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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Meus 10 mais

Adoro essas listas de 10 mais. Há quem diga que faça análises para justificar seus escolhidos, mas não creio que seja nada disso. As coisas se baseiam em gosto, puro e simples. Sobre discos, por exemplo: há quem diga que pegou tal LP porque foi influente, porque mudou isso ou aquilo. Acho a maior conversa fiada. Pegou porque gosta, ora. Mas confessar isso é complicado.
Poucos sabem que toco bateria. Tenho na minha casa um instrumento profissional, daqueles que muitos que vivem da música talvez gostassem de ter. Montei-o ao longo dos anos e considero que, agora, estou com o kit ideal. Não vale à pena descrevê-lo, mas entro nesse assunto para fazer minha lista dos 10 maiores bateristas de todos os tempos.
Não vai aqui qualquer daquelas cascatas sobre influência sobre os demais, importância para a música etc. Entra aqui o gosto, a impressão de tê-los ouvido pela primeira vez, o quanto tenho deles na minha coleção de discos, seja em LP ou em CD. É pura "gostologia". Se fizerem parte de outras listas de 10 mais baseadas em profundas análises, em estudos musiciais e antropológicos, para mim pouco importa - é mera coincidência. Minha escolha é por predileção, nada mais.
Mesmo porque, esse blog é meu e ponho aqui quem eu quiser. Em tempo: a ordem não quer dizer que fulano é primeiro e sicrano é último. São apenas 10 nomes e pouco importa a posição deles no ranking, que, nesse caso aqui, não existe.

John Bonham - Ouvi-o pela primeira vez no Presence, meu primeiro de todos os discos e um dos últimos do Led Zeppelin. Nem preciso ficar versando aqui sobre a técnica do cara. Não acho, porém, que seus solos sejam de tirar o chapéu, mas, no conjunto da banda, é insubstituível. Gosto imensamente do seu trabalho de estúdio e, principalmente, sua criatividade. O fato de tocar alto tornou-se uma marca porque simplesmente a bateria era muitíssimo bem equalizada.

Ian Paice - O que me chamou a atenção desse cara é que comecei a tocar bateria por causa dele. Seu solo no Made in Europe continua sendo, para mim, grandioso e me levou ao curso. Paicey constumava se superar nas apresentações, pois no estúdio, para mim, avaliando hoje e desapaixonadamente, era correto. Nada muito avançado, embora de extremo bom gosto e apurada técnica. Tendo a achar que, nos últimos anos, tornou-se preguiçoso, perdendo boa parte daquela exuberância dos primeiros tempos do Deep Purple. Não vejo sua passagem pelo Whitesnake ou com Gary Moore como pontos altos, tampouco com essa encarnação mais recente do Purple.

Tommy Aldridge - Foi o cara que influênciou 10 entre 10 bateristas que se metem a tocar com os dois pés. Seu trabalho com dois bumbos é insuperável até hoje. Seus solos são formidáveis, espetaculares. Desde os tempos do Black Oak Arkansas sua forma de tocar chama a atenção. Foi ouvindo-o que aprendi a "matar", no tempo e no tempo adiantado, o som do prato. Tenho um show gravado com a banda em que eu tocava (meu irmão foi o cinegrafista) em que uso e abuso desse recurso. Não é nada tão difícil, mas impressiona. Quanto mais não seja, porque é algo que poucos utilizam.

Billy Cobham - Quando ouvi Spectrum, seu primeiro álbum-solo, pela primeira vez, o que me impressionou é que o cara transita na linguagem do jazz e do rock com a mesma facilidade. Também foi o primeiro cara que vi tocando "aberto", ou seja, os pés na posição de destro e os braços, na de canhoto. Prova que começou como auto-didata, aproveitando a posição que lhe parecia mais fácil. Foi o primeiro batera também que vi compondo. Seus discos, vários, comprovam que percussão não é algo menor. Além disso, me impressionou pelos solos, sempre abertos e variados, utilizando todos os (vários) elementos do seu instrumento.

Neil Peart - Comecei com esse cara ouvindo o 2112, que arrebentou no Brasil. Foi o primeiro disco do Rush com o qual tive contato. Depois, na casa do meu camarada Velório (já falei dele aqui), conheci os demais. Muita gente falava de Carl Palmer, mas acho Neil, desses bateras que "vestem" a bateria, o mais impressionante de todos. Pela técnica, pelo bom gosto, por ser o responsável direto pelas mudanças do Rush de disco para disco. Imaginem se o batera ainda fosse o John  Rutsey, do primeiro disco? A banda não tinha ido tão longe. Além disso, se você escuta caras como Mike Portnoy ou Vinnie Paul, escuta por causa de Neil.

Tony Williams - Esse entrou na minha vida quando eu já estava mais maduro. Quando escutei suas conduções com Miles Davis, disse: esse cara quebra tudo. Simplesmente não seguem um padrão normal. Tony conjuga tão maravilhosamente bem todos os elementos com uma bateria mínima, que a gente chega a ter inveja dele. Gravou poucos discos-solos, todos de ótima categoria. Brinca com o jazz e com o rock com tranquilidade semelhante a de Billy Cobhan, mas acho que, na primeira seara, Tony está além, enquanto Billy fica num patamar acima na segunda. Além disso, Tony não tinha medo de descer a mão, ouvir pratos e tambores em toda sua exuberância. Técnica é muito legal, mas paixão pelo instrumento é mais bonito ainda.

Buddy Rich - É um verdadeiro motor de big-bands. Não chega a ser um condutor criativo, que se afasta do convencional, mas, quando entra no solo, aí temos que prestar atenção. Seu domínio do instrumento é simplesmente perfeito. Sabe exatamente onde cada tambor ou prato está; não dá uma única baquetada nos aros ou chega nos pratos erradamente. Impressionante. Tenho vários dos seus discos-solo, pilotando grandes bandas. Acho que passou por um período de menosprezo porque os críticos e entendidos achavam que somente os bateristas negros eram grandes. Imensa bobagem; Buddy tem um disco com Max Roach que mostra que esse torço de cor é uma monumental idiotice. E se caras como Elvin Jones, Philly Joe Jones, Max, Gene Krupa, Shelly Manne, Jack DeJohnette, Roy Brooks e outros monstros do jazz não entram aqui, é porque considero que Buddy os representa com maestria.

Deen Castronovo - É, para mim, o discípulo mais aplicado de Tommy Aldridge. É rápido, tem uma técnica brutal, toca maravilhosamente com dois bumbos e vai nas mais distintas direções. É capaz de ser pesado com Marty Friedman e o GZR, e chegar ao heavy pop do Bad English e do Journey com a mesma tranquilidade.

Cozy Powell - Ouvi esse cara pela primeira vez na mostruosa abertura de Stargazer, do Rising, segundo álbum do Rainbow. Impressionante aquela combinação de caixa com os dois bumbos, que até hoje tento imitar e não consigo (pelo menos com a mesma perfeição). Quando deixou a companhia de Ritchie Blackmore, todos pareceram tê-lo descoberto. Está no primeiro disco de Robert Plant, Pictures at eleven, e rolou até o papo de que entraria na vaga deixada por John Bonham, no Zeppelin. Depois tocou com Michael Schenker, Black Sabbath, Gary Moore, Greg Lake & Keith Emerson, Whitesnake... A lista é imensa e prova como Cozy foi um dos maiores bateristas "on demand" dos anos 80/90, no rock. Antes disso tudo, fizera dois excelentes discos com o Jeff Beck Group. Morreu bestamente, por causa da paixão que tinha pela velocidade. Impressionava também seu kit de bateria, com aqueles bumbões de 26 polegadas, fosse com a Ludwig ou com a Yamaha. Um dos caras de que mais gosto.

David Garibaldi - Soul music é com ele. Claro que ele escutou tudo de Jabbo Sparks ou Ziggy Modeliste, da banda de James Brown, mas David elevou isso à 10ª potência. Os arranjos da Tower of Power são verdadeiros desafios, cumpridos por ele com uma precisão que parece serem fáceis aquelas paradas, pausas, atrasadas ou adiantadas no ritmo. O toque seco de David, com filigranas que deixam clara sua imensa técnica, é como peça de fina relojoaria.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Sons para se... (enfim, cês já sabem)

Não tenho tido muito saco para ficar comentando política. Admito que está sem grandes assuntos e, aí, não me sinto muito à vontade de ficar dando pitaco em coisas que me demandariam profundidade para trazer um ângulo diferente. Assim sendo, para esfriar a cabeça e não encher a de vocês, vamos falar de rock! E de dois discos diametralmente opostos, embora em sequência: Never Say Die e Heaven and Hell, ambos do Black Sabbath.
Começando pelo segundo, vou relatar um episódio. Estava eu uma tarde na casa de meu compadre Velório, ouvindo o programa de rock que tinha sábado à tarde na Rádio 98, quando entrou a guitarra: pesadaça, bem na cara.
"Carajo, que porra é essa Velório?"
Continuamos ouvindo. Ele para mim:
"Parece o Ronnie James Dio cantando..." Confesso que, nessa época, conhecia pouco o Rainbow e não estava familiarizado com a voz do grande Dio. No final, o locutor anunciou: "Black Sabbath, Lonely is the world".
Silêncio. "Carajo" em únissono.
Seguiram-se dias de fome no São Vicente de Paulo para, ao final de uma semana, correr na Center Sound, do bravo Zé, perguntar sobre o disco que tinha essa música. Era o Heaven and Hell, que estava acabando de sair. Tive esse vinil até pouco tempo atrás e não sei se o passei para meu irmão ou para meu compadre Antônio Vicente. Mas o bicho ficou fino de tanto ouvir e com a contracapa branca, belíssima, encardida de tanto levá-lo para cima e para baixo.
Começa com um porradão, Neon Knights. Segue com Children of the sea, Lady Evil e fecha o lado um com Heaven and Hell. O lado dois não perde a pressão e termina com Lonely... Espetacular.
Dio, claro, estava cantando o fino. Tony Iommi e Geezer Butler inspiradíssimos e acho que a nota destoante é o simpático Bill Ward. Sempre o achei limitado, apesar de todo o esforço;  as mesmas viradas, levadas, pratadas etc. Para quem começou ouvindo John Bonham e aprendeu a tocar bateria por causa do Ian Paice, Bill está longe de entrar para a lista dos heróis. Mas, concordemos: Bill não deixa a peteca cair. E acho-o uma figura simpatissíssima. Depois, falo de um disco solo que fez tempos atrás e que é excelente.
O legal de H&H é a sonoridade totalmente diferente dos discos anteriores do Sabbath, que seguiam certo padrão. Claro que é por causa de Dio: a voz poderosa modulou-se de outra maneira aos riffs de Tonny e Geezer, fazendo com que a banda se tornasse mais pesada e, para mim, menos sombria. Tinha passado a época dos morcegos, bruxas, diabinhos, cemitérios e coisas do tipo. Era hora de agregar outro fabulário, com guerreiros, cenários medievais, batalhas épicas, que Dio levou para a carreira-solo.
Mas esse som diferente era em parte, também, pela produção de Martin Birch, que passou a ser o cérebro por trás do Iron Maiden. São bem características, têm uma sonoridade própria, adquirida nos tempos do Rainbow e potencializada. Não foi por acaso que, com a saída de Dio, Martin vendeu sua capacidade para outros músicos.
O Sabbath, enfim, tinha assumido nova roupagem, tão fabulosa quanto a anterior. O chato é que isso não foi mantido a partir da saída de Dio, embora os discos que vieram fossem sempre corretos, para dizer o mínimo.
Mas vamos dar um passo atrás e falar de Never Say Die. Disco sensacional e acho que é uma despedida de Ozzy Osbourne em grande estilo. A faixa-título é fabulosa, pena que pouco executada. O restante do trabalho segue aquela linha evolutiva assumida pelo Sabbath desde Sabotage. Techincal Ecstasy dá uma leve decaída, mas sobe novamente em Never. Eu estava lá na turnê de 10 anos do Sabatth, cuja abertura foi de ninguém menos que o Van Halen - e que a galera no Kilburn State Gaumont deu a mínima.
De início, confesso que não entendi Never direito. Lembro que eu tinha um colega, apenas colega, que fazia o tipo chato e que, por gostar somente dos discos do Sabbath até o Sabbath Bloody Sabbath, ficava se amarrando para emprestar o Never. Quando emprestou, desceu quadrado, não sei se por causa do dono babaca ou pelo disco mesmo. Fato é que só fui aprender a apreciá-lo muito tempo depois.
Dizem que Ozzy o detesta, mas acho detestar um verbo forte demais. Talvez não esteja entre os prediletos pelas más recordações - foi sacado da banda; foi substituído por Dave Walker; voltou mas o clima entre ele e Tony já estava ruim; estava atolado na birita e na cocaína -, mas desprezível, definitivamente, não é.
Se alguém perguntar minha ordem de preferência dos discos do Sabbath com Ozzy, é essa: 1) Sabbath bloody/Volume 4; 2) Sabotage; 3) Never Say Die; 4) Techical Ecstasy; 5) Paranoid/Master of Reality; e 6) Black Sabbath. Vocês podem discordar à vontade, porque gosto não se discute. Mas tenho boas razões para que a lista seja esta, com dois discos dividindo o 1º e o 5º lugar.
Em Never, o Sabbath ousa tanto quanto em Sabotage, usando naipe de metais, gaita, Bill Ward nos vocais, sintetizadores de Don Airey. Claro que assusta: espera-se sempre que elementos como esses de alguma forma não se ajustem ao todo. Mas fica espetacular, sobretudo porque Rick Wakeman (o famoso Spock Wall) estava ajudando a banda nos arranjos. Em Sabotage, para quem não se lembra, havia coro, percussão sinfônica e outras coisas pouco comuns.
O que eu gostava no Sabbath era essa evolução, essa mistura com outros elementos, mas sem perder a característica. Considero Tony Iommi um dos mais brilhantes guitarristas e arranjadores do rock, que embora não tivesse a técnica de um Jimmy Page, era mais arejado do que um Ritchie Blackmore - para falarmos de dois contemporâneos. Não é por acaso que está até hoje aí, enquanto os outros dois estão semi-aposentados.
Never, para mim, é um dos grande discos de metal. Até o Bill Ward está bem, embora dentro das limitações que já relatei. É o tipo do disco que é preciso gostar muito do Sabbath para entendê-lo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Meeting Johnny Winter

Vi uma boa quantidade de shows na minha não tão larga vida. Tive a chance de ver o Deep Purple renascido, com Gillan e Morse, com Turner e Blackmore, mas por poucos dias perdi o do Led Zeppelin. Vi o Black Sabbath com Ozzy Osborune e vi o Black Sabbath travestido de Heaven & Hell, com Ronnie James Dio. Vi a grande formação do Jethro Tull (Anderson, Barre, Barlow, Glascock, Palmer e Evan) e outra nem tão glamurosa assim (Anderson, Barre, Palmer, Vettesse e Perry). Até dormi num show do Renaissance. Mas nenhum show foi tão fantástico quanto o de Johnny Winter.
Meu primeiro disco desse que para mim é o maior guitarrista de blues elétrico em todos os tempos (respeito todos, de Clapton a Gallagher, dos Kings [BB, Albert e Freddie] a Guy, e deles tenho vários discos) foi Austin: Texas, uma reedição de The Progressive Blues Experiment. E quando o vi, foi exatamente no local em que gravou este disco histórico: o Vulcan Gas Company, que era uma espécie de casa de shows, exatamente em Austin, capital do progressista estado de Tejas. O nome se explica porque ali funcionava uma companhia de gás liquefeito de petróleo que foi incorporada, creio, pela Gulf & Western. Removidas algumas paredes, o prédio baixo acabou servindo a um restaurante popular de manhã e uma boate de música ao vivo, à noite. Que rapidamente tornou-se o templo do blues texano.
Quando aconteceu o show, Johnny estava consolidando a nova banda. Floyd Radford, segunda guitarra, deu lugar a Pat Rush; Richard Hughes abriu a vez para Bobby Torello na bateria; e Jon Paris entrou no lugar de Randy Jo Hobbs no baixo, agregando ainda a gaita. Exceto por Radford, Johnny vinha tocando com Hobbs e Hughes há séculos.
Quem nunca viu Johnny se assusta com o tipo físico: magérrimo, branco feito neve, cabelos ralos e branquíssimos, estatura pelo metro e setenta; parece que vai ser levado ao menor pé de vento. Fez das Gibson Firebird "invertidas" sua marca registrada. Tiver a oportunidade de pegar uma certa vez: é pesada, de madeira sólida, até um pouco incômoda. Outras Gibson que segurei são um pouco mais leves. Mas o que importava a Johnny era a sonoridade única das Firebird, que se destaca das SG, das Explorer, das Les Paul, até mesmo  das Firebird "straight".
Naquela noite, Johnny tocou com duas: uma toda branca e uma de madeira avermelhada e escudo preto. Lindas! Vê-lo executar o slide é uma verdadeira aula de destreza e de bom gosto. Não tem nota perdida, show de técnica gratuita. A mão de Johnny desliza acariciando o braço a guitarra. E segundo os especialistas, somente ele consegue tocar certo com o slide, que é no dedo mínimo - o outro que faz assim, se minha memória não falha, é Dickey Betts, ex-Allman Brothers Band, o segundo maior guitarrista de blues elétrico da história, cabeça a cabeça com Duanne Allman. O restante, inclusive Clapton, adapta para o dedo anelar. Enfim, não existe jeito certo ou errado, o que existe é bom gosto. Mas Johnny e Dickey tocam mais certo que os certos.
Johnny estava divulgando o disco Red, Hot and Blue, que é subestimado até hoje. Talvez porque esperassem dele algo mais na direção dos clássicos John Dawson Winter III, Saints & Sinners ou Still Alive and Well. Mas quando o pau quebrou, começando por Bonnie Moronie, todo mundo esqueceu de banda nova, disco novo, o escambau. Todos ficaram hipnotizados com aquele quarteto fabuloso, executando clássicos do blues e de Bob Dylan de forma impecável.
Aliás, sobre Johnny, Dylan certa vez falou: "Ele é insuportável. pega minhas músicas e toca de um jeito que fica tão melhor que depois eu mesmo não consigo tocá-las". É verdade. É só ver a versão de Highway 61: é uma outra música e considero que foi Johnny quem a tornou definitiva. O ritmo acelerado, vibrante, os versos entrecortados com pequenos solos, que se abrem para um solo maior - tudo é sensacional. Claro que não faltou Still alive and well, Cheap tequila, Good morning little schoolgirl, Broken down engine, Rollin' and tumblin' e outros clássicos do cancioneiro "johnnyano".
Uma noite fabulosa de blues e rock. Johnny é, sobretudo, um cara generoso musicalmente: o segundo guitarrista não faz base para ele, mas divide os solos. E para tocar com Johnny, o sujeito tem que ter estatura, como foi o caso de Rick Derringer, Floyd Radford ou Pat Rush, que utilizou duas Gibson - uma Les Paul suburst e uma 345 vermelha. Atrás, Torello descia a ripa numa Ludwig Vistalite alaranjada, com dois bumbos de 24" (ou 22"; as medidas de longe são difíceis de avaliar), dois tons, dois surdos e vários pratos da Zidjian. Concluindo a linha de frente, Paris mandava brasa com um Fender Precision preto de escudo branco - vez por outra ainda sacava uma gaita do bolso. Atrás, alguns Marshall e Ampegs empurravam a banda, clássica até mesmo na hora de escolher com o quê fazer o som.
Coisas que a cabeça de um garoto com 17 anos jamais esquece. A platéia, eclética como um show de blues deve ser, com pretos, brancos, azuis, homens, mulheres e assemelhados boquiabertos. De pau quebrando, deve ter sido mais ou menos 1h30. Mas pareceram horas. Vi outros bluesmen depois: Smokin' Joe Kubeck, Tony Duarte, Son Seals, Clapton (na Praça da Apoteose!, Turnê do disco Journeyman), Albert Collins (e sua Fender Telecaster), Robert Cray, Tinsley Ellis, Dave Hole (que toca com a mão por cima do braço da guitarra)... Enfim, a lista é vasta. Mas esse show é insuperável.
Aliás, Johnny é insuperável.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Carta a um amigo

No post anterior, falei de um cara sensacional: o Velório. Eduardo era o nome dele e morava perto de mim, na Presidente Baker, coração de Icaraí. Ia sempre à casa dele naquela época em que trocavamos discos, emprestávamos fitas cassete e todos nós estavamos abrindo nossas mentes para o rock. Velório era um cara informado, talvez por estar um ano mais adiantado que eu no colégio. Seu pai, se não me engano, tinha uma charutaria na Visconde de Rio Branco, a "Rua da Praia", no Centro de Niterói. De praia, já naquela época, a rua não tinha nada: era local de comércio popular, popularíssimo, com todos os ônibus que iam para os subúrbios de Niterói e, sobretudo, São Gonçalo, parando de qualquer maneira ao longo do calçadão. E nem sombra de praia ou faixa de areia, já que ali estava a estação das barcas, de água suja de restos jogados pelos passageiros e de diesel vazado dos motores das lanchas. A isso ainda se somava o xixi de muitos que não tinham pudores.
Velório, grande sujeito. Foi na casa dele que conheci o Rush, que então tinha discos editados aqui na surdina. Para variar, no Brasil tudo é uma zona. Naquela época, para que ele completasse a coleção, era preciso comprar o primeiro da banda, simplesmente Rush. Detalhe: o Hemispheres, o sétimo, já tinha sido lançado aqui, um trabalho diametralmente oposto ao orgânico LP de estreia do trio canadense.
Com Velório soube de dois discos do Black Sabbath, até então ignorados por mim: o fabuloso Sabotage e o ótimo Technical ecstasy. Aporrinhei-o até conseguir, à base de troca, esses dois LPs. O Technical ele nem gostava tanto assim e consegui convencê-lo com relativa facilidade, mas o Sabotage eu tive de suar a camisa. Nem lembro o que entrou no negócio, mas não foi fácil, sobretudo porque éramos loucos pela faixa Sympton of the universe. Não os tenho mais, substituídos que foram por edições em CDs. Acho que ambos estão com meu irmão, Leonardo.
Ouvimos Uriah Heep juntos, assim como AC/DC (um colega comum, o Hans, tinha todos os disponíveis no Brasil), Foghat (razão de um terrível mal-entendido entre nós) e Deep Purple, cuja coleção eu começava a encorpar. E muita coisa mais: Grand Funk Railroad, Led Zeppelin, Rainbow, Yes, Emerson, Lake & Palmer... Até mesmo bombas, como Golden Earring - uma estranha banda holandesa, que fazia um rock insosso -, ou Automat - um sub-Kraftwerk italiano, cuja música principal do LP abria o antigo Jornal da Globo -, ou ainda Paul McCartney - lembro que ele tinha o Band on the run -, a gente colocava no 3 em 1 National Panasonic que ele ganhara do pai de presente de Natal. Eu também tinha um da mesma marca, que meu pai importara do Japão, mas que vivia quebrado devido à má qualidade do aparelho.
E as várias fitas cassetes que trocavamos? Eu gravava um monte de coisas de madrugada e, no sábado, passava lá para ouvirmos juntos aquilo que eu e ele conquistávamos em termos sonoros. Tardes regadas a muito Hollywood, que consumíamos em boas proporções. Sem cerveja, só papo, muito papo sobre música.
Tempos ingênuos, tardes generosas. O irmão de Velório, Rafael, era apenas um menino, assim como meu irmão era um pós-bebê. Eu o levava comigo para nossas jornadas sonoras. Leonardo adorava, ficava quietinho, brincando com carrinhos ou só ouvindo música. Já naquela época o garoto estava sendo criado à base de Kansas, Queen, Purple, Zeppelin, Sabbath, Lynyrd Skynyrd, Motorhead, Iron Maiden e uma porrada de outras coisas.
A vida nos levou para longe. Ainda estudante, lembro que Velório foi trabalhar no banco Bamerindus, cuja agência era pegada ao Plaza Shopping, no Centro de Niterói, em frente à extinta megaloja da Mesbla. Eu fui estudar no Rio, era tempo de pré-vestibular. Para nos separar, um disco do importado Foghat, que eu detestava - e troquei com ele -, nos deixou estremecidos. Nos encontramos algumas vezes depois disso, mas foi uma coisa meio sem graça, da minha parte e da dele. Enfim, vida que segue.
Escrevendo sobre música, revendo minhas memórias, reencontrei o Velório e seu rosto de semplante tristonho, mas que não justificava o maldoso apelido colocado pela rapaziada do São Vicente de Paulo. Grande cara. Sempre foi. Um amigão. E esteja onde estiver, receba um abraço desse amigo saudoso daquelas tardes e daqueles papos.   

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sons para se ouvir no carro III

Algumas bandas de rock, quando um dos seus integrantes sai (ou morre), acabam. Com o Led Zeppelin foi assim, com o The Doors, com o Queen, até mesmo com o Deep Purple e com o Black Sabbath que, a despeito de terem prosseguido sem dois integrantes fundamentais, se tornaram algo totalmente diferente daquilo que eram. Evolução? Às vezes sim, às vezes não. Na maioria das vezes, puro oportunismo. Uma marca de sucesso não se pode desperdiçar.
Esse preâmbulo todo se faz por conta do CD que ouço neste instante no carro, do Thin Lizzy. Mas não é "o" Thin Lizzy e sim um arremedo com alguns integrantes do Thin Lizzy. "One night only" é o nome do disco e quisera fosse verdade. Seria um único show, mas a história deu-se de forma bem diferente.
O Thin Lizzy era Phil Lynnott, baixista-cantor-compositor-líder-mentor espiritual. Ele morreu, a banda acabou. Simples. Simples? Não no show bussiness. Três ex-integrantes do Lizzy devem ter acertado um percentual da bilheteria e da vendagem do CD ao dono da marca (talvez a mãe de Lynnott, uma das herdeiras ou a herdeira legal do trabalho intelectual do filho), montaram uma boa banda e foram à luta. O resultado é satisfatório, mas desonesto.
Os tais três são John  Sykes, Scott Gorham (guitarras) e Darren Wharton (teclados). Exceto por Gorham, que ficou mais de uma década no Lizzy, os outros dois eram recém-chegados. Oficialmente, fizeram apenas dois discos oficiais do Lizzy (as edições da BBC e outras não contam aqui), "Thunder and lightning" e "Live-life". Gorham, não. Participou não apenas desses dois, mas de outros nove que vieram antes. Mesmo assim, isso não lhe dava direito sobre a marca; somente a propriedade intelectual pelas composições que lhe são atribuídas.
Não sei de quem foi a ideia de ressuscitar esse Lizzy capenga, mas, dizem, não foi de Gorham. Exceto pela "cozinha" Tommy Aldridge (bateria)-Marco Mendoza (baixo) - cujas passagens incluem Ted Nugent e Whitesnake -, os outros três não vinham fazendo nada de relevante. Wharton é como milhares de tecladistas que existem no rock. Gorham tentou levantar uma banda, a 21 Guns, mas não foi muito longe. E Sykes, desde que saiu do Whitesnake - esteve com David Coverdale antes de Aldridge e Mendoza -, batalhou em vão pelo seu Blue Murder. E naufragou.
Atribuo a ideia desse "Lizzy" a Sykes porque deles são os principais solos, além do vocal. Vá lá que seja o único que canta (razoavelmente), mas, por ocupar duas funções de destaque, acaba sendo o nome maior. Na mixagem, os solos de Gorham estão mais baixos que o de Sykes e não creio que isso tenha sido por acaso. Na época de Lynnott claro que isso não aconteceria.
O disco é ruim? Não, ao contrário. É uma espécie de greatest hits, ou seja, sucesso certo. Nada, aliás, que não se tenha ouvido em discos anteriores do Lizzy. Não há qualquer inovação, como tirar faixas do fundo do baú, novas interpretações ou coisa assim. Não há risco. 
Sykes se sai bem como cantor e a levada da cozinha Aldridge-Mendoza é reta, sem as filigranas de Lynnott e do baterista original, Brian Downey.  Wharton faz sua parte direito e Gorham mostra por que ficou tanto tempo na banda: temperamento doce e adaptável a qualquer outro que completasse o par de guitarra - Brian Robertson, Gary Moore, Snowy White, Midge Ure ou o próprio Sykes. Era uma espécie de apoio de Lynnott na linha de frente.
"One night only" não saiu por aqui e as edições européias são geralmente caras. Eu paguei pelo original e não me arrependi pela relação custo-benefício. Sobretudo porque a melhor maneira de ouvi-lo é como um CD de tributo e não como um trabalho do Lizzy.
Ah!, por fim. Essa banda não durou uma única noite, como sugere o título do CD. Durou várias, muitas noites depois desta, que foi registrada na Alemanha. O que só reforça a desonestidade do projeto.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Sons para se ouvir no carro I

Sei que tenho andado negligente com meus poucos leitores (sei apenas de dois amigos, Jorge Eduardo e Lobão - não o músico, mas o jornalista e crítico de cinema aqui de BSB), mas, para preencher esta lacuna, vou criar uma seção. Como músico frustrado e fã incondicional dos mais variados sons, não me furto a falar de música, seja em que ambiente for. Assim, copiando descaradamente uma parte do site do cantor Richie, está estabelecido a partir deste momento o SONS PARA SE OUVIR NO CARRO.
Vou começar com o que estou escutando neste momento (tá bem, não exatamente neste momento, pois estou na frente do computador digitando estas linhas) no meu super Chevy Vectra: Badlands. Ouço os CDs "Voodoo highway" e "Dusk". Tenho também o primeiro, somente "Badlands", que está guardadinho em casa.
"Voodoo hwy" não é um grande disco, mas não é de se jogar às feras. Nem sei exatamente se é inferior ao disco de estreia da banda, mas superior certamente não é. Explico: quando o Badlands apareceu, chegou com a pecha de supergrupo. Jake E. Lee (ex-Ozzy Osbourne), Ray Gillen (ex-Black Sabbath, embora não oficialmente), Eric Singer (ex-Sabbath e futuramente no Kiss) e Greg Chaisson formavam um quarteto altamente influenciado pelo Led Zeppelin. Se Gillen pudesse, apertava um botão e virava Robert Plant.
Essa reunião de músicos com currículo certamente dispersou a atenção para a música, que, ouvindo hoje, não chega a ser brilhante. É boa, apenas. No "Voodoo hwy", a fórmula permanece a mesma, embora o baterista seja outro - o muito bom Jeff Martin. Os toques de blues e até mesmo uma versão de "Fire & Rain", de James Taylor, não foram suficientes para salvar o disco, que naufragou. Depois do primeiro, que foi um baita sucesso, não se esperava tal decepção.
A partir daí a aura de supergrupo se desfez. Afinal, todos os assim classificados têm a obrigação de fazer gols de placa. Não foi o caso e a banda foi para o saco. O contrato com a Atlantic (via Titanium Records) foi devidamente cancelado. E cada um foi para seu lado.
"Dusk" é um terceiro disco que jamais foi lançado em grande circuito. As gravações já estavam prontas e mixadas, quando o Badlands ficou sem contrato. O disco foi engavetado até que Chaisson resolvesse tirá-lo da prateleira para editá-lo por uma pequena gravadora europeia. É um CD que somente os aficcionados têm, mas entra tranquilamente na lista dos dispensáveis. Em tempo: a sonoridade é a mesma de "Badlands" e "Voodoo hwy", sem tirar nem pôr. Inclusive, tem uma bela canção, "Sun red sun", que daria nome a um fracassado projeto que Gillen se envolveria em seguida. "Dusk" terminou sendo uma homenagem a Gillen, que não muito tempo depois morreria de Aids.
Resumo da ópera: são bons trabalhos, mas nada que vá mudar sua vida. Se você os tiver, ótimo; se não, ótimo também. São bem executados, mas sem muita inspiração. Dão a impressão que você já ouviu aquilo, anos antes e de forma mais brilhante, num disco de sobras do Zeppelin. Isso se o Zeppelin não tivesse legado sobras sensacionais, como "Physical graffiti" e "Coda".

terça-feira, 21 de junho de 2011

Mais voos solo

Vou continuar a saga dos solos de guitarra que mais me arrepiaram ao ouvi-los. Mesmo porque, nesta semana curta e que nada acontecerá (o Congresso praticamente não está funcionando), a política vai ser levada no banho-maria. Senão, vejamos mais cinco.

Tony Iommi - Planet Caravan ("Paranoid", Black Sabbath) - Não vou apresentar o cara. Passou para a história da música - sim, da música, e não do rock apenas - como um grande criador de riffs, como um consolidador de um estilo dentro do rock. Não é um grande solista, até pelas dificuldades físicas - perdeu parte de um dos dedos -, mas tem um bom gosto impressionante. Essa faixa é prova disso. Trata-se de uma espécie de blues lento, no qual valoriza cada nota. Tira um som lindíssimo da Gibson SG em estado puro, elegante, jazzístico. Num LP com tantas cacetadas, tantas faixas importantes e que são de alguma forma tocadas até hoje por ele e por outros, "Planet Caravan" é um oásis de traquilidade. O Pantera fez uma versão idêntica, com muita competência, mas acabou dando em nada porque o disco original do Sabbath está aí, quase 40 anos depois, vendendo muito e com a classificação de clássico.

Don Felder e Joe Walsh - Hotel California ("Hotel California", Eagles) - Não foi à toa que se tornou o grande hit dos Eagles. Além da melodia melancólica, esses dois fazem um solo espetacular, dentro da grande tradição americana de blues. Não há demonstrações gratuitas de velocidade, tão ao gosto atual dos xaroposos guitarristas que pululam as várias categorias do rock pesado, tampouco o nhéco-nhéco que essas bandinhas modernosas de garotos com cara de nerds fazem. Esses dois trazem o melhor de uma escola de guitarra que mistura as raízes da música dos EUA. Cada nota é valorizada, cada toque é sentido como se o dedo da mulher amada encostasse na pele. No vídeo do show, a expressão facial de Walsh se contorce, muda conforme a pergunta de um e a resposta de outro. Os caras estão curtindo, gozando mesmo. No final, ainda brincam, riem. É o prazer que só um intrumento bem tocado proporciona.

Robim Trower - Day of the eagle ("Bridge of sights", Robin Trower) - Quem não se lembra da entrada arrasadora, com palhetadas precisas em comunhão perfeita com baixo e caixa da bateria? Um dos rocks mais pesados de que se tem notícia, curtido pela voz de Jimmy Dewar, um grande cantor, na tradição dos melhores cantores escoceses - como Frankie Miller, Dan McCafferty e, por que não?, Brian Johnson. O melhor desta faixa, porém, está por vir, quando cai num blues superlento. Aí, Robin "gasta" toda sua técnica, abusando de microfonias e sustains. A mesma fórmula ele repetiu em outras faixas, em outros discos, como "For earth below" ou "Long misty days", que vieram na sequência. É uma oportunidade também de se curtir o registro mais grave da Fender Stratocaster, da qual Robin foi um dos seus maiores representantes.

Manny Charlton - This flight tonight ("Loud'n'prod", Nazareth) - Solo, que solo? Pois é. Nessa faixa não tem nada que possa ser considerado como tal, mas Manny fez um arranjo de tamanho bom gosto que tornou uma canção pop de Joni Mitchell num rock pesadíssimo. Ele joga com slide e com os registros mais estridentes da Gibson que fica difícil imaginar algo diferente. Quem ouviu essa versão, considera-a definitiva e melhor que a da própria Joni. Faz lembrar uma observação de Dan McCafferty naquele período em que o Nazareth passava por mudanças, a fim de se adaptar à década de 80, que estava chegando, quando a banda incorporou o excelente Zal Cleminson: "Zal era um grande guitarrista. Tinha uma técnica impecável, era capaz de grandes frases, velozes, inspiradas. Mas Manny tinha 'o' toque, sabia como poucos atingir a nota certa, do jeito certo". Como diriam os britânicos, "say no more".

Warren Haynes - Thirty days in the hole/I don't need no doctor (show do Gov't Mule no Royal Oak Music Theatre, Michigan, em 11 de novembro de 2008) - Esta versão para dois clássicos do Humble Pie não está registrada em disco algum do Gov't Mule. Alguém na platéia gravou com uma câmera e postou no You Tube. Warren está simplesmente brilhante e as puxadas que ele dá no agudo da sua Gibson são simplesmente impressionantes. Os dois amplificadores Soldano e Marshall atrás dele passam a expressão exata da violência e da agressividade do som das Les Paul. Impossível não se emocionar. Considero Warren o maior guitarrista americano da atualidade, um cara que pode tocar qualquer coisa, mas que não abre mão da grande tradição do hard rock e do blues elétrico. Seus fills lembram muito Leslie West, que ainda não foi citado aqui. Por enquanto.