Volto ao assunto que envolve a revista Veja.
Acho que algumas coisas têm que ficar bem claras, sobretudo quando, maliciosamente, comparam o caso atual ao de Rupert Murdoch - e tacham até o Roberto Civita de ser o "nosso" Murdoch. A estupidez é uma das faces da má-fé, tal como acontece com essa conexão que tentam fazer com que seja verdadeira.
Não tenho procuração para defender Civita, mas sabe-se (e não é de hoje) que Murdoch usa de meios amorais e imorais para turbinar seus veículos. "Rup The Red" corrompeu, grampeou, chantageou... Não ele pessoalmente, mas fez do crime prática comum dos seus jornais. A quantidade de barbaridades que o News of the World ou o The Sun publicaram, e a quantidade de processos judiciais a que respondem e foram condenados, mostram que a conduta de Murdoch e seus diretores é duvidosa - para dizer o mínimo.
Civita não veste esse figurino. Não que faltem ações judiciais à Abril, mas não se sabe que esteja respondendo a algum processo no qual tenha sido enquadrado nos artigos mais graves do Código Penal. E ainda que estivesse, haveria de se analisar bem a questão para julgar, então, o peso de sua participação num eventual episódio. Não podemos passar a achar as pessoas culpadas até que se lhes prove a inocência.
Tal como querem fazer agora com o chefe de redação da Veja, Policarpo Júnior. Deixo claro: não o conheço; se entrar na sala em que trabalho e não me disserem que é, jamais saberia de quem se trata. Da mesma forma, ele não precisa da minha defesa.
Mas o fato de ter recebido e publicado informações de um vagabundo, de um marginal, não o descredencia nem o nivela por baixo. Já estive na condição de chefiar redações e editorias. Sempre que estava diante de uma boa informação, não tinha dúvidas: consultava o comando da publicação e a direção da casa. Argumentava e contra-argumentava. Uma vez dado o sinal verde, botava na rua.
Como Poliparpo deve ter feito, sempre me perguntei de onde vinham certos dados, números, documentos. Muitas vezes sabia, outras não. E jamais os considerei inválidos se expusessem um esquema, se desmontassem uma fraude, se colocassem a pique uma quadrilha. Atendiam a interesses obscuros? Na maior parte do tempo, sim. Mas, apesar disso, não estarão sendo o interesse e o bem público defendidos de um mal maior?
Disse no post anterior: quem faz parte da roubalheira geralmente é uma fonte excelente. E não há nada melhor para o jornalismo que um ex-amigo ou ex-sócio ressentido. Quem teve o mínimo de vivência numa redação sabe que esse é o jogo. E que informação boa geralmente emerge de caminhos escuros.
A cada dia se constata que Carlinhos Cachoeira estava no rumo de se tornar um dos homens mais poderosos do País. Vejam a lista:
1) tinha um senador no bolso;
2) tinha deputados no bolso;
3) tinha uma grande empreiteira como parceira;
4) tinha informantes na Polícia Federal;
5) tinha informantes na Controladoria-Geral da União;
6) tinha informantes no Tribunal de Contas da União;
7) tinha conexões com o gabinete do governador Marconi Perillo, por meio da ex-chefe de gabinete;
8) contribuía generosamente com campanhas políticas, da esquerda à direita;
9) tinha contatos estreitos com agências reguladoras;
10) tinha pretensões de colocar um ministro no Supremo Tribunal Federal;
11) tinha representantes nos órgãos de segurança e no judiciário...
Por que não teria conexões com a imprensa? Sobretudo, com o mais importante semanário do País? Ou alguém é ingênuo a ponto de acreditar que, para construir o poderoso rol acima, o contato com a Veja não fazia parte do plano de consolidação de objetivos? Derrubar alguém pelas páginas da revista tem o condão de aumentar exponencialmente o cacife de quem conseguiu tal feito.
Interessava a Cachoeira tornar-se intocável.
Pretendem colocar a Veja e seu chefe de sucursal no mesmo patamar de Demóstenes Torres. Com a seguinte diferença: contra o senador, há provas concretas, lúcidas, de que seu mandato estava a serviço não de Goiás, mas de um grupo criminoso que pretendia, entre outras coisas, se apossar do Estado. Há uma fartura de informações que seguem nessa direção.
E quanto à Veja? Há o que de concreto contra ela? Gravações de Cachoeira citando o nome do chefe da Redação? Pouco, pouquíssimo.
Que o bicheiro fez da revista parceira preferencial das suas manobras, se sabe...
Que a utilizava para atingir seus objetivos, também...
Que sabia que tudo aquilo que entregasse seria forte o suficiente para fazer um estrago monumental, nem se discute...
E que veículo de imprensa faria diferente do que fez a Veja?
Que jornal não publicaria imagens de figuras proeminentes do governo e do Legislativo fazendo romaria à suíte de José Dirceu, num hotel em Brasília?
Ninguém jamais disse que a Renata LoPrete tinha algum contato além do jornalístico com Roberto Jefferson, quando o ex-deputado resolveu detonar o escândalo do Mensalão. Não duvidaram da sua idoneidade, não assacaram contra sua moral, não colocaram em xeque sua capacidade. Tampouco ela foi chamada à CPI para dar explicações, como querem fazer com o Policarpo.
Se todo jornalista que tiver entre suas fontes um marginal, e que por conta disso passar a fazer revelações das mais estarrecedoras, for chamado a prestar depoimento, sujeitando-se à mais vil forma de intimidação - vamos mal.
Se quiserem entrar no debate sobre as relações fonte-repórter, mergulharemos numa discussão interminável e estéril.
Se quiserem rever as conexões da imprensa com o submundo do poder, teremos de recomeçar do zero.
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões (Graciliano Ramos)
quarta-feira, 9 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
Dias negros no jornalismo
Acompanho com atenção a briga Carta Capital-Veja-Globo-Record para chegar a uma fácil e simples conclusão: nenhum dos envolvidos tem autoridade para colocar o dedo na cara do outro. Por tudo o que fizeram no passado e fazem no presente, pelas ligações comerciais que têm, pelo ranço de ressentimento que os lados guardam mutuamente (e seus delfins fazem questão de botar a cabeça para fora, cada um verberando barbaridades do adversário), quem perde é a imprensa, o jornalismo, a reportagem, a opinião pública.
Recuso-me a falar em ética quando os dois times já mostraram que esse é um conceito parecido com o dos motores flex. Aliás, "ética" é uma palavrinha desmoralizada, que geralmente salga a boca de quem a profere.
Quando veículos de imprensa compram barulho de governos ou partidos, é sinal de que a isenção tornou-se uma farsa. O que vem a partir daí é produto da má-fé, da distorção, da angulação quase sempre caricata de um episódio. O jornalismo, no Brasil e lá fora, definitivamente não vive momentos felizes.
Uma coisa, porém, não se pode discutir: as melhores fontes são os bandidos, os vagabundos, os desonestos, os corruptos. Casos exemplares, nos quais bandos de marginais engravatados foram desbaratados, explodiram assim que figuras amorais abriram a boca. Inconfidências são sempre praticadas por comensais e serviçais.
Quero dizer que o delator é sempre um insatisfeito.
Já está provado que os honestos não são chamados a participar das crocodilagens que envolvem poder e dinheiro. Para ser quadrilheiro, tem que ter coragem. E não ter escrúpulos.
Conheço, sim, episódios nos quais jornalistas e fontes se tornaram sócias. Já estranhei alguns relacionamentos inúmeras vezes. Provar, porém, não consigo. Para isso, somente um inquérito seguido de processo seria possível. Já presenciei defesas apaixonadas que não custaram barato e que iam muito além de noticiar o fato em primeira mão. Já vi e já soube de muito "homem de imprensa" que trocou o respeito profissional por benefícios indiretos - até mesmo sexuais.
Mas volto a dizer: provar isso...
Claro que a relação fonte-repórter nem sempre chega a tal ponto. Aliás, tenho certeza de que na maioria das vezes não desce tão baixo. Só posso medir as coisas pela minha régua, pois meu âmbito de relacionamento profissional me levou a pessoas decentes, trabalhadores da notícia que fazem dela profissão de fé.
A partidarização do fato me assusta e me incomoda. Quem ler esse artigo poderá pensar: ficou no muro! NUNCA, DE FORMA ALGUMA! Tenho um lado muito claro, que não passa pela defesa de qualquer veículo, tampouco de agremiações ou governos. Estou do lado do jornalismo, gravemente aviltado por quem se diz seu defensor, mas que não tem envergadura para a tarefa.
(Aliás, nos últimos tempos, ficou provado que vestais guardam segredos inconfessáveis. O ainda senador Demóstenes Torres está aí para não me deixar mentir. Quem acompanhou sua trajetória estarreceu-se à vontade com o que viu, leu e ouviu sobre ele.)
A discussão, apesar dos atores de pouca credibilidade, está aberta, provocada pela polarização. Quero ver até que ponto realmente temos liberdade de imprensa e se essa liberdade está assentada em pilares sólidos - há quem queira trazer à tona a censura em forma de "regulação da mídia"; há quem deseje o escancaramento total para que as páginas sirvam de ringue de vale-tudo.
É tempo de avaliar relacionamentos profissionais. Os dias servem para estudar o quanto se precisa de veículos que sejam correia de transmissão de grupos, partidos, financiadores, personagens...
Antes que a imprensa não tenha mais jeito. E vire isso que se vê aí: um negócio dominado por quadrilhas.
Recuso-me a falar em ética quando os dois times já mostraram que esse é um conceito parecido com o dos motores flex. Aliás, "ética" é uma palavrinha desmoralizada, que geralmente salga a boca de quem a profere.
Quando veículos de imprensa compram barulho de governos ou partidos, é sinal de que a isenção tornou-se uma farsa. O que vem a partir daí é produto da má-fé, da distorção, da angulação quase sempre caricata de um episódio. O jornalismo, no Brasil e lá fora, definitivamente não vive momentos felizes.
Uma coisa, porém, não se pode discutir: as melhores fontes são os bandidos, os vagabundos, os desonestos, os corruptos. Casos exemplares, nos quais bandos de marginais engravatados foram desbaratados, explodiram assim que figuras amorais abriram a boca. Inconfidências são sempre praticadas por comensais e serviçais.
Quero dizer que o delator é sempre um insatisfeito.
Já está provado que os honestos não são chamados a participar das crocodilagens que envolvem poder e dinheiro. Para ser quadrilheiro, tem que ter coragem. E não ter escrúpulos.
Conheço, sim, episódios nos quais jornalistas e fontes se tornaram sócias. Já estranhei alguns relacionamentos inúmeras vezes. Provar, porém, não consigo. Para isso, somente um inquérito seguido de processo seria possível. Já presenciei defesas apaixonadas que não custaram barato e que iam muito além de noticiar o fato em primeira mão. Já vi e já soube de muito "homem de imprensa" que trocou o respeito profissional por benefícios indiretos - até mesmo sexuais.
Mas volto a dizer: provar isso...
Claro que a relação fonte-repórter nem sempre chega a tal ponto. Aliás, tenho certeza de que na maioria das vezes não desce tão baixo. Só posso medir as coisas pela minha régua, pois meu âmbito de relacionamento profissional me levou a pessoas decentes, trabalhadores da notícia que fazem dela profissão de fé.
A partidarização do fato me assusta e me incomoda. Quem ler esse artigo poderá pensar: ficou no muro! NUNCA, DE FORMA ALGUMA! Tenho um lado muito claro, que não passa pela defesa de qualquer veículo, tampouco de agremiações ou governos. Estou do lado do jornalismo, gravemente aviltado por quem se diz seu defensor, mas que não tem envergadura para a tarefa.
(Aliás, nos últimos tempos, ficou provado que vestais guardam segredos inconfessáveis. O ainda senador Demóstenes Torres está aí para não me deixar mentir. Quem acompanhou sua trajetória estarreceu-se à vontade com o que viu, leu e ouviu sobre ele.)
A discussão, apesar dos atores de pouca credibilidade, está aberta, provocada pela polarização. Quero ver até que ponto realmente temos liberdade de imprensa e se essa liberdade está assentada em pilares sólidos - há quem queira trazer à tona a censura em forma de "regulação da mídia"; há quem deseje o escancaramento total para que as páginas sirvam de ringue de vale-tudo.
É tempo de avaliar relacionamentos profissionais. Os dias servem para estudar o quanto se precisa de veículos que sejam correia de transmissão de grupos, partidos, financiadores, personagens...
Antes que a imprensa não tenha mais jeito. E vire isso que se vê aí: um negócio dominado por quadrilhas.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Caiu na rede é peixe
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| Cabral brinca: a opinião pública não achou graça alguma |
Disse num post anterior que conheci Cabral no mesmo banco de faculdade, fazendo campanha para vereador com panfleto desenhado por Ziraldo, amigo da família desde a época em que seu pai escreveu no "Pasquim". Tempos depois, encontro-o em evento político no Museu do Primeiro Reinado, quando, ao ser recebido com um abraço efusivo, me confidenciou que estava noivando a "neta do Tancredo" (o Tancredo aqui é Tancredo Neves, futuro e fugaz presidente da República). Num evento de final de ano, no Alcaparras, eis que cruzo com ele no banheiro do restaurante: Sérgio já era deputado, talvez presidente da Alerj - minha memória não chega a tantas minúcias.
De um ponto a outro, se passaram uns 10 anos. Cabral jamais escondeu a ambição. Era natural que, com uma trajetória que inclui ter sido um jovem senador, cultivasse amizades. E que essas mesmas amizades não tivessem surgido pela capacidade de o hoje governador contar piadas sujas - se é que realmente tem tal habilidade.
Há anos ouço que Cabral amealhou um invejável patrimônio, com direito a casa com deck para barcos de porte em Angra dos Reis. Com os vencimentos que acumula, pode ser que seja possível tanta coisa. Mesmo assim, quem já viu a casa não prestaneja em dizer que se trata de um imóvel de milionário. Mas vá lá que ele tenha conseguido financiamento para obter algo tão suntuoso.
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| Cavendish é o terceiro a partir da esquerda. Todos irradiam prosperidade |
Também estranho a quantidade de notas na imprensa que dizem das viagens que Cabral faz ao exterior, sobretudo a Paris. Li dezenas delas na coluna de Jorge Bastos Moreno, no Globo. De início achei brincadeira, mas hoje me dou conta de que tratava-se de verdade. O governador parece ter imensa afinidade com a Cidade Luz. Por conta dessa constância de idas à aprazível e elegante capital francesa, em tom de chacota dizia-se que Cabral é o governador de direito enquanto seu vice, Luiz Pezão, é o governador de fato.
(Sem querer parecer futriqueiro, do Charles de Gaulle para o aeroporto de Basileia-Freinburg-Mulhouse, já dentro de território suíço, bastam 45 minutos de voo em confortáveis jatos de porte médio da Air France. Digo isso porque já fiz essa viagem. A trabalho, registre-se.)
Chamou-me a atenção também quando, tempos atrás, época em que o governador viveu crise conjugal, o prefeito Eduardo Paz tivesse colocado à disposição de Cabral o apartamento do irmão, na fronteira de Copacabana com Ipanema. Não haveria qualquer estranheza não fosse um fato: Guilherme Paz é banqueiro em São Paulo. Era o caso de agradecer a gentileza e não aceitar. Por razões óbvias.
Discordo do mestre Elio Gaspari quando disse que as fotos de Cabral e seus companheiros de noite francesa sejam bregas, próprias dos novos ricos que se fartam em Paris gastando um dinheiro que suspeitamente conseguiram. Acho que não seriam nada de mais não fosse:
1) serem protagonizadas por administradores públicos;
2) estarem nelas incluídas empresários;
3) serem em Paris, cidade preferida dos novos e velhos endinheirados dos quatro cantos do planeta;
4) terem vindo à tona no momento em que se discute um caso de corrupção de proporções bíblicas, que abarca partidos e políticos do governo e da oposição.
Defendo a tese que o homem tem direito a descontrair, sobretudo depois de um lauto jantar regado certamente pelo mais distinto vinho. A brincadeira, o "joie de vivre", o prazer da companhia de amigos queridos - tudo isso faz parte das missões, oficiais ou não. Devem ser gostosíssimos a hospedagem no Bristol, os paparicos na Cartier ou na Maison Chanel, a noite no Lasserre ou no Alain Ducasse, um borgonha exclusivíssimo, Bentley para levar e trazer. Quem pode desfrutar de tudo isso exibe sorrisos de satisfação.
Os homens públicos, porém, devem manter a sobriedade e a discrição. Fosse eu e um grupo de amigos, não seria nada de mais. Talvez nos chamassem de deslumbrados, deslumbramento esse que um governador, secretários e empresários com negócios dentro do governo não podem se deixar aprisionar. O meio político é implacável e para cada amigo, há dois inimigos. Que vão fazer excelente uso da informação quando for a hora.
Cabral pode nem ter sido flagrado em delito. Só que, ligando as pontas - notas nos jornais, fotos, fatos -, certamente se deduz que tenha uma ligação com Fernando Cavendish que vai além da amizade e da afinidade pelo bem-viver. Ainda que saia desse turbilhão ileso, sua conduta como gestor público não recomenda a recondução para cargo algum. Isso, claro, se o bom-senso e a memória prevalecerem.
As fotos e os vídeos são de 2009, mas a imprudência (ou a arrogância alimentada pela certeza de que podia fazer o que quisesse?) de Cabral fez com que viessem à tona agora. Momento de uma CPI que investiga o amigo Cavendish e sua empresa, e também quando o governador está empenhado na recondução do parceiro Eduardo Paz à Prefeitura do Rio.
Cabral abriu o flanco que faltava, dentro do seu partido e no Estado do Rio, para que seus adversários/inimigos reduzam sua importância. E se sua credibilidade não era das maiores, agora tende a murchar. Por mais que quem o ataque não mereça o respeito da opinião pública.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Nada mais que a obrigação
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| Cláudio talvez tenha tomado uma das poucas atitudes dignas da vida |
O dito "comunismo" servia de pretexto para a formação de uma rede de criminalidade e de exploração política que era preciso que fosse mantida. Nos altos gabinetes sabia-se perfeitamente que aquela roda fazia fortuna. E que não podia ser parada.
Os oficiais generais bradavam o perigo esquerdista enquanto, na parte de baixo, formava-se a corrente de políticos com acesso às benesses dos governos, protegidos pelos aparatos policiais legais e ilegais.
Mas para essa máquina funcionar, e o dinheiro continuar jorrando para toda a cadeia alimentar, era preciso matar. Do bandido ao militante, era preciso faxinar. A diferença é que o marginal, geralmente de família pobre, não tinha quem reclamasse seu corpo. De antemão, sabia-se que seu fim era morte ou cadeia.
O militante, não. Por trás contava com uma série de contatos que era sua única proteção. Se caísse e não voltasse, a mensagem fora passada. Estava morto. Restava à família solicitar os despojos ao governo.
Matava-se por diversão, por esporte, por perversidade. Tal liberdade era dada pelos governos, em seus três níveis. Como o ex-delegado deixa evidente, não havia código de ética, qualquer conduta valia.
Matava-se para possuir a mulher do próximo, por que não por mero e macabro deleite? O preso está ali mesmo, subjugado. Naquele momento, as trevas para os assassinos pareciam eternas, a ponto de lhes encobrir os atos hediondos
Lembro de dois episódios particularmente interessantes: um público, outro privado.
O público: o desaparecimento de Luiz Jatobá Filho com seu colega, Misaque José Marques. Sumiram na Região Oceânica de Niterói. Não tinham nada a ver com militância política, mas com criminalidade pura e simples. Luiz Jatobá pai, locutor dos primórdios da TV, foi várias vezes para a frente da câmera fazer pedidos patéticos sobre informação de seu filho. Sabia, como jornalista, que não o encontraria vivo. Queria somente o corpo para dar ao filho (e, por extensão, o mesmo direito à família de Misaque) um fim de alguma dignidade.
Os dois jamais voltaram. Por trás estava, segundo se comentou na época, uma partida de drogas tomada junto a um grande banqueiro de bicho do Rio e que não foi paga. Quem o assassinou? Policiais civis e militares que eram sócios do bicheiro não somente nas bancas de jogo, mas na distribuição de cocaína e maconha nos morros niteroienses. Um se tornou sócio-braço-direito de outro "capo" do bicho, dono de vários pontos em Niterói e ex-capitão do Exército - igualmente apontado como um dos mais prolíficos torturadores dos quarteis cariocas.
Não sobraram restos mortais porque, reza a lenda, os cadáveres foram dissolvidos numa banheira de ácido muriático.
Outro episódio aconteceu com meu pai. O apartamento vizinho ao dele, onde mora até hoje, passou anos fechado. Um sábado, mudou-se para lá um coronel-PM que deu um "open house" para inaugurar o novo lar. Como forma de socializar-se, chamou meu pai para uma dose de uísque, ingenuamente aceita.
Menos de 10 minutos depois, meu pai estava de volta em casa:
"Mas já?", disse minha mãe.
Meu velho estava incomodado. Voltara com o semblante pesado, franzido. A festa estava cheia de militares, tanto da PM, quanto das Forças Armadas.
"O fulano (o tal coronel, cujo nome sinceramente não lembro e que felizmente morou ali por somente algumas semanas) estava dizendo que na noite anterior tinha 'queimado' (literalmente? Ou é a gíria da bandidagem, que significa matar?) uns garotos..."
O uísque desceu com o peso de um paralelepípedo.
Não dá, portanto, para dizer que os militares não instalaram um regime de terror do País, tampouco acreditar que eles souberam de tudo depois, na redemocratização. É uma mentira grosseira, torpe. Sabiam de tudo e incentivavam o "guarda da esquina" (como vaticinou Pedro Aleixo) a fazer o que quisesse. A autoridade virou uma carteirinha falsificada.
O mesmo homem que torturava, servia-se da prostituição, do tráfico de drogas e de armas, da venda de facilidades no Detran, do sistema de despachantes nos tribunais e cartórios. Começava pagando dízimo a alguém (um general, um juiz, um desembargador, o governador, o prefeito...) até que criasse suas próprias conexões. Formava-se a trama dentro da trama. Todo prejuízo corria por conta do cidadão-contribuinte-eleitor.
O livro do ex-delegado do DOPS é um monumento ao surgimento paulatino da verdade. Quero lê-lo o quanto antes. Provavelmente não cita nomes para cima. Assume e purga suas culpas, localiza personagens mortos ou de menor importância. Tem, porém, o condão de revelar o envolvimento maciço do governo com os assassinatos em nome da segurança nacional.
O ex-delegado cumpriu o papel sempre desprezível de mostrar a nojeira na qual chafurdou. Não é o caso de considerá-lo um heroi, de perdoá-lo. Jamais será. Não se deve também vê-lo com mais ou menos dignidade.
Não fez mais que a obrigação.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
A autonomia do DF tem que acabar
Li estarrecido a notícia publicada sábado, n'O Globo, afirmando que o governo do DF tem uma pesquisa na qual se Agnelo disputasse uma eleição com Arruda, Arruda ganhava! Isso para mim quer dizer simplesmente o seguinte: o DF não pode ter autonomia administrativa.
Já não podia em 2010, quando uma eleição enviezada colocou Rogério Rosso para completar os meses que faltavam do governo Arruda. Ninguém tem dúvida alguma de que uma gangue vampirizou o GDF durante décadas; as imagens feitas pelo Durval Barbosa são fortes demais, impressionantes demais, incontestáveis demais. Então, como é que o eleitor pode querer que o Arruda volte?
Pior: no Reynaldo Azevedo, na Veja, está que Agnelo perderia até mesmo para Joaquim Roriz num suposto pleito. Para quem não sabe, ou não quer saber ou não pretende se lembrar, Arruda e Roriz são rigorosamente o mesmo grupo político. Quem serviu a um, serviu a outro.
E não é somente isso: Arruda renunciou, assim como Roriz renunciou à cadeira no Senado. Roriz, aliás, está inelegível pela próxima década. Foi tragado pela Ficha Limpa.
Então, é só aparecem denúncias (fortes, pesadas e fortemente documentadas) para que o eleitor do DF queira novamente os mesmos bandidos que não faz muito tempo estavam no poder?
Vale ressaltar que, no governo Arruda, teve auxiliar direto do ex-governador sendo levado preso para a Papuda! PA-PU-DA! Foi em cana como bandido comum.
Vale ressaltar que Roriz foi flagrado numa gravação acertando com Tarcísio Franklin de Moura, ex-presidente do BRB, a divisão de um dinheiro que, para quem está com a memória fraca, era público. E queriam levar o butim para ser repartido no escritório de outro facínora, Nenê Constantino, acusado de grilagem de terras e de mandar cometer um assassinato.
Vale ressaltar que a deputada federal Jaqueline Roriz foi FLA-GRA-DA nas gravações de Durval pegando dinheiro (público!) para pagar dívidas de campanha. E que só se safou de um processo de cassação na Câmara porque seus colegas temeram passar a serem julgados pelos crimes que cometeram antes de assumirem o mandato.
Isso quer dizer que a política do DF não tem quadros à altura de assumir a gestão pública.
Em assim sendo, qual a melhor alternativa para o cidadão-contribuinte-eleitor? ACABAR COM A AUTONOMIA POLÍTICA DO DF!
Claro que a turma que fica agarrada nas tetas do GDF não quer nem pensar nessa possibilidade, mas é o melhor momento para discuti-la.
Em 2010, Agnelo ganhou uma eleição plebiscitária: era um novo (?) grupo político contra aquele que sugou o GDF por mais de uma década. Ou seja, houve a identificação clara de que Roriz e Arruda eram a mesma turma, que tentaria se segurar através de Weslian, caso inédito de uma governadora-títere do próprio marido. Agnelo era um recém-chegado e, embora turbinado por grupos que oportunísticamente deixaram o outro lado, não vinha com o cheiro de bolor dos rorizistas explícitos e ocultos.
O DF é sustentado em boa parte por recursos da União. A polícia é a mais bem paga do País porque não é o governo que a banca. Os professores, a mesma coisa. Ou seja, a autonomia financeira é de brincadeirinha.
Se pesquisa houver, não deve ser feita com a pergunta ao eleitor sobre quem ganharia a eleição agora, no caso de saída de Agnelo. Deve ser indagado se o cidadão voltaria às urnas num plebiscito sobre se o DF deve continuar autônomo ou não.
Afinal, para onde quer que se olhe, as propostas são desalentadoras, desesperadoras, estarrecedoras, entristecedoras.
PS - Para que não digam que pegar carona na tragédia lulopetista é fácil, quem me conhece sabe perfeitamente que sempre defendi o fim da autonomia política e administrativa do DF.
Já não podia em 2010, quando uma eleição enviezada colocou Rogério Rosso para completar os meses que faltavam do governo Arruda. Ninguém tem dúvida alguma de que uma gangue vampirizou o GDF durante décadas; as imagens feitas pelo Durval Barbosa são fortes demais, impressionantes demais, incontestáveis demais. Então, como é que o eleitor pode querer que o Arruda volte?
Pior: no Reynaldo Azevedo, na Veja, está que Agnelo perderia até mesmo para Joaquim Roriz num suposto pleito. Para quem não sabe, ou não quer saber ou não pretende se lembrar, Arruda e Roriz são rigorosamente o mesmo grupo político. Quem serviu a um, serviu a outro.
E não é somente isso: Arruda renunciou, assim como Roriz renunciou à cadeira no Senado. Roriz, aliás, está inelegível pela próxima década. Foi tragado pela Ficha Limpa.
Então, é só aparecem denúncias (fortes, pesadas e fortemente documentadas) para que o eleitor do DF queira novamente os mesmos bandidos que não faz muito tempo estavam no poder?
Vale ressaltar que, no governo Arruda, teve auxiliar direto do ex-governador sendo levado preso para a Papuda! PA-PU-DA! Foi em cana como bandido comum.
Vale ressaltar que Roriz foi flagrado numa gravação acertando com Tarcísio Franklin de Moura, ex-presidente do BRB, a divisão de um dinheiro que, para quem está com a memória fraca, era público. E queriam levar o butim para ser repartido no escritório de outro facínora, Nenê Constantino, acusado de grilagem de terras e de mandar cometer um assassinato.
Vale ressaltar que a deputada federal Jaqueline Roriz foi FLA-GRA-DA nas gravações de Durval pegando dinheiro (público!) para pagar dívidas de campanha. E que só se safou de um processo de cassação na Câmara porque seus colegas temeram passar a serem julgados pelos crimes que cometeram antes de assumirem o mandato.
Isso quer dizer que a política do DF não tem quadros à altura de assumir a gestão pública.
Em assim sendo, qual a melhor alternativa para o cidadão-contribuinte-eleitor? ACABAR COM A AUTONOMIA POLÍTICA DO DF!
Claro que a turma que fica agarrada nas tetas do GDF não quer nem pensar nessa possibilidade, mas é o melhor momento para discuti-la.
Em 2010, Agnelo ganhou uma eleição plebiscitária: era um novo (?) grupo político contra aquele que sugou o GDF por mais de uma década. Ou seja, houve a identificação clara de que Roriz e Arruda eram a mesma turma, que tentaria se segurar através de Weslian, caso inédito de uma governadora-títere do próprio marido. Agnelo era um recém-chegado e, embora turbinado por grupos que oportunísticamente deixaram o outro lado, não vinha com o cheiro de bolor dos rorizistas explícitos e ocultos.
O DF é sustentado em boa parte por recursos da União. A polícia é a mais bem paga do País porque não é o governo que a banca. Os professores, a mesma coisa. Ou seja, a autonomia financeira é de brincadeirinha.
Se pesquisa houver, não deve ser feita com a pergunta ao eleitor sobre quem ganharia a eleição agora, no caso de saída de Agnelo. Deve ser indagado se o cidadão voltaria às urnas num plebiscito sobre se o DF deve continuar autônomo ou não.
Afinal, para onde quer que se olhe, as propostas são desalentadoras, desesperadoras, estarrecedoras, entristecedoras.
PS - Para que não digam que pegar carona na tragédia lulopetista é fácil, quem me conhece sabe perfeitamente que sempre defendi o fim da autonomia política e administrativa do DF.
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| Agnelo faz o V que pode ser o de "Vai embora" |
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| Roriz, apesar das "pesquisas", está inelegível por mais de uma década |
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| Arruda: de preso por corrupção a "candidato" à sucessão |
sexta-feira, 13 de abril de 2012
A mãe do PAC diz que governo é uma coisa, PT é outra. Lamento informar: na CPI do Cachoeira, não serão
"'A agenda do PT não é a agenda de Dilma', diz um expoente do governo. A
presidente, com a avaliação batendo sucessivos recordes, não teria
interesse em brigar com a imprensa, um dos setores que o partido, para
desviar o foco do mensalão, planeja envolver na CPI".
A nota foi publicada hoje no Painel, da Folha, a melhor coluna de pílulas políticas dos jornais diários nacionais. Foi ela quem levantou, na edição de ontem, a lebre de que a CPI do Cachoeira pode arrepiar muita gente se a construtora Delta também se tornar foco de investigação. PT e PMDB temem por isso e não é para menos.
O relator da CPI tem tudo para ser o senador Humberto Costa, aquele mesmo que foi escorraçado como ministro da Saúde do primeiro governo Lula. Ficou conhecido por entrar numa briga boçal com o governo Rosinha Garotinho por causa da dengue, que grassava no Rio.
(Sua atuação foi tão pífia, tão bisonha, que conseguiu fazer o governo federal perder a guerra da informação para os Garotinho! O casal fez de tudo para que a crise na saúde pública ficasse intensa para jogar a culpa no Palácio do Planalto. E conseguiu!)
Ou seja, no que depender de Humberto, a CPI vai tratar desde os tempos da construção de Brasília. Esperemos por um relatório final que não conclui coisa alguma. Será um festival de torpezas. O enredo a gente já conhece: a oposição não vai aceitar, apresentará um "relatório paralelo"...
...e segue o baile.
A questão é que o PT vai querer enrolar o governo nessa massaroca. Dependendo do rumo que a imprensa der a esse episódio - sim, ou alguém acredita que se fará alguma investigação da Delta, de Cachoeira etc.? -, começarão os apelos para o Palácio do Planalto descer do olimpo. A ministra Ideli Salvatti é particularmente sensível a argumentos do partido: sua atuação na CPI do Banestado a catapultou para a condição de uma das chefes da tropa de choque petista. Ideli é daquelas que dão "carrinho" pelas costas com a maior naturalidade.
Ainda que haja um PT ético, que quer aproveitar o momento para fazer uma depuração, e que a presidente e alguns ministros já tenham sinalizado que governo e questões partidárias não se misturam, não acredito que Dilma passará incólume, tampouco que conseguirá equidistância dessa que tem tudo para ser a crise que acabará com seu governo. Não porque ela queira, mas porque, mesmo com ordens expressas e explícitas, muita gente agirá por conta própria, colocando a máquina a favor da salvação do PT.
Sobretudo porque a CPI do Cachoeira expode com uma eleição municipal no horizonte. Em São Paulo, Lula antecipou o "fim da doença" para interferir nos rumos da campanha de Fernando Haddad, que não empolga. É dele também o sinal verde para o PT apoiar a CPI do Cachoeira, pois quer ver o governador Marconi Perillo (GO) ser tragado nessa queda d'água.
Ainda que enrolem, na tentativa de jogar os trabalhos da CPI o mais perto possível para o esvaziamento natural do Congresso com o começo das campanhas, o PT já está marcado para outubro próximo. Por conta das conexões que guarda com o governo de Agnelo Queiroz e pelo excesso de contratos que a Delta conseguiu de obras do PAC.
PAC esse, aliás, que tinha mãe: a atual presidente - conforme Lula várias vezes verberou. Se os jornais continuarem mostrando, como já começaram, a capacidade da Delta de fazer amigos e influenciar pessoas, vão começar a indagar como é que a construtora consegue "obrar" tantos milagres. E a mãe do PAC, nada sabia? Nem desconfiou?
Entenderam como será complicado para o governo ficar fora desse sanhaço?
PS - O DEM não pode rir de coisa alguma na CPI do Cachoeira. Além de tender ao desaparecimento, vai tomar uma dessas sovas históricas na próxima eleição por causa do Demóstenes.
A nota foi publicada hoje no Painel, da Folha, a melhor coluna de pílulas políticas dos jornais diários nacionais. Foi ela quem levantou, na edição de ontem, a lebre de que a CPI do Cachoeira pode arrepiar muita gente se a construtora Delta também se tornar foco de investigação. PT e PMDB temem por isso e não é para menos.
O relator da CPI tem tudo para ser o senador Humberto Costa, aquele mesmo que foi escorraçado como ministro da Saúde do primeiro governo Lula. Ficou conhecido por entrar numa briga boçal com o governo Rosinha Garotinho por causa da dengue, que grassava no Rio.
(Sua atuação foi tão pífia, tão bisonha, que conseguiu fazer o governo federal perder a guerra da informação para os Garotinho! O casal fez de tudo para que a crise na saúde pública ficasse intensa para jogar a culpa no Palácio do Planalto. E conseguiu!)
Ou seja, no que depender de Humberto, a CPI vai tratar desde os tempos da construção de Brasília. Esperemos por um relatório final que não conclui coisa alguma. Será um festival de torpezas. O enredo a gente já conhece: a oposição não vai aceitar, apresentará um "relatório paralelo"...
...e segue o baile.
A questão é que o PT vai querer enrolar o governo nessa massaroca. Dependendo do rumo que a imprensa der a esse episódio - sim, ou alguém acredita que se fará alguma investigação da Delta, de Cachoeira etc.? -, começarão os apelos para o Palácio do Planalto descer do olimpo. A ministra Ideli Salvatti é particularmente sensível a argumentos do partido: sua atuação na CPI do Banestado a catapultou para a condição de uma das chefes da tropa de choque petista. Ideli é daquelas que dão "carrinho" pelas costas com a maior naturalidade.
Ainda que haja um PT ético, que quer aproveitar o momento para fazer uma depuração, e que a presidente e alguns ministros já tenham sinalizado que governo e questões partidárias não se misturam, não acredito que Dilma passará incólume, tampouco que conseguirá equidistância dessa que tem tudo para ser a crise que acabará com seu governo. Não porque ela queira, mas porque, mesmo com ordens expressas e explícitas, muita gente agirá por conta própria, colocando a máquina a favor da salvação do PT.
Sobretudo porque a CPI do Cachoeira expode com uma eleição municipal no horizonte. Em São Paulo, Lula antecipou o "fim da doença" para interferir nos rumos da campanha de Fernando Haddad, que não empolga. É dele também o sinal verde para o PT apoiar a CPI do Cachoeira, pois quer ver o governador Marconi Perillo (GO) ser tragado nessa queda d'água.
Ainda que enrolem, na tentativa de jogar os trabalhos da CPI o mais perto possível para o esvaziamento natural do Congresso com o começo das campanhas, o PT já está marcado para outubro próximo. Por conta das conexões que guarda com o governo de Agnelo Queiroz e pelo excesso de contratos que a Delta conseguiu de obras do PAC.
PAC esse, aliás, que tinha mãe: a atual presidente - conforme Lula várias vezes verberou. Se os jornais continuarem mostrando, como já começaram, a capacidade da Delta de fazer amigos e influenciar pessoas, vão começar a indagar como é que a construtora consegue "obrar" tantos milagres. E a mãe do PAC, nada sabia? Nem desconfiou?
Entenderam como será complicado para o governo ficar fora desse sanhaço?
PS - O DEM não pode rir de coisa alguma na CPI do Cachoeira. Além de tender ao desaparecimento, vai tomar uma dessas sovas históricas na próxima eleição por causa do Demóstenes.
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| Fernando Cavendish: homem da Delta tem conexões com reis e amigos dos reis |
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Para onde se olhar, não se vê solução
O que esperar do governo do Estado do Rio? Nada. Isso eu já havia dito, várias vezes, em posts anteriores. São farsantes, galhofeiros travestidos de defensores do interesse público. Essas UPPs são história para boi dormir: saíram as armas pesadas entrou a surdina, a discrição. Os traficantes descobriram que dá para continuar vendendo cocaína sem chamar a atenção.
Mas a questão não é somente essa. Bandido, facínora, não desaparece simplesmente. Só quando morre. E quando continua vivo? Se foi expulso do morro, vai para outro lugar. Elementar, meu caro Beltrame. Ou disputa o ponto com a milícia ou com o bando rival. Para não ficar no prejuízo, vai para outro lugar controlado pela mesma facção.
Isso é óbvio, só que o Palácio Guanabara fingiu que não aconteceria. Fingiu que os traficantes expulsos do Alemão feito ratos, mais de um ano atrás, entrariam no mercado formal de trabalho.
"Mulher, cansei. Esse negócio de trocar tiro, de virar noite, de pagar arrego... Vou numa dessas agências de emprego. De repente, arranjo um de empacotador de supermercado. A gente vai viver de salário mínimo, mas, pelo menos, voltarei a ser um cara honesto".
Claro que um diálogo como esse jamais aconteceria. O bandido não nasce bandido, mas morre bandido. E bandido não se entrega, a menos que seja em condições extremas.
Quer dizer: aqueles ratos que figuram do Alemão iriam para algum outro lugar. Grande Rio, claro. Baixada? pode ser, mas o tráfico dá preferência a morros dentro da cidade, acessível a pessoas de poder aquisitivo. Niterói era a pedida óbvia.
E foram todos, ou quase todos, para lá. Muitos seguiram para a Região dos Lagos, local de Búzios e Cabo Frio. Outros tantos tomaram a região de Angra.
Niterói não chega a ser um apêndice do Rio, tal como Caxias. Foi capital de estado até 1974, quando houve a fusão de Guanabara e Estado do Rio. Tem uma população de alto poder aquisitivo e apresenta uma das maiores qualidades de vida do País, à frente até de Brasília. O niteroiense é bairrista e não gosta de ser confundido com o carioca, embora com ele divida espaços no trabalho, do outro lado da Baía da Guanabara.
Essa questão de qualidade de vida era até motivo de desprezo do niterioense pelo Rio. O cara que nasce e cresce em Niterói gosta de Niterói, até nos finais de semana. Vai às praias em Niterói, ao shopping em Niterói, aos restaurantes de Niterói.
Sofre, porém, com sua própria "Caxias": São Gonçalo. Município vizinho, separado por uma linha de trem, é pobre, feio, violento e desorganizado como a Baixada Fluminense. Num primeiro momento, abrigou vários dos bandidos expulsos do Rio. Que jamais pensaram em voltar, diga-se. Estudavam uma forma de se instalarem em Niterói.
O resultado é o roubo de carros subindo mais de 500%, de assaltos a residências na mesma proporção, o aumento da violência nas ruas e, claro, a prosperidade do tráfico, que volta a viver os brilhantes dias de Rio. E só agora Beltrame, o homem da inteligência, o cerebral, o técnico, o antenado, o plugado, percebeu isso. E anunciou um pacote para combater a violência em Niterói.
Lógico que vai aparecer algum energúmeno dizendo que o governo do estado apostou na deterioração da segurança pública na cidade (administrada pelo PDT) para enfraquecer o sucessor que o atual prefeito (o mesmo da tragédia do Morro do Bumba) pretende fazer. Essa é uma conta que não soma coisa alguma, só diminui. Nem PT, nem PMDB lucram com o esgarçamento do tecido social.
Leio o principal jornal do Rio de Janeiro todos os dias e não há uma única menção de que o prefeito de Niterói tenha se entendido com o Palácio Guanabara, ante a percepção de que a violência na cidade subia. Dizem que o prefeito vive mais em outro país que na cidade que "administra". Não posso provar isso, mas talvez esteja aí a explicação para não notar a gravidade da situação.
O estarrecedor é que, para onde se olhe, não se vê administrador comprometido com o bem comum. Em partido algum, nem de situação, nem de oposição. Um vácuo moral precupante. Tenho sempre dúvidas se nossa democracia é forte o suficiente para impedir uma proposta aventureira. Já tivemos caçadores de marajás; não me supreenderia se surgisse alguém com um discurso radical.
Estão brincando com nossa liberdade. Pode parecer sinistrose, eu sei. Mas estou muito preocupado em ver que a irresponsabilidade e a amoralidade tomaram conta do País.
Mas a questão não é somente essa. Bandido, facínora, não desaparece simplesmente. Só quando morre. E quando continua vivo? Se foi expulso do morro, vai para outro lugar. Elementar, meu caro Beltrame. Ou disputa o ponto com a milícia ou com o bando rival. Para não ficar no prejuízo, vai para outro lugar controlado pela mesma facção.
Isso é óbvio, só que o Palácio Guanabara fingiu que não aconteceria. Fingiu que os traficantes expulsos do Alemão feito ratos, mais de um ano atrás, entrariam no mercado formal de trabalho.
"Mulher, cansei. Esse negócio de trocar tiro, de virar noite, de pagar arrego... Vou numa dessas agências de emprego. De repente, arranjo um de empacotador de supermercado. A gente vai viver de salário mínimo, mas, pelo menos, voltarei a ser um cara honesto".
Claro que um diálogo como esse jamais aconteceria. O bandido não nasce bandido, mas morre bandido. E bandido não se entrega, a menos que seja em condições extremas.
Quer dizer: aqueles ratos que figuram do Alemão iriam para algum outro lugar. Grande Rio, claro. Baixada? pode ser, mas o tráfico dá preferência a morros dentro da cidade, acessível a pessoas de poder aquisitivo. Niterói era a pedida óbvia.
E foram todos, ou quase todos, para lá. Muitos seguiram para a Região dos Lagos, local de Búzios e Cabo Frio. Outros tantos tomaram a região de Angra.
Niterói não chega a ser um apêndice do Rio, tal como Caxias. Foi capital de estado até 1974, quando houve a fusão de Guanabara e Estado do Rio. Tem uma população de alto poder aquisitivo e apresenta uma das maiores qualidades de vida do País, à frente até de Brasília. O niteroiense é bairrista e não gosta de ser confundido com o carioca, embora com ele divida espaços no trabalho, do outro lado da Baía da Guanabara.
Essa questão de qualidade de vida era até motivo de desprezo do niterioense pelo Rio. O cara que nasce e cresce em Niterói gosta de Niterói, até nos finais de semana. Vai às praias em Niterói, ao shopping em Niterói, aos restaurantes de Niterói.![]() |
| Cenas da fuga do Alemão: e onde essa gente se enfiaria, Beltrame? |
O resultado é o roubo de carros subindo mais de 500%, de assaltos a residências na mesma proporção, o aumento da violência nas ruas e, claro, a prosperidade do tráfico, que volta a viver os brilhantes dias de Rio. E só agora Beltrame, o homem da inteligência, o cerebral, o técnico, o antenado, o plugado, percebeu isso. E anunciou um pacote para combater a violência em Niterói.
Lógico que vai aparecer algum energúmeno dizendo que o governo do estado apostou na deterioração da segurança pública na cidade (administrada pelo PDT) para enfraquecer o sucessor que o atual prefeito (o mesmo da tragédia do Morro do Bumba) pretende fazer. Essa é uma conta que não soma coisa alguma, só diminui. Nem PT, nem PMDB lucram com o esgarçamento do tecido social.
Leio o principal jornal do Rio de Janeiro todos os dias e não há uma única menção de que o prefeito de Niterói tenha se entendido com o Palácio Guanabara, ante a percepção de que a violência na cidade subia. Dizem que o prefeito vive mais em outro país que na cidade que "administra". Não posso provar isso, mas talvez esteja aí a explicação para não notar a gravidade da situação.
O estarrecedor é que, para onde se olhe, não se vê administrador comprometido com o bem comum. Em partido algum, nem de situação, nem de oposição. Um vácuo moral precupante. Tenho sempre dúvidas se nossa democracia é forte o suficiente para impedir uma proposta aventureira. Já tivemos caçadores de marajás; não me supreenderia se surgisse alguém com um discurso radical.
Estão brincando com nossa liberdade. Pode parecer sinistrose, eu sei. Mas estou muito preocupado em ver que a irresponsabilidade e a amoralidade tomaram conta do País.
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