Não tenho tido muito saco para ficar comentando política. Admito que está sem grandes assuntos e, aí, não me sinto muito à vontade de ficar dando pitaco em coisas que me demandariam profundidade para trazer um ângulo diferente. Assim sendo, para esfriar a cabeça e não encher a de vocês, vamos falar de rock! E de dois discos diametralmente opostos, embora em sequência: Never Say Die e Heaven and Hell, ambos do Black Sabbath.
Começando pelo segundo, vou relatar um episódio. Estava eu uma tarde na casa de meu compadre Velório, ouvindo o programa de rock que tinha sábado à tarde na Rádio 98, quando entrou a guitarra: pesadaça, bem na cara.
"Carajo, que porra é essa Velório?"
Continuamos ouvindo. Ele para mim:
"Parece o Ronnie James Dio cantando..." Confesso que, nessa época, conhecia pouco o Rainbow e não estava familiarizado com a voz do grande Dio. No final, o locutor anunciou: "Black Sabbath, Lonely is the world".
Silêncio. "Carajo" em únissono.
Seguiram-se dias de fome no São Vicente de Paulo para, ao final de uma semana, correr na Center Sound, do bravo Zé, perguntar sobre o disco que tinha essa música. Era o Heaven and Hell, que estava acabando de sair. Tive esse vinil até pouco tempo atrás e não sei se o passei para meu irmão ou para meu compadre Antônio Vicente. Mas o bicho ficou fino de tanto ouvir e com a contracapa branca, belíssima, encardida de tanto levá-lo para cima e para baixo.
Começa com um porradão, Neon Knights. Segue com Children of the sea, Lady Evil e fecha o lado um com Heaven and Hell. O lado dois não perde a pressão e termina com Lonely... Espetacular.
Dio, claro, estava cantando o fino. Tony Iommi e Geezer Butler inspiradíssimos e acho que a nota destoante é o simpático Bill Ward. Sempre o achei limitado, apesar de todo o esforço; as mesmas viradas, levadas, pratadas etc. Para quem começou ouvindo John Bonham e aprendeu a tocar bateria por causa do Ian Paice, Bill está longe de entrar para a lista dos heróis. Mas, concordemos: Bill não deixa a peteca cair. E acho-o uma figura simpatissíssima. Depois, falo de um disco solo que fez tempos atrás e que é excelente.
O legal de H&H é a sonoridade totalmente diferente dos discos anteriores do Sabbath, que seguiam certo padrão. Claro que é por causa de Dio: a voz poderosa modulou-se de outra maneira aos riffs de Tonny e Geezer, fazendo com que a banda se tornasse mais pesada e, para mim, menos sombria. Tinha passado a época dos morcegos, bruxas, diabinhos, cemitérios e coisas do tipo. Era hora de agregar outro fabulário, com guerreiros, cenários medievais, batalhas épicas, que Dio levou para a carreira-solo.
Mas esse som diferente era em parte, também, pela produção de Martin Birch, que passou a ser o cérebro por trás do Iron Maiden. São bem características, têm uma sonoridade própria, adquirida nos tempos do Rainbow e potencializada. Não foi por acaso que, com a saída de Dio, Martin vendeu sua capacidade para outros músicos.
O Sabbath, enfim, tinha assumido nova roupagem, tão fabulosa quanto a anterior. O chato é que isso não foi mantido a partir da saída de Dio, embora os discos que vieram fossem sempre corretos, para dizer o mínimo.
Mas vamos dar um passo atrás e falar de Never Say Die. Disco sensacional e acho que é uma despedida de Ozzy Osbourne em grande estilo. A faixa-título é fabulosa, pena que pouco executada. O restante do trabalho segue aquela linha evolutiva assumida pelo Sabbath desde Sabotage. Techincal Ecstasy dá uma leve decaída, mas sobe novamente em Never. Eu estava lá na turnê de 10 anos do Sabatth, cuja abertura foi de ninguém menos que o Van Halen - e que a galera no Kilburn State Gaumont deu a mínima.
De início, confesso que não entendi Never direito. Lembro que eu tinha um colega, apenas colega, que fazia o tipo chato e que, por gostar somente dos discos do Sabbath até o Sabbath Bloody Sabbath, ficava se amarrando para emprestar o Never. Quando emprestou, desceu quadrado, não sei se por causa do dono babaca ou pelo disco mesmo. Fato é que só fui aprender a apreciá-lo muito tempo depois.
Dizem que Ozzy o detesta, mas acho detestar um verbo forte demais. Talvez não esteja entre os prediletos pelas más recordações - foi sacado da banda; foi substituído por Dave Walker; voltou mas o clima entre ele e Tony já estava ruim; estava atolado na birita e na cocaína -, mas desprezível, definitivamente, não é.
Se alguém perguntar minha ordem de preferência dos discos do Sabbath com Ozzy, é essa: 1) Sabbath bloody/Volume 4; 2) Sabotage; 3) Never Say Die; 4) Techical Ecstasy; 5) Paranoid/Master of Reality; e 6) Black Sabbath. Vocês podem discordar à vontade, porque gosto não se discute. Mas tenho boas razões para que a lista seja esta, com dois discos dividindo o 1º e o 5º lugar.
Em Never, o Sabbath ousa tanto quanto em Sabotage, usando naipe de metais, gaita, Bill Ward nos vocais, sintetizadores de Don Airey. Claro que assusta: espera-se sempre que elementos como esses de alguma forma não se ajustem ao todo. Mas fica espetacular, sobretudo porque Rick Wakeman (o famoso Spock Wall) estava ajudando a banda nos arranjos. Em Sabotage, para quem não se lembra, havia coro, percussão sinfônica e outras coisas pouco comuns.
O que eu gostava no Sabbath era essa evolução, essa mistura com outros elementos, mas sem perder a característica. Considero Tony Iommi um dos mais brilhantes guitarristas e arranjadores do rock, que embora não tivesse a técnica de um Jimmy Page, era mais arejado do que um Ritchie Blackmore - para falarmos de dois contemporâneos. Não é por acaso que está até hoje aí, enquanto os outros dois estão semi-aposentados.
Never, para mim, é um dos grande discos de metal. Até o Bill Ward está bem, embora dentro das limitações que já relatei. É o tipo do disco que é preciso gostar muito do Sabbath para entendê-lo.
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões (Graciliano Ramos)
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011
sexta-feira, 26 de agosto de 2011
Sons para se ouvir no carro II
Vim para o Ministério hoje ouvindo um dos discos que mais gosto da minha coleção: "Fire down under", do Riot. Fiquei sabendo da existência dessa banda de metal novaiorquina no começo dos anos 80. O LP deles foi lançado pela Elektra, embora minha versão em CD seja por um pequeno selo alemão especializado em trabalhos que saíram de catálogo de gravadoras maiores. Taí um bom negócio para todo mundo: não fica engavetado no arquivo da major, o artista recebe seus direitos e o fã tem a possibilidade de obter uma peça que lhe interessa. Difícil, é claro, sempre é achá-la.
Questões burocráticas à parte, foi o primeiro disco que ouvi deles, embora tenha dois outros anteriores, que não acho grande coisa. Em "Fire down under", exceto pelo vocalista Guy Speranza e pelo guitarrista-solo Mark Reale, o restante da banda foi toda trocada e, a meu conceito, por músicos bem superiores que aqueles que estavam nos dois primeiros LPs. Sandy Slavin, Kip Leming e Rick Ventura deram outra força ao grupo.
Mas não foi somente isso. As composições também são bem mais inspiradas, mais maduras. A faixa que dá nome ao disco é logo a segunda, em vez de ter ficado lá para o final. A que abre, "Swords & Tequila", é um rocaço que merece atenção. O restante rola redondo, intenso. Eletriza do começo ao final e é um dos poucos discos de metal do começo dos anos 80 que resistiram ao teste do tempo. Experimente pegar, por exemplo, "Straight between the eyes", do Rainbow, e veja o quanto é datado. "Fire down under" não comete esse pecado.
Foi sobretudo por causa desse disco que Mark Reale chegou a ser chamado por Ozzy Osbourne para substituir Randy Rhoads, numa época, aliás, que ele tentou desesperadamente encontrar alguém igual - coisa que nem os excelentes Bernie Tormé e Brad Gillis conseguiram. Até que Ozzy se deu conta de que tinha de partir para alguém igualmente técnico, mas de personalidade, como foi Jake E. Lee (de quem falo na seção anterior, aliás).
Mas voltando ao Riot. Em seguida eles lançaram um disco, "Riot live", gravado na Inglaterra, resultado dos shows que fizeram por lá. Ainda ajudou a manter o bom momento de "Fire down under" para a banda. No LP seguinte, "Restless breed", as coisas começaram a degringolar: o religioso Speranza foi substituído por Rhett Forrester, que tinha um timbre de voz mais sujo e cansativo. O restante do time era o mesmo, só que não foi capaz de frear o carro na descida da ladeira. A partir do "Born in USA", o Riot se arrastou e se tornou mais uma desses grupos cujos discos são plenamente dispensáveis. Mais nada.
Daí que, se você quiser ouvir o melhor do Riot, escolha "Fire down under". É um excelente trababalho de estúdio. "Riot live" é um bom substituto e "Resteless breed" serve para matar a curiosidade, mas pode impressionar negativamente. O restante, esqueça.
Para concluir: os dois vocalistas, Speranza e Forrester, já morreram. O primeiro, de uma doença que não lembro qual é; o segundo, assassinado.
Questões burocráticas à parte, foi o primeiro disco que ouvi deles, embora tenha dois outros anteriores, que não acho grande coisa. Em "Fire down under", exceto pelo vocalista Guy Speranza e pelo guitarrista-solo Mark Reale, o restante da banda foi toda trocada e, a meu conceito, por músicos bem superiores que aqueles que estavam nos dois primeiros LPs. Sandy Slavin, Kip Leming e Rick Ventura deram outra força ao grupo.
Mas não foi somente isso. As composições também são bem mais inspiradas, mais maduras. A faixa que dá nome ao disco é logo a segunda, em vez de ter ficado lá para o final. A que abre, "Swords & Tequila", é um rocaço que merece atenção. O restante rola redondo, intenso. Eletriza do começo ao final e é um dos poucos discos de metal do começo dos anos 80 que resistiram ao teste do tempo. Experimente pegar, por exemplo, "Straight between the eyes", do Rainbow, e veja o quanto é datado. "Fire down under" não comete esse pecado.
Foi sobretudo por causa desse disco que Mark Reale chegou a ser chamado por Ozzy Osbourne para substituir Randy Rhoads, numa época, aliás, que ele tentou desesperadamente encontrar alguém igual - coisa que nem os excelentes Bernie Tormé e Brad Gillis conseguiram. Até que Ozzy se deu conta de que tinha de partir para alguém igualmente técnico, mas de personalidade, como foi Jake E. Lee (de quem falo na seção anterior, aliás).
Mas voltando ao Riot. Em seguida eles lançaram um disco, "Riot live", gravado na Inglaterra, resultado dos shows que fizeram por lá. Ainda ajudou a manter o bom momento de "Fire down under" para a banda. No LP seguinte, "Restless breed", as coisas começaram a degringolar: o religioso Speranza foi substituído por Rhett Forrester, que tinha um timbre de voz mais sujo e cansativo. O restante do time era o mesmo, só que não foi capaz de frear o carro na descida da ladeira. A partir do "Born in USA", o Riot se arrastou e se tornou mais uma desses grupos cujos discos são plenamente dispensáveis. Mais nada.
Daí que, se você quiser ouvir o melhor do Riot, escolha "Fire down under". É um excelente trababalho de estúdio. "Riot live" é um bom substituto e "Resteless breed" serve para matar a curiosidade, mas pode impressionar negativamente. O restante, esqueça.
Para concluir: os dois vocalistas, Speranza e Forrester, já morreram. O primeiro, de uma doença que não lembro qual é; o segundo, assassinado.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
Sons para se ouvir no carro I
Sei que tenho andado negligente com meus poucos leitores (sei apenas de dois amigos, Jorge Eduardo e Lobão - não o músico, mas o jornalista e crítico de cinema aqui de BSB), mas, para preencher esta lacuna, vou criar uma seção. Como músico frustrado e fã incondicional dos mais variados sons, não me furto a falar de música, seja em que ambiente for. Assim, copiando descaradamente uma parte do site do cantor Richie, está estabelecido a partir deste momento o SONS PARA SE OUVIR NO CARRO.
Vou começar com o que estou escutando neste momento (tá bem, não exatamente neste momento, pois estou na frente do computador digitando estas linhas) no meu super Chevy Vectra: Badlands. Ouço os CDs "Voodoo highway" e "Dusk". Tenho também o primeiro, somente "Badlands", que está guardadinho em casa.
"Voodoo hwy" não é um grande disco, mas não é de se jogar às feras. Nem sei exatamente se é inferior ao disco de estreia da banda, mas superior certamente não é. Explico: quando o Badlands apareceu, chegou com a pecha de supergrupo. Jake E. Lee (ex-Ozzy Osbourne), Ray Gillen (ex-Black Sabbath, embora não oficialmente), Eric Singer (ex-Sabbath e futuramente no Kiss) e Greg Chaisson formavam um quarteto altamente influenciado pelo Led Zeppelin. Se Gillen pudesse, apertava um botão e virava Robert Plant.
Essa reunião de músicos com currículo certamente dispersou a atenção para a música, que, ouvindo hoje, não chega a ser brilhante. É boa, apenas. No "Voodoo hwy", a fórmula permanece a mesma, embora o baterista seja outro - o muito bom Jeff Martin. Os toques de blues e até mesmo uma versão de "Fire & Rain", de James Taylor, não foram suficientes para salvar o disco, que naufragou. Depois do primeiro, que foi um baita sucesso, não se esperava tal decepção.
A partir daí a aura de supergrupo se desfez. Afinal, todos os assim classificados têm a obrigação de fazer gols de placa. Não foi o caso e a banda foi para o saco. O contrato com a Atlantic (via Titanium Records) foi devidamente cancelado. E cada um foi para seu lado.
"Dusk" é um terceiro disco que jamais foi lançado em grande circuito. As gravações já estavam prontas e mixadas, quando o Badlands ficou sem contrato. O disco foi engavetado até que Chaisson resolvesse tirá-lo da prateleira para editá-lo por uma pequena gravadora europeia. É um CD que somente os aficcionados têm, mas entra tranquilamente na lista dos dispensáveis. Em tempo: a sonoridade é a mesma de "Badlands" e "Voodoo hwy", sem tirar nem pôr. Inclusive, tem uma bela canção, "Sun red sun", que daria nome a um fracassado projeto que Gillen se envolveria em seguida. "Dusk" terminou sendo uma homenagem a Gillen, que não muito tempo depois morreria de Aids.
Resumo da ópera: são bons trabalhos, mas nada que vá mudar sua vida. Se você os tiver, ótimo; se não, ótimo também. São bem executados, mas sem muita inspiração. Dão a impressão que você já ouviu aquilo, anos antes e de forma mais brilhante, num disco de sobras do Zeppelin. Isso se o Zeppelin não tivesse legado sobras sensacionais, como "Physical graffiti" e "Coda".
Vou começar com o que estou escutando neste momento (tá bem, não exatamente neste momento, pois estou na frente do computador digitando estas linhas) no meu super Chevy Vectra: Badlands. Ouço os CDs "Voodoo highway" e "Dusk". Tenho também o primeiro, somente "Badlands", que está guardadinho em casa.
"Voodoo hwy" não é um grande disco, mas não é de se jogar às feras. Nem sei exatamente se é inferior ao disco de estreia da banda, mas superior certamente não é. Explico: quando o Badlands apareceu, chegou com a pecha de supergrupo. Jake E. Lee (ex-Ozzy Osbourne), Ray Gillen (ex-Black Sabbath, embora não oficialmente), Eric Singer (ex-Sabbath e futuramente no Kiss) e Greg Chaisson formavam um quarteto altamente influenciado pelo Led Zeppelin. Se Gillen pudesse, apertava um botão e virava Robert Plant.
Essa reunião de músicos com currículo certamente dispersou a atenção para a música, que, ouvindo hoje, não chega a ser brilhante. É boa, apenas. No "Voodoo hwy", a fórmula permanece a mesma, embora o baterista seja outro - o muito bom Jeff Martin. Os toques de blues e até mesmo uma versão de "Fire & Rain", de James Taylor, não foram suficientes para salvar o disco, que naufragou. Depois do primeiro, que foi um baita sucesso, não se esperava tal decepção.
A partir daí a aura de supergrupo se desfez. Afinal, todos os assim classificados têm a obrigação de fazer gols de placa. Não foi o caso e a banda foi para o saco. O contrato com a Atlantic (via Titanium Records) foi devidamente cancelado. E cada um foi para seu lado.
"Dusk" é um terceiro disco que jamais foi lançado em grande circuito. As gravações já estavam prontas e mixadas, quando o Badlands ficou sem contrato. O disco foi engavetado até que Chaisson resolvesse tirá-lo da prateleira para editá-lo por uma pequena gravadora europeia. É um CD que somente os aficcionados têm, mas entra tranquilamente na lista dos dispensáveis. Em tempo: a sonoridade é a mesma de "Badlands" e "Voodoo hwy", sem tirar nem pôr. Inclusive, tem uma bela canção, "Sun red sun", que daria nome a um fracassado projeto que Gillen se envolveria em seguida. "Dusk" terminou sendo uma homenagem a Gillen, que não muito tempo depois morreria de Aids.
Resumo da ópera: são bons trabalhos, mas nada que vá mudar sua vida. Se você os tiver, ótimo; se não, ótimo também. São bem executados, mas sem muita inspiração. Dão a impressão que você já ouviu aquilo, anos antes e de forma mais brilhante, num disco de sobras do Zeppelin. Isso se o Zeppelin não tivesse legado sobras sensacionais, como "Physical graffiti" e "Coda".
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