quarta-feira, 7 de março de 2012

A questão é enxergar o óbvio


 O texto abaixo em vermelho foi publicado no Valor Econômico de hoje. Leiam direitinho. O importante, claro, está no lide, que marquei em negrito.
 
Dilma reforça poderes de Celso Amorim na Defesa

Por Fernando Exman e Daniela Martins | De Brasília

Diante das recentes críticas de militares da reserva ao ministro da Defesa, Celso Amorim, a presidente Dilma Rousseff prepara uma ação para fortalecer o subordinado no cargo. A operação terá duas frentes: a liberação de recursos para a Pasta e sinais políticos que não deixem dúvidas aos militares da ativa de que é Amorim o interlocutor da categoria que terá acesso ao Palácio do Planalto para negociar o reaparelhamento das Forças Armadas e reajustes dos soldos.
Dilma dá força a Amorim: mal aconselhada e mau conselheiro
O expediente também foi usado com sucesso durante a administração Luiz Inácio Lula da Silva, quando o ex-ministro Nelson Jobim fez o mesmo para aumentar sua autoridade junto aos militares. Agora, porém, a decisão está relacionada à conflagração da ala dos militares reformados que criticou recentes declarações de ministros do governo em relação à ditadura e à futura instalação da Comissão da Verdade.
O próprio Amorim começou a tirar do papel a estratégia. Ontem, após participar de uma audiência pública no Senado, cobrou respeito de civis e militares à lei que criou a Comissão da Verdade e reiterou seu compromisso com a modernização das Forças Armadas. O Orçamento de 2012 prevê R$ 64,8 bilhões para o Ministério da Defesa, uma alta em relação aos R$ 61,4 bilhões estimados para a Pasta no ano passado. Em 2010, a execução financeira do ministério totalizou R$ 59,8 bilhões.
"O que é importante é o respeito à autoridade civil. Isso é parte da democracia, da mesma maneira que respeitamos o profissionalismo dos militares. O governo tem dado demonstrações efetivas disso, inclusive recriando condições de trabalho [dos militares] que estavam muito precárias", afirmou o ministro a jornalistas. "Vamos continuar dando com o Plano de Articulação e Equipamento de Defesa. Estamos também atentos às questões que dizem respeito às condições de vida material das Forças Armadas."
Uma das principais tarefas de Amorim será ajudar Dilma a concluir o processo de compra de 36 novos caças para a Aeronáutica, o que deve ocorrer até junho. Até lá, a presidente pretende observar os desdobramentos das eleições presidenciais da França e ter pelo menos duas importantes conversas que a ajudarão a definir o vencedor. Uma delas será com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a quem fará uma visita nas próximas semanas. A outra será uma reunião bilateral com os líderes da Índia, à margem da cúpula do Brics. Além do Rafale, da Dassault, que no governo Lula era considerado o favorito a vencer a concorrência, também estão na disputa a norte-americana Boeing, com o F-18 Super Hornet, e a sueca Saab, com o Gripen.
A mensagem enviada pela presidente ao Congresso também prevê a manutenção de uma série de investimentos na área durante o ano. A Aeronáutica, por exemplo, deve continuar o processo de modernização do sistema de controle aéreo. A Força Aérea Brasileira também modernizará algumas aeronaves já em uso.
Para a Marinha, o Executivo estimou a compra de oito embarcações para operações anfíbias, a reforma de um navio-hospital, cinco navios patrulha e outros cinco para escolta, um para apoio logístico, a elaboração de um projeto para a construção de um novo porta-aviões e a entrega de seis helicópteros até o fim do ano. Já o Exército pretende implementar, projeto-piloto para a proteção das fronteiras contra o tráfico de drogas e armas, assim como fazer o planejamento de defesa da infraestrutura estratégica ao país, nos setores de energia, transportes, telecomunicações, petróleo e gás natural. A Força também planeja investimentos na indústria nacional que permitam a renovação da frota de blindados.
Mesmo assim, a crise protagonizada pelos militares da reserva ainda preocupa as autoridades do Palácio do Planalto. Além da proximidade da instalação da Comissão da Verdade, que terá dois anos para investigar os crimes e as violações aos direitos humanos praticados durante os governos militares, as Forças Armadas têm executado diversas funções consideradas estratégicas para o governo. Os militares são responsáveis, por exemplo, pela construção de diversas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e foram acionados para garantir a segurança em Estados que enfrentaram greves de suas polícias militares.
Na semana passada, os comandantes dos clubes Naval, Militar e da Aeronáutica divulgaram nota reclamando da omissão de Dilma em relação a declarações das ministras das secretarias de Direitos Humanos e de Políticas para as Mulheres da Presidência da República e também da cúpula do PT sobre a luta pela redemocratização do país e mudanças na Lei de Anistia. Dilma então cobrou do ministro da Defesa que o comunicado fosse desmentido, o que ocorreu num primeiro momento. Em seguida, no entanto, a adesão às críticas feitas pelos militares reformados aumentou e a categoria divulgou novo documento dizendo desconhecer a autoridade de Amorim. O Palácio do Planalto cobrou então a punição dos envolvidos. Segundo o ministro da Defesa, esse assunto se encontra agora "na mão dos comandantes das Forças".

Em 2 de março, fiz um post intitulado "Ou é burrice ou é turrice", no qual listei em 10 itens os problemas da crise entre os militares e o governo. Vejam só o que eu disse no sétimo:

7) A presidente precisa entender que está com a faca e o queijo na mão. (Não, você não lerá o item anterior.) As Forças Armadas hoje são mal pagas e sucateadas. Está na hora de trazer essa discussão para o rol de prioridades do governo para ajudar a restabelecer o princípio da disciplina;

Não sou um gênio, nem tão bom analista assim. Mas certas coisas são tão óbvias que impressionam como não são vistas antes. O governo se perde por tratar com o fígado aquilo que deveria ser cuidado pelo cérebro. Se questões como o soldo e o reaparelhamento das Forças Armadas tivessem entrado na pauta logo que o primeiro manifesto dos clubes militares foi tirado do ar, da mesma forma que a intervenção dos comandantes no processo, o discurso dos adversários do Palácio do Planalto cairia por terra. Também não prosperaria o princípio de crise institucional que alguns queriam ver desencadeada.
O governo precisa de bons analistas. Aqueles que param, pensam e separam a ação incisiva do discurso puxassaquista e concordino.

terça-feira, 6 de março de 2012

É cada bobalhão... Dá até vergonha

 Leiam a nota do Radar, da Veja. Volto na sequência.

 Beija a mão



A foto aí de cima tem feito a alegria dos peemedebistas menos simpáticos ao manifesto puxado por parte da bancada do PMDB da Câmara. Um dos cabeças da rebelião, Danilo Forte se derreteu por Dilma Rousseff durante a passagem dela por Fortaleza, na semana passada. Um peemedebista faz galhofa com a imagem:
- Por que ele não reclamou do PT pra ela? Isso é a prova de que eles só reclamam pelas costas dela.
De qualquer forma, a expressão de Dilma diante de Forte não é das mais suaves.

O político brasileiro transita entre a palhaçada, o oportunismo e a estupidez. Já disse num post mais antigo que Dilma tem ojeriza ao político homem. Não é à política, mas ao gênero homem que atua na política.
A política masculina, machista, é considerada por ela a razão de todos os males. Foi por causa dela que comeu o pão que o diabo amassou nos tempos da ditadura.
Os políticos homens jogaram o país nas mãos dos generais. Quantas mulheres haviam na política naquela época? Sandra Cavalcanti, Bambina Bucci e Ligia Lessa Bastos são as que me ocorrem.
Mais recentemente, Carlos Lupi fez gesto semelhante ao do "revoltoso" (por conveniência, registre-se) deputado cearense. Abriu a temporada de gestos patéticos.
Quem lembra da foto, que estampou as primeiras páginas, vê Dilma deixando a mão com desprezo ao ex-ministro do Trabalho. Deixou-a para trás enquanto o grosseirão se agacha em mesura, beiço embicado e expressão subserviente.
Pudesse, Dilma pagava um lenço e limpava a gosma largada pelo pedetista. Tivesse menos gente, talvez mandasse:
- Para com isso!
E recolhia a mão, incomodada.
(Fosse a Dilma do Kibe Loco, agora no Casseta, dizia na lata: "Para com essa merda, porra!")
No caso mais recente, o deputado cearense segura sofregamente a presidente, impedindo-a de avançar. Quer agarrá-la para largar o beijo nojento, sem caráter, sem convicção. Mera expressão do puxassaquismo, da política provinciana e boçal. 
Ao fundo, dois baba-ovos sorriem em aprovação ao gesto de suposta finesse. Pudessem, fariam o mesmo: metiam a beiçola, porta de uma boca de maus hálitos, na cutis presidencial.
Acostumados aos tapões de Lula, que tratava a todos com simplicidade de velhos colegas de botequim, políticos fazem com Dilma o gesto bobo e de sincera deselegância. A presidente detesta e não esconde no meio sorriso sem graça. Não adianta o cerimomial dizer que ela dispensa esse tipo de cumprimento: a subserviência é mais forte, irresistível. O politicão regional há de se agachar como o cão dócil que reconhece o dono.
Fico imaginando o próximo encontro:
- Tomara que esse energúmeno, esse débil-mental não me beije a mão, como da vez anterior - pensará ela.
-  A minha presidente merece meu melhor ósculo - calculará ele, imaginando que Dilma acreditará estar diante de um lorde.
Nem Ademar de Barros teria ido tão embaixo.




Erro de Valcke é o delírio da superioridade

O governo tornou-se mais mau-humorado? Menos tolerante? Pode ser, mas é uma postura bem vinda. Ainda que o general Charles de Gaulle sempre tenha negado ter dito que "o Brasil não é um país sério", a pecha ficou. Não faltaram presidentes, governadores, prefeitos, legisladores e juízes a confirmar nossa suposta alma galhofeira. O poder pátrio abrigou figuras desrespeitosas, que pela ineficiência das nossas instituições passaram à história como representantes dessa imensa comédia nacional que em nada nos engrandece.
Depois de bater de frente com os militares da reserva (vejam meu post anterior, no qual endosso praticamente tudo o que foi dito pelo historiador Carlos Fico, em matéria no Globo de hoje, embora eu tivesse me manifestado antes), o governo também resolveu colocar o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, no seu devido lugar. E com absoluta razão. O cartola francês sofre do devaneio da superioridade e se apropriou do discurso que o ex-presidente do seu país sempre negou que proferira, na década de 60.
A Fifa não é uma instituição séria, pelo menos quando se dá ao adjetivo "seriedade" o mesmo significado de lisura, honestidade, transparência, retidão e correção. A Fifa não é nada disso. É corrupta e corruptora. João Havelange não a tornou maior do que a própria ONU em número de filiados, não teria estendido o braço da entidade aos quatro cantos do mundo, se não tivesse sido generoso. Joseph Blatter, sua cria e continuador (embora hoje estejam em lados opostos), prosseguiu e aprofundou o legado do mestre.
Valcke fala, Aldo escuta: cena que não se verá novamente
Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa de 2014, a Fifa recebeu um relatório sobre todos os cenários possíveis. Inclusive um de que poderia dar tudo errado e ser obrigada a levar o Mundial, em cima da hora, para outro país (por isso é que há uma espécie de data-limite, em 7 de junho de 2012, para a confirmação do evento; dependendo do andar da carruagem, a entidade pode transferir a Copa para outro país caso o risco de não sair ultrapasse os 50%).
Uma instituição como a Fifa não dá passos errados: recebe panoramas profundos sobre a situação política, social, econômica e jurídica de cada nação-sede. Trata-se de um evento grande demais, rico demais. Não pode correr risco algum de não existir.
A Fifa, portanto, conhece bem o Brasil. Sabe do funcionamento das nossas instituições. Tem consciência do movimento de forças no Congresso. Sempre foi cientificada da ingerência do poder de negociação do Palácio do Planalto. Identifica interlocutores e escolhe os mais confiáveis, aqueles com os quais deve negociar.
Não foi enganada: sabia que a Lei Geral da Copa fere vários dispositivos da legislação brasileira, seja federal ou estadual. Tinha certeza de que sua tramitação no Congresso seria difícil, pelo tanto de defesa dos interesses da entidade que traz no bojo. Ninguém nessa história é trouxa.
Valcke, porém, tem o dom da inabilidade própria daqueles que estão acostumados a negociações fáceis, a ordens cumpridas. Cometeu o erro de achar que as coisas deslanchariam aqui tal como foram na África do Sul.
Na Copa anterior, foram vários os dispositivos favoráveis à Fifa que o país engoliu sem pensar duas vezes, inclusive uma espécie de tribunal de exceção. Os sul-africanos estavam diante de uma primazia e um privilégio: serem os primeiros a sediaerem um Mundial no continente; e mostrarem-se como ambiente proprício aos negócios numa região marcada por instabilidade política, insegurança jurídica, miséria e violência. Assim, ou aceitavam ou viam a chance de darem um salto econômico lhes escapar.
O Brasil é bem mais complexo. Traz o pior do Terceiro Mundo e o melhor do Primeiro. Valcke acreditava que podia rugir que haveria uma tremedeira geral, que a LGC seria aprovada a toque de caixa. Exagerou na dose e acreditou estar falando com aquele mesmo governo que, pouco mais de um ano atrás, levava tudo na risada e na leveza. Dilma é Lula são muitíssimo diferentes. E os ministros, como não poderia deixar de ser, assumem a personalidade de quem está no topo da pirâmide. 
Ao dizer que no Brasil as coisas só andam com "chutes na bunda", o secretário-geral assumiu a face do colonialismo que permeia as ações da Fifa. Valcke representa o "reaciocínio" (mistura de reacionarismo com raciocínio) de uma entidade que se considera acima das nações. Não é por acaso que pretende impor ao Brasil o mesmo tribunal de exceção que houve na África do Sul e sugere que o país arque com os danos de desastres e imprevistos que afetem os patrocinadores da Copa. 
A Fifa não nos faz favor algum. É um casamento de conveniência. O Brasil é a nação que mais tem merecido adulação de investidores, que nos enxergam como imunes à crise internacional e como saída para a manutenção dos lucros. O tom desrespeitoso, arrogante, de Valcke registra uma alma preconceituosa, que acredita estar dando a nós, pobres nativos de Pindorama, um benefício divino.
Não é mais assim, "doutor". Se a Fifa nos cobra seriedade, é preciso que seja séria também. Começando por abolir o linguajar próprio da sarjeta.   

Equilíbrio necessário

Jamais tive a pretensão de ser mais do que sou. Mas leiam a entrevista do historiador Carlos Fico e comparem, logo abaixo, com a análise que fiz da crise entre o governo e os militares. Respeito muito o Reynaldo Azevedo, mas seu ódio ao governo e ao PT o tem levado a exagerar nas análises, vendo coisas onde não existem.

Matéria do Globo:

Governo exagerou ao punir oficiais da reserva, diz historiador

Para Carlos Fico, militares erraram, mas é preciso serenidade




O historiador Carlos Fico que demitiu-se da comissão "Memórias Reveladas" por não concordar com o fechamento dos arquivos da ditadura militar
Foto: O Globo / Thiago Lontra

O historiador Carlos Fico que demitiu-se da comissão "Memórias Reveladas" por não concordar com o fechamento dos arquivos da ditadura militar O Globo / Thiago Lontra
RIO - O historiador Carlos Fico, ex-integrante do projeto Memórias Reveladas e um dos mais ativos defensores da abertura dos arquivos da ditadura, disse que o governo exagerou na dose ao determinar punição de militares da reserva. Para ele, a crise é um mau começo para a Comissão da Verdade, pois assusta e afugenta os que pensavam em contribuir com informações e documentos. Para ele, o ministro da Defesa, Celso Amorim, deveria ter entregado o problema aos comandantes militares. Fico não quer participar da comissão. Ele teme que o resultado leve a uma “verdade histórica” única, a exemplo do que ocorreu com outros países que tiveram o mesmo processo, enquanto “um historiador deve trabalhar com o conceito de que não existe uma verdade absoluta”.


O Globo - A Comissão da Verdade conseguirá atingir o seu objetivo: a verdade?
CARLOS FICO: A expressão não pode ser entendida como estabelecimento da verdade oficial. O desafio da comissão é não cair em uma leitura unívoca. Comissões da Verdade em todo o mundo acabaram produzindo um relatório, associado a seus membros, que vira a narrativa oficial. Para os historiadores, o conceito de verdade não é absoluto.
O senhor, como historiador com extensa produção acadêmica sobre o regime, tem vontade de atuar na comissão?
FICO: A presença de um historiador na Comissão da Verdade é um problema. A Associação Nacional dos Historiadores acha que devemos participar, mas eu discordo. Não compete ao historiador entrar. Isso por conta da definição teórica do que é verdade para o historiador. Os historiadores podem, no máximo, colaborar com informações. Além do mais, na História do tempo presente, não podemos nos esquecer da dimensão ético-moral. A atrocidade cometida no período é indiscutível. Isso introduz um viés: não se pode ter uma atitude objetiva que desconheça os assassinatos e a tortura. Não se pode humanizar o algoz.
E quanto às críticas que minimizam a dimensão da ditadura no Brasil, sustentando que ela foi mais branda do que a dos países vizinhos que passaram pelo mesmo processo?
FICO: Muitos dizem que a ditadura brasileira não foi violenta. Eles não têm a menor ideia da quantidade de prejuízo que ela causou. São conhecidos os casos de mortes, desaparecimentos e tortura. Mas a ditadura militar atingiu a vida de muitas pessoas. Quando alguém estava para ser nomeado, por exemplo, o SNI mandava uma nota e dizia que aquele cidadão era isso e aquilo. Essa pessoa acabava rejeitada sem jamais conhecer as razões. Há casos em que os filhos de casais presos foram criados por outras pessoas por anos e anos. A questão é que, além da violência, houve uma interferência brutal da comunidade de informações no cotidiano das pessoas.
Qual seria o melhor começo para a comissão?
FICO: Se a Comissão da Verdade for bem conduzida, ficaria os seis primeiros meses trabalhando com a documentação. Ela é capaz de revelar o que não se sabe: essa ampla e violenta interferência na vida cotidiana, que é desconhecida e importante. Há muitos documentos. O grosso desse material é constituído do fundo do SNI, do fundo da CGI e das divisões de Segurança e Informação. A comissão tem possibilidade de requerer documentos.
Existe risco de crise institucional?
FICO: Existe, por um motivo: os militares erraram, mas o governo precisa ter serenidade. O manifesto interclubes foi uma espécie de provocação. Eles expressaram insatisfação num tom forte. O governo conseguiu uma vitória política: obrigar o Clube Militar a retirar o manifesto. Os militares da reserva têm direito a se manifestar. Mas a nota que saiu depois atinge a hierarquia e a disciplina. Diz que o Congresso pratica revanchismo explícito, é inconsequente. Isso, os militares da reserva não poderiam fazer. Contraria o estatuto militar. Mas, se o governo punir, um deles vai recorrer da decisão. Pode virar um imbróglio jurídico. O STM teria de se manifestar. O problema seria evitado se o governo, após a retirada do manifesto e a nota de ataque ao Congresso, pedisse aos comandantes militares que tomassem providências. Agora, ou pune e vira crise ou não pune, e desautoriza o ministro da Defesa (Celso Amorim). Transformar a questão em debate jurídico é receita certa para aumentar a crise.
Os clubes militares têm influência na tropa?
FICO: Até o Golpe de 64, os clubes militares tinham uma atuação politizada. Depois, entraram num longo período de recesso. Mas, na segunda metade dos anos 1990, voltaram a entrar com tudo nas questões políticas. Até então, porém, nunca houve reação do governo. A reação é novidade. É preciso conduzir esse assunto com serenidade na relação com os militares.
O senhor espera que a Comissão da Verdade abra caminho para punição de torturadores?
FICO: A Lei de 1979 também inclui a autoanistia. A ministra Rosário tem razão. Pode ser que o resultado do levantamento da comissão provoque uma mobilização capaz de levar o Congresso a rever a anistia. É uma hipótese bastante remota. Historicamente a sociedade tem preferido a conciliação. Não creio que haja uma mobilização capaz de levar o congresso a mudar a Lei da Anistia. Mas o debate em si já desencoraja os que pensavam em contribuir. Falar em punição agora não é a melhor estratégia para trazer o maior número de depoimentos à comissão. A crise não é boa para o trabalho. Há uma insatisfação grande entre os militares da reserva. Tem gente que atuou na repressão secundariamente, como datilógrafos, que poderia ser ouvida. Esses também foram perdoados.


Meu post:

Ou é burrice ou é turrice

O governo está conduzindo erradamente o confronto com os militares e perdendo o tanto de razão que tem nesse episódio. Vou enumerar as lambanças num processo que já poderia estar debelado há dias, mas que, por burrice ou turrice, só cresce de dimensão:


1) Disse aqui que o ministro Celso Amorim é péssimo conselheiro e vem empurrando a presidente para o desgaste desnecessário. A decisão da crise com os militares deve, sim, passar por ele, mas não somente por ele. Os comandantes já deveriam ter sido chamados por Dilma a opinar faz tempo. Ela pode até não gostar da companhia deles, mas, no cargo que ocupa, não dá para discriminar em função de uma história do passado. A presidente é a comandante-em-chefe das Forças Armadas e deve se comportar como tal;
2) Os militares da reserva estão aproveitando para verbalizar uma resistência antiga a Amorim. Quando seu nome foi considerado para assumir a Defesa, em substituição a Nelson Jobim, a caserna torceu o nariz. Por que? Porque o tacham como um péssimo chanceler, que ridicularizou o país ao alinhar o Brasil a tudo o que há de mais desprezível atualmente no mundo - como a ditadura dos Castro, em Cuba; o regime ditatorial venezuelano, apesar do verniz democrático; a condescendência com Evo Morales, que roubou bens brasileiros sem que fizessemos coisa alguma; e, mais grave de tudo, a teocracia iraniana, fator de desestabilização do Oriente Médio. Ainda que o ranço do alinhamento automático aos Estados Unidos não tenha sido superado pelos militares da reserva, consideram que a dupla Amorim-Samuel Pinheiro Guimarães colocou o "viés esquerdista" nas relações exteriores acima dos interesses do país;
3) A reserva das Forças Armadas nada tem a perder com a série de provocações. O governo tem. O discurso sectário, ainda que justo, das ministras Maria do Rosário e Eleonora Menicucci, já deveria ter sido amenizado pelo Palácio do Planalto faz tempo. Os militares, como bons ferrabrás, não entendem que, como eles, ministro tem direito a opinião (ferir a lei é que são elas, e tanto Rosário como Eleonora não deram um único passo nessa direção). Ou seja: em boca fechada não entra mosca;
4) Sobretudo agora que um procurador militar (PROCURADOR MILITAR, é bom deixar bem claro) descobriu uma brecha na Lei da Anistia para poder investigar casos rumorosos, como o do ex-deputado Rubens Paiva e o de Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel. A matéria está no Globo de hoje; mais insuspeita, impossível. E por onde passa um boi, passa uma boiada. Começa com dois nomes de peso e chega àqueles cujos corpos não foram devolvidos pelos agentes da ditadura;
5) Assim, os militares são confrontados pela sua própria procuradoria. Isso por si só retira de elementos do governo o papel de fomentadores dessa discussão em torno do passado;
6) A presidente precisa perceber que está com a faca e o queijo na mão. Tem a autoridade e, sobretudo, se a crise chegar ao ponto da sublevação, dificilmente os revoltosos terão apoio da imprensa, como ocorreu no passado. Mas tem que evoluir para certas coisas. Sua ausência no funeral dos mortos no incêndio da base na Antártida foi sentida, apesar do fogo que foi apagar na disputa entre PT e PSB pela prefeitura de Recife. A fratura eleitoral pode ser compensada, a da contestação à autoridade não;
7) A presidente precisa entender que está com a faca e o queijo na mão. (Não, você não lerá o item anterior.) As Forças Armadas hoje são mal pagas e sucateadas. Está na hora de trazer essa discussão para o rol de prioridades do governo para ajudar a restabelecer o princípio da disciplina;
8) A indústria bélica brasileira acaba de tomar um baque com o cancelamento da compra de 20 Super Tucanos por uma das forças aéreas mais poderosas do mundo, a dos Estados Unidos. É mais um prego na autoestima do setor militar nacional, que somado à carta dos clubes cria um caldo difícil de digerir;
9) Não existiu, como não existe, razão para se adiar o reaparelhamento das Forças Armadas. Apesar da nossa cultura de paz, não é de hoje que o Brasil (pela importância que desfruta atualmente) precisa de um poderio compatível com seu status. O poder de dissuasão não representa que vamos disparar uma corrida armamentista no Cone Sul;
10) O governo vem acenando para o funcionalismo que não haverá reposição salarial esse ano. Os sindicatos deram início à mobilização e os militares da ativa, embora não possam se associar ou se manifestar, são parte interessada no processo. Se o Palácio disser apenas que não tem como pagar, mostra má vontade. Se apresentar cronograma e disposição para conversar, debela um calendário de greves. E cassa um discurso cristalizado dos militares, de que não são vistos com respeito e consideração.    


segunda-feira, 5 de março de 2012

Merecido descanso depois de tanta luta


Leio agora no UOL que o guitarrista Ronnie Montrose morreu hoje, aos 64 anos, nos Estados Unidos, vítima da reincidência de um câncer de próstata. Calculo que o grande feito da carreira de Ronnie foi lançar Sammy Hagar, que, depois, desembestou rumo ao estrelato ao substituir David Lee Roth no Van Halen. Fora isso, Ronnie foi um guitarrista correto, mais nada.
Ronnie bem antes do câncer
Seu melhor disco é aquele intitulado somente "Montrose", que traz alguns rocks que fizeram época, como Rock Candy. Além de Hagar, a banda nesse trabalho é completada por Denny Carmassi (bateria, mais tarde no Hart e no Whitesnake) e Bill Church (baixo). É bom sem ser excepcional.
Ronnie jamais entrará para a lista dos 10 melhores guitarristas dos anos 70. Como solista, era absolutamente normal. A força do seu material vinha justamente na combinação de bons riffs com a voz rasgada de Hagar, que segurava a guitarra base.
Voltou a ter alguma importância quando foi chamado para viajar na segunda edição com a trupe de Night of the Guitar. Era um projeto legal, trazendo de um bom número guitarristas importantes (Randy California, Robbie Krieger, Alvin Lee, Leslie West e outros) que estavam esquecidos ou desmerecidos pela indústria.
Ronnie tocou com vários artistas, todos muito bons. Desde o fusion de Tony Williams ao soul/blues de Edgar Winter e de Van Morrison, passando até pelo jazz de Herbie Hancock. Seus discos-solo se confundiam com os da banda, que levava seu sobrenome, e não se pode dizer que deixou algo de especial. Suas apresentações eram conhecidas pela potência e pelo embalo, mas a irregularidade dos trabalhos fez com que fosse perdendo potência já bem perto da década de 80.
A indústria da música é repleta de Ronnies, uns com mais carisma outros com menos. Têm a velocidade e a intensidade de um cometa. Depois que passam, escontram dificuldades em mostrar algo novo. A lista de guitarristas com perfil semelhante é grande: Pat Travers, Rick Derringer (embora inegavelmente muito superior a Ronnie e a Pat) e, da geração surgida nos anos 80/90, Craig Eriksson,  Greg Howe, Tony Macalpine, Richie Kotzen e outros tantos. Todos autores de trabalhos sem grande importância e que, em alguns momentos, brilham muito mais em discos como convidados do nos seus próprios.
Carmassi, Church, Montrose e Hagar: o melhor disco
Acho difícil que Ronnie Montrose deixe saudades pela sua música. Claro que lastimo sua morte, sobretudo em função das circunstâncias. Não tinha um estilo inconfundível, uma característica marcante, enfim, algo que o definisse de longe.
Já deve ter acontecido com vários de nós que gostamos de música: o cara some por uns tempos, lança um disco, a gente compra, nos decepciona - e ele desce ainda mais fundo no conceito dos fãs. Sobrevive das apresentações, sendo lembrado pelas participações.
Não o conheci de perto, mas calculo que Ronnie deve ter lutado ferozmente contra o ostracismo. Não me recordo de tê-lo visto em resenhas, documentários ou coisa assim sobre guitarras, guitarristas, hard rock ou anos 70.
Enfim, talvez estivesse mesmo na hora de descansar depois de tanta batalha.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ou é burrice ou é turrice

O governo está conduzindo erradamente o confronto com os militares e perdendo o tanto de razão que tem nesse episódio. Vou enumerar as lambanças num processo que já poderia estar debelado há dias, mas que, por burrice ou turrice, só cresce de dimensão:


1) Disse aqui que o ministro Celso Amorim é péssimo conselheiro e vem empurrando a presidente para o desgaste desnecessário. A decisão da crise com os militares deve, sim, passar por ele, mas não somente por ele. Os comandantes já deveriam ter sido chamados por Dilma a opinar faz tempo. Ela pode até não gostar da companhia deles, mas, no cargo que ocupa, não dá para discriminar em função de uma história do passado. A presidente é a comandante-em-chefe das Forças Armadas e deve se comportar como tal;
2) Os militares da reserva estão aproveitando para verbalizar uma resistência antiga a Amorim. Quando seu nome foi considerado para assumir a Defesa, em substituição a Nelson Jobim, a caserna torceu o nariz. Por que? Porque o tacham como um péssimo chanceler, que ridicularizou o país ao alinhar o Brasil a tudo o que há de mais desprezível atualmente no mundo - como a ditadura dos Castro, em Cuba; o regime ditatorial venezuelano, apesar do verniz democrático; a condescendência com Evo Morales, que roubou bens brasileiros sem que fizessemos coisa alguma; e, mais grave de tudo, a teocracia iraniana, fator de desestabilização do Oriente Médio. Ainda que o ranço do alinhamento automático aos Estados Unidos não tenha sido superado pelos militares da reserva, consideram que a dupla Amorim-Samuel Pinheiro Guimarães colocou o "viés esquerdista" nas relações exteriores acima dos interesses do país;
3) A reserva das Forças Armadas nada tem a perder com a série de provocações. O governo tem. O discurso sectário, ainda que justo, das ministras Maria do Rosário e Eleonora Menicucci, já deveria ter sido amenizado pelo Palácio do Planalto faz tempo. Os militares, como bons ferrabrás, não entendem que, como eles, ministro tem direito a opinião (ferir a lei é que são elas, e tanto Rosário como Eleonora não deram um único passo nessa direção). Ou seja: em boca fechada não entra mosca;
4) Sobretudo agora que um procurador militar (PROCURADOR MILITAR, é bom deixar bem claro) descobriu uma brecha na Lei da Anistia para poder investigar casos rumorosos, como o do ex-deputado Rubens Paiva e o de Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel. A matéria está no Globo de hoje; mais insuspeita, impossível. E por onde passa um boi, passa uma boiada. Começa com dois nomes de peso e chega àqueles cujos corpos não foram devolvidos pelos agentes da ditadura;
5) Assim, os militares são confrontados pela sua própria procuradoria. Isso por si só retira de elementos do governo o papel de fomentadores dessa discussão em torno do passado;
6) A presidente precisa perceber que está com a faca e o queijo na mão. Tem a autoridade e, sobretudo, se a crise chegar ao ponto da sublevação, dificilmente os revoltosos terão apoio da imprensa, como ocorreu no passado. Mas tem que evoluir para certas coisas. Sua ausência no funeral dos mortos no incêndio da base na Antártida foi sentida, apesar do fogo que foi apagar na disputa entre PT e PSB pela prefeitura de Recife. A fratura eleitoral pode ser compensada, a da contestação à autoridade não;
7) A presidente precisa entender que está com a faca e o queijo na mão. (Não, você não lerá o item anterior.) As Forças Armadas hoje são mal pagas e sucateadas. Está na hora de trazer essa discussão para o rol de prioridades do governo para ajudar a restabelecer o princípio da disciplina;
8) A indústria bélica brasileira acaba de tomar um baque com o cancelamento da compra de 20 Super Tucanos por uma das forças aéreas mais poderosas do mundo, a dos Estados Unidos. É mais um prego na autoestima do setor militar nacional, que somado à carta dos clubes cria um caldo difícil de digerir;
9) Não existiu, como não existe, razão para se adiar o reaparelhamento das Forças Armadas. Apesar da nossa cultura de paz, não é de hoje que o Brasil (pela importância que desfruta atualmente) precisa de um poderio compatível com seu status. O poder de dissuasão não representa que vamos disparar uma corrida armamentista no Cone Sul;
10) O governo vem acenando para o funcionalismo que não haverá reposição salarial esse ano. Os sindicatos deram início à mobilização e os militares da ativa, embora não possam se associar ou se manifestar, são parte interessada no processo. Se o Palácio disser apenas que não tem como pagar, mostra má vontade. Se apresentar cronograma e disposição para conversar, debela um calendário de greves. E cassa um discurso cristalizado dos militares, de que não são vistos com respeito e consideração.    

quinta-feira, 1 de março de 2012

Cervejinha é para quem não conhece cerveja. E cervejão, só no comercial



Algumas coisas são curiosas. Comecei a me dedicar ao hobby das cervejas depois uma viagem à Suíça e à Alemanha, em 2010. Nessa época, o assunto começava a merecer tímidos sites, mas literatura ainda era escassa. Hoje há uma vastidão de informações, com livros interessantes à disposição que quem queira mergulhar nesse universo riquíssimo, vastíssimo e antiguíssimo.
Antes de prosseguir, uma advertência: a cerveja em questão aqui não é essa água suja vendida nos bares, sem cor, sem sabor, sem caráter. Essa, me perdoem, serve somente para o sujeito encher a cara. Falo de cerveja que se degusta não mais do que uma garrafa, raramente deixa alguém bêbado e, sobretudo, combina com pratos tornando-os ainda mais especiais. Um ritual despojado, gostoso e alegre.
As Paulaner de trigo merecem uma missa
No giro europeu de que falei, foi fundamental minha passagem por Munique, para muitos a terra da cerveja na Alemanha. Provei receitas fabulosamente antigas, como as heel da Augustiner, tomadas no secular restaurante que um dia abrigou um mosteiro, na zona central da cidade.
O que a culinária alemã tem de pobre (reflete, evidentemente, uma cultura pouco miscigenada, além de um solo difícil e endurecido pelo clima de frio intenso), as cervejas têm de ricas. Somente agora o brasileiro começa a conhecer as Paulaner, tradicional marca de Munique, e a dar atenção aos gostos diferentes que existem além das tradicionais Pilsen e Lager de má qualidade, que dominam o mercado popular.
Eu estive na velha abadia
Sobretudo, passamos a aprender a razão das liturgias. Quando tomei uma Franziskaner de trigo, não entendi a razão do longuíssimo copo na qual foi servida. Não era uma tulipa bossa-nova, por assim dizer.
Esse formato, uma atração à parte quando se trata de cerveja de trigo, permite a decantação e a subida em doses generosas de gostos e retrogostos particulares. A espuma espessa, castanha clara,  conserva o buquê.
Dependendo do tipo, percebe-se ao final desde canela até banana. Não que esses ingredientes sejam misturados às milenares receitas, mas o impacto que a papila transmite ao cérebro permite notar sensações inéditas, surpreendentes, raras.
Tomada gelada num sótão em Basileia
No Migros de Basiléia, fiquei completamente maluco. A gama de cervejas era intensa e variada. Iniciante (e continuo sendo um, talvez hoje com um verniz um pouquinho melhor de quem resolveu se aprofundar no assunto), para não ter de dar uma nota maior de euro e receber inúmeras moedas de franco suíço, lembro que mandei o caixa tirar da minha conta uma garrafa da Samuel Adams. Não me perguntem que tipo era, pois a marca dispõe de vários. Tudo em favor de dois litros de água mineral Evian e duas garrafas de Pilzner Urquell.
As Urquell... ah!, as Urquell. Apesar de hoje fazerem parte do império SABMiller, continuam estupendas. Num frio de zero grau e geladas, são particularmente deliciosas.
O contraponto que confirmou a qualidade veio neste Natal: tive a opportunidade de comprar mais uma garrafa, em Niterói, e tomei-a sob um calor extremo. Tem gosto, corpo, coloração. Não posso dizer se estão melhores ou piores, mas como acredito que tem um nome e uma tradição a defender, manteve-se no caminho que sempre percorreu, com os desvios naturais.
Das cervejas suíças, conheço-as pouco e a literatura mal as considera. Lembro que tomei uma local, chamada Unser, porém não seria capaz de registrar de que tipo era. Algo da família das lager/pilsen, que é igualmente vasta. Naquela fria noite, ao lado de colegas de viagem, admito que não tive a condição ideal para uma observação mais profunda. Ressalto, porém, que foi combinada com o prato de caça que me foi servido, conforme sugestão da mâitre. 
Para quem quiser se aventurar e ir aos poucos mergulhando nesse universo, vale à pena comprar o livro 1001 Cervejas para Beber Antes de Morrer. Não é um guia ao qual se deve seguir cegamente, mas impressões de especialistas sobre alguns rótulos que seria bom que fossem experimentados.
Não dá indicações sobre se a cerveja é boa ou ruim, deixando para o provador a tarefa de avaliá-la. Importa que, ao degustá-las, se abram novas possibilidades.
No livro, como de resto na literatura, não são encontradas aquelas dos camarotes dos desfiles das escolas de samba. A ideia é retirar a cerveja do ambiente de vulgaridade, sem para isso dar-lhe vestimenta de empáfia ou exclusividade, como acontece com os vinhos. A cerveja é democrática; permite que se aprofunde sobre ela sem parecer pernóstico.
A cerveja não quer o bebedor sem talento, mas aceita os farsantes que fingem que a entendem. E expulsa quem pretende torná-la exclusiva.