulo mostrou que ele não coçava o bolso para pagar a governanta, tampouco o chofer que servia à madame mulher do ministro. Ou seja, um predador dos cofres públicos, desses que se puderem empurrar para o contribuinte a conta do motelzinho com as mariposas, empurra. Talvez por inspiração de seu mestre e mentor, o senador José Sarney, que há anos privatizou o Maranhão, tornando-o uma enorme e paupérrima propriedade particular.
Pedrinho já era ruim desde a indicação, que foi disputada com faca nos dentes e sangue nos olhos pelo PMDB. Quando o senador Gim Argello (PTB-DF) afirmou, ao Jornal de Brasília - eu estava lá e editei a matéria -, que o Ministério do Turismo seria do seu partido, o que se viu foi uma sessão de pancadas que o obrigaram a se recolher com o rabo entre as pernas. Não que Argello ou o PTB não tivessem merecido, mas porque, no jogo pesado da política, o PMDB queria abocanhar uma pasta altamente irrigada por causa da Copa e da Olimpíada.
A indicação, inclusive, demorou. Até que surgiu esse Pedrinho, tirado do bolso do colete pelo senador Sarney. Deputado veterano, mas do baixo clero, era figura inexpressiva e manteve-se assim mesmo depois que tornou-se titular de um ministério que poderia catapultá-lo. Mas gestão não é o forte do ex-ministro, a não ser quando estão em jogo as finanças próprias. Aí ele se mostra um mestre na arte de explorar o que é de todos.
Some-se a isso o fato que a presidente o recebeu uma única vez. Maior sinal de desprestígio, impossível. Mas, nesse caso, a culpa também é de Dilma, que de nariz tapado o aceitou por injunções políticas. Sabia que Pedrinho era ruim, que era do tipo de empurrar conta de motel para o erário, mas, mesmo assim, o colocou no ministério e tirou ao lado dele a foto oficial.
A culpa maior é sempre de quem escolhe. Ou Dilma vai entoar aquela que se tornou a oração-mor do cinismo? - que não sabia de nada.
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões (Graciliano Ramos)
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Os novos inquisidores
Não vi e não gostei de A Serbian Film, que diz ser de terror. Para mim, filme do gênero ainda são aqueles da Amicus ou da Hammer, ingleses da década de 60, que tinham no elenco Christopher Lee ou Peter Cushing – ainda acho Lee o Drácula mais assustador da história do cinema. Mas nada disso vem ao caso. O que vem ao caso é a censura imposta a esse filme que veio dos Balcãs.
Dizem que tem cenas que sugerem incesto e pedofilia. A simples menção dessas duas barbaridades me deixa enojado. Não iria ver o filme porque, definitivamente, não tenho estômago para as misérias humanas. Fico entre triste, chocado e revoltado quando leio sobre isso nos jornais. Isso não quer dizer que não goste de películas violentas. Ao contrário, gosto sim, mas quando a coisa entra na área do sexo, e sobretudo crianças, admito que fico transtornado.
Porém, sou contra censurar o filme. Agora que está proibido de entrar no circuito comercial é que realmente se tornará um sucesso. Provavelmente será exibido um dia no Telecine Cult, onde, certa vez, zapeando canais de madrugada, exibia um filme em que aparecia o sexo oral explícito de dois homens. Também foi nesse canal pago que vi um lixo chamado Nove canções, de um cineasta até renomado, Michael Winterbotton. São várias as cenas de sexo explícito e de música ruim, e não sei o que me incomodou mais. Além disso, o casal da trama é feíssimo. Prefiro as louranhas da Vivid, que não estão lá para atuar.
Li que A Serbian Film já é um sucesso de downloads. Claro, tudo o que é proibido vira hit. Foi proibido pelo conservadorismo de Maia pai e Maia filho (Cezar e Rodrigo), que fora do jogo político tiveram de criar um factóide para voltar ao noticiário. Não sei se isso lhes agregará um único voto. Sei que eles apelaram para o que há de mais abominável em matéria de raciocínio intelectual: a censura.
Me lembro que, anos atrás, a Igreja Católica implicou com Jê vous salue, Marie, do xaroposíssimo Jean-Luc Goddard. A então atriz Lucélia Santos era uma das figuras da linha de frente no protesto. Lembrei-me de Lucélia, a doce Escrava Isaura, no filme Bonitinha, mas Ordinária – Ou Otto Lara Rezende, na cena em que é possuída pelos negrões no ferro-velho. E gritava: “Me fode, Cadelão”. Cadelão era um personagem de recorrente de Nelson Rodrigues, uma espécie de canalha empedernido. Não lembro quem fazia o Cadelão no filme. Mas li outros livros em que Cadelão dava o ar da graça, como Engraçadinha.
Tenho nojo da censura porque geralmente é instrumento de gente com muito dinheiro e poder. O cara não gostou, arranja um juiz para sentar em cima. Roberto Carlos fez isso com uma biografia não autorizada. Claro, nela há passagens em que sua eterna imagem de bom moço fica comprometida. Fernando Morais sofreu com um livro sobre a W/Brasil, agência do Washington Olivetto. O deputado Ronaldo Caiado também não gostou de ser retratado e mandou bala na liberdade de expressão. Que processasse o autor de Na toca dos leões, mas censurar, nunca.
Um dado interessante: Caiado e Maias pai e filho pertencem à mesma legenda, o DEM. Embora a ação do deputado já tenha algum tempo, quando o ex-PFL ainda não tinha começado a descida da ladeira, hoje o partido está praticamente esfacelado, resultado dos oito anos longe do poder federal.
Não é somente isso. Os Sarney conseguiram amordaçar um jornalão, O Estado de São Paulo, que até ontem estava há 727 dias sob censura. Não pode dar uma única e escassa linha sobre Fernando Sarney e suas conversas comprometedoras, gravadas no âmbito da Operação Boi Barrica, da Polícia Federal. Não fosse quem é e filho de quem é, o juiz jamais teria concedido a liminar. Fiquei surpreso como a família não tirou de circulação Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória. Talvez porque não quisesse aparecer pela segunda vez como uma fã incondicional da censura.
Sou e sempre fui a favor de processar o autor. Não gostou, manda a justa em cima do cara. Na frente do juiz, os dois lados expõem seus argumentos e ganha quem tiver o melhor. Porque a proibição pura e simples de que um livro, um CD, um DVD ou um filme fiquem ao alcance do consumidor, pressupõe que quem a conseguiu está coberto de razão.
Impedir a obra de circular é medieval. E a idade das trevas há muito passou.
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