quinta-feira, 28 de julho de 2011

Os novos inquisidores

Não vi e não gostei de A Serbian Film, que diz ser de terror. Para mim, filme do gênero ainda são aqueles da Amicus ou da Hammer, ingleses da década de 60, que tinham no elenco Christopher Lee ou Peter Cushing – ainda acho Lee o Drácula mais assustador da história do cinema. Mas nada disso vem ao caso. O que vem ao caso é a censura imposta a esse filme que veio dos Balcãs.
Dizem que tem cenas que sugerem incesto e pedofilia. A simples menção dessas duas barbaridades me deixa enojado. Não iria ver o filme porque, definitivamente, não tenho estômago para as misérias humanas. Fico entre triste, chocado e revoltado quando leio sobre isso nos jornais. Isso não quer dizer que não goste de películas violentas. Ao contrário, gosto sim, mas quando a coisa entra na área do sexo, e sobretudo crianças, admito que fico transtornado.
Porém, sou contra censurar o filme. Agora que está proibido de entrar no circuito comercial é que realmente se tornará um sucesso. Provavelmente será exibido um dia no Telecine Cult, onde, certa vez, zapeando canais de madrugada, exibia um filme em que aparecia o sexo oral explícito de dois homens. Também foi nesse canal pago que vi um lixo chamado Nove canções, de um cineasta até renomado, Michael Winterbotton. São várias as cenas de sexo explícito e de música ruim, e não sei o que me incomodou mais. Além disso, o casal da trama é feíssimo. Prefiro as louranhas da Vivid, que não estão lá para atuar.
Li que A Serbian Film já é um sucesso de downloads. Claro, tudo o que é proibido vira hit. Foi proibido pelo conservadorismo de Maia pai e Maia filho (Cezar e Rodrigo), que fora do jogo político tiveram de criar um factóide para voltar ao noticiário. Não sei se isso lhes agregará um único voto. Sei que eles apelaram para o que há de mais abominável em matéria de raciocínio intelectual: a censura.
Me lembro que, anos atrás, a Igreja Católica implicou com Jê vous salue, Marie, do xaroposíssimo Jean-Luc Goddard. A então atriz Lucélia Santos era uma das figuras da linha de frente no protesto. Lembrei-me de Lucélia, a doce Escrava Isaura, no filme Bonitinha, mas Ordinária – Ou Otto Lara Rezende, na cena em que é possuída pelos negrões no ferro-velho. E gritava: “Me fode, Cadelão”. Cadelão era um personagem de recorrente de Nelson Rodrigues, uma espécie de canalha empedernido. Não lembro quem fazia o Cadelão no filme. Mas li outros livros em que Cadelão dava o ar da graça, como Engraçadinha.
Tenho nojo da censura porque geralmente é instrumento de gente com muito dinheiro e poder. O cara não gostou, arranja um juiz para sentar em cima. Roberto Carlos fez isso com uma biografia não autorizada. Claro, nela há passagens em que sua eterna imagem de bom moço fica comprometida. Fernando Morais sofreu com um livro sobre a W/Brasil, agência do Washington Olivetto. O deputado Ronaldo Caiado também não gostou de ser retratado e mandou bala na liberdade de expressão. Que processasse o autor de Na toca dos leões, mas censurar, nunca.
Um dado interessante: Caiado e Maias pai e filho pertencem à mesma legenda, o DEM. Embora a ação do deputado já tenha algum tempo, quando o ex-PFL ainda não tinha começado a descida da ladeira, hoje o partido está praticamente esfacelado, resultado dos oito anos longe do poder federal.
Não é somente isso. Os Sarney conseguiram amordaçar um jornalão, O Estado de São Paulo, que até ontem estava há 727 dias sob censura. Não pode dar uma única e escassa linha sobre Fernando Sarney e suas conversas comprometedoras, gravadas no âmbito da Operação Boi Barrica, da Polícia Federal. Não fosse quem é e filho de quem é, o juiz jamais teria concedido a liminar. Fiquei surpreso como a família não tirou de circulação Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória. Talvez porque não quisesse aparecer pela segunda vez como uma fã incondicional da censura.
Sou e sempre fui a favor de processar o autor. Não gostou, manda a justa em cima do cara. Na frente do juiz, os dois lados expõem seus argumentos e ganha quem tiver o melhor. Porque a proibição pura e simples de que um livro, um CD, um DVD ou um filme fiquem ao alcance do consumidor, pressupõe que quem a conseguiu está coberto de razão.
Impedir a obra de circular é medieval. E a idade das trevas há muito passou.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A UnB está entregue às baratas

Do site da Veja, que dias atrás publicara uma matéria (justíssima e bem documentada) sobre o chamado "aparelhamento intelectual" da UnB. Aliás, esse "aparelhamento intelectual" é comum em várias universidades federais brasileiras, tomadas pelo petismo e pelo "unismo" - uma espécie de correia de transmissão dos setores mais atrasados do PT, encastelados da outrora brava União Nacional dos Estudantes. A coisa na Universidade de Brasília definitivamente vai de mal a pior, o que é uma pena. A incompetência estatal do governismo esquerdóide está matando superior o ensino aos poucos.
Leiam e estarreçam-se à vontade.

"O Ministério Público Federal investiga denúncia de cobrança de propina dentro da Universidade de Brasília. Uma das sete empresas que fornecem mão-de-obra terceirizada à instituição acusa um dos funcionários da universidade de exigir 100 000 reais para liberar um pagamento bloqueado. A Planalto Service fornece cerca de 650 funcionários à Universidade de Brasília para as tarefas de limpeza e apoio administrativo. A empresa pedia o pagamento de um aditivo ao contrato que mantém com a instituição de ensino. Foi aí que começaram a surgir as dificuldades. O funcionário da UnB Manoel Martins Jorge Filho, fiscal de contratos de terceirização do Decanato de Gestão de Pessoas, aplicou notificações à empresa Planalto Service. 
O fiscal apontou falhas no cumprimento de horário dos terceirizados e nas condições de equipamentos fornecidos pela companhia de forma genérica, sem informar em que dia e em que setores elas tinham acontecido, o que dificultava a defesa por parte da empresa. Com o relato das supostas irregularidades, os pagamentos foram bloqueados. A companhia tinha, ao todo, 1,8 milhões de reais a receber. E diz que Manoel criou as dificuldades de forma injustificada para conseguir extorquir a Planalto posteriormente. As tentativas de extorsão ocorreram nos primeiros meses de 2011.
Manoel não está sozinho. Nem a cobrança de propina é a única irregularidade praticada na administração do reitor José Geraldo de Souza, ligado ao PT. O funcionário integra um grupo de funcionários ligados ao sindicato da categoria e apoiou José Geraldo de Souza para subir na carreira pública. Foi promovido de xerocopista a fiscal de dez milionários contratos de terceirização.
Além da propina, integrantes da universidade interferiram nas contratações feitas pela empresa terceirizada. Foram mais de 100 indicações, 50 recomendações de demissão e 60 pedidos de promoção nos últimos dois anos. A prática vai contra orientações do Tribunal de Contas da União. O próprio Manoel admite ter uma filha e um genro trabalhando na UnB por intermédio da Planalto, o que configura nepotismo. 
Achaque - O material em poder do Ministério Público Federal mostra que Manoel era insistente ao cobrar propina para normalizar a situação da Planalto, o que seria fundamental para a liberação do aditivo pedido pela empresa. O primeiro achaque ocorreu durante um almoço com a funcionária da Planalto responsável pelo contrato, identificada como Deise. Depois, as cobranças se deram por telefone. Quando Deise parou de atender às ligações, ele passou a usar a internet para enviar mensagens para o celular da funcionária. Por fim, Manoel mandou três torpedos do próprio celular no dia 20 de maio. São as maiores provas da extorsão.
As ameaças são diretas: "Ou me paga logo ou aumento para 150", diz Manoel em uma das mensagens. Em outra, ele relata que outros funcionários estariam envolvidos no esquema. O terceiro torpedo diz: “O que você fez ontem e está fazendo hoje não irá fazer de novo. Ou me paga logo ou cancelo seu contrato. Você ainda não entendeu que quem manda sou eu?". O recado foi mandado justamente quando a funcionária ia se queixar dos problemas ao Decanato de Gestão de Pessoas, responsável pelo contrato.
A dona da Planalto Service, Cássia de Souza, relatou a situação ao reitor da UnB, José Geraldo de Souza. Ele limpou a ficha da Planalto e retomou os pagamentos. Depois da denúncia, o contrato da empresa saiu das mãos da decana de Gestão de Pessoas, Gilca Starling, e passou a ser comandado pelo Decanato de Planejamento. Manoel Filho voltou à sua função original: cuidar das fotocópias no Instituto de Letras. A UnB tentou manter o caso em sigilo.
Manoel nega as acusações. Diz que foi vítima de uma armação porque nunca aceitou fazer vista grossa aos problemas da Planalto. O funcionário não sabe dizer, entretanto, como as mensagens foram aparecer no celular da funcionária da Planalto. "Eles é que provem que eu mandei aquilo. O ônus da prova cabe a eles",  afirma. 
Carreira - Manoel integra um grupo de funcionários ligados ao sindicato da categoria. Apoiou a campanha do reitor José Geraldo de Souza com a perspectiva de conseguir um cargo melhor na universidade. Conseguiu. Depois de 32 anos como xerocopista, foi promovido a fiscal. A cúpula da Universidade de Brasília, ligada ao PT, privilegia acordos políticos na gestão de pessoal em detrimento do mérito.
Outra personagem dessa história está ligada à partidarização da universidade - crítica feita na UnB tanto por docentes de esquerda quanto de direita. A decana Gilca Starling, ligada ao deputado federal petista Gilmar Machado (PT-MG), foi "importada" de Uberlândia. Confrontada com os fatos, acusou a empresa e se manteve ao lado de Manoel, a quem chamou de "homem de confiança".
Nomeações - As indicações feitas por funcionários da UnB de pessoas contratadas pela Planalto envolvem até mesmo o procurador jurídico da UnB, Davi Diniz.. A confissão foi feita pela decana Gilca Starling, em uma conversa gravada: "Esse daqui realmente foi um pedido de nosso procurador", disse ela, ao apresentar uma indicação de Diniz.
A Secretaria de Comunicação da UnB nega a existência das indicações e disse ter tomado as providências adequadas no caso de tentativa de extorsão: comunicou o fato à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal - que também havia recebido uma denúncia de funcionários da universidade. A universidade diz ainda que a Planalto foi autuada dez vezes por falhas na prestação do serviço. Abriu também uma sindicância interna cujos trabalhos são mantidos em sigilo. E relata que não foram detectadas suspeitas semelhantes em outros contratos. 
Surge daí uma pergunta óbvia: o caso é mesmo uma triste exceção ou só veio à tona porque a Planalto foi a única empresa a romper o silêncio? Independementente da resposta, os fatos mostram que o ambiente da universidade não está imune aos desmandos tão frequentes em outros órgãos federais."

terça-feira, 26 de julho de 2011

De volta às origens

Poucos sabem quem foi Vidkun Kisling. Pelo nome, inclusive, podem achar que se trate de algum indiano, um oriental. Não é. É norueguês. Mais precisamente: foi primeiro-ministro. Ainda mais precisamente: foi primeiro-ministro colaboracionista, quando da ocupação da Noruega pelas forças militares alemãs. Foi uma espécie de marechal Philippe Pétain, que também se deixou possuir gostosamente pelo pessoal de Hitler. Todos alegaram fraqueza diante de um inimigo tão poderoso, daí porque preferiram capitular e ficar ao lado do monstro.
Não é bem assim e a história já mostrou isso. Quem se entregou, o fez também porque em muito concordava com o nazismo. Foi assim com a Hungria, com a Romênia, com a Bélgica, com a Holanda. A Espanha e a Itália não precisaram, pois Franco e Mussolini desde muito cedo deixaram claro a conexão de pensamento com Hitler. Em Portugal, Salazar também não escondia as simpatias pelo ditador alemão.
Em todos esses países, a extrema direita existe, é forte e atuante. A semente do racismo, da intolerância, não vem de agora. O processo do capitão Dreyfuss, judeu acusado de traição, virou maravilhoso libelo de Émile Zola em favor da liberdade de culto, de expressão e de opinião. Quem leu Eu acuso sabe disso. Foi a primeira grande ação judicial marcada pelo anti-semitismo que se tem notícia. E foi na França, cantada em verso e prosa pela igualdade, fraternidade e liberdade revolucionárias.
Durante décadas, sobretudo aquelas que se seguiram à II Guerra, houve um esforço para apagar as profundas marcas que o nazismo deixou em várias sociedades européias. Até a Inglaterra se empenhou em calar seus admiradores de Hitler. Duas são as explicações para isso: o legado deixado pelo regime alemão, com cinco milhões de judeus mortos e outras centenas de etnias e grupos sociais igualmente assassinados; e África e Ásia ainda eram distantes, pois o fluxo migratório das ex-colônias não tinha se intensificado devido à miséria.
A França de De Gaulle se esforçou imensamente para erguer, no pós-Guerra, um muro entre ela e países que faziam parte de seu império. Ao tentar esmagar os esforços do Vietnã e da Argélia pela independência, mandava dois recados simultâneos. O primeiro, de que esses países deveriam continuar sob sua zona de influência econômica e prover-lhe sustento. O segundo, que seus habitantes jamais deveriam cruzar os oceanos em busca de uma condição de vida melhor na metrópole. As ações militares francesas foram, sobretudo, expedições punitivas.
A Noruega não tinha um império a sustentar, mas desenvolvera um país evoluído economicamente, desde muito cedo grande desenvolvedor de técnicas de exploração de petróleo nas águas geladas do Ártico e do Báltico. E tinha algo que encantava os nazistas, particulamente a Adolf Hitler: uma população imaculadamente branca, de pouquíssima miscigenação.
Não tinha a mistura que, por exemplo, era possível ser vista na Finlândia, cuja população tem traços vindos da Rússia e dos Países Bálticos. Assim como a Suécia, a Noruega vivia num semi-isolamento que a tornava única. A diferença é que o reino sueco tinha sérios problemas para sustentar sua população, que em parte expressiva migrou para a Dinamarca e, por extensão, para a Alemanha. Os noruegueses continuavam onde estavam.
Isso fascinou Hitler. A memória histórica, porém, é sempre curta. A Alemanha tomou a Dinamarca, fechou um acordo com a Suécia, contou com a estreita colaboração da Noruega – inclusive territorial –, firmou um pacto militar com a Finlândia e “deu” à antiga União Soviética os Países Bálticos (Letônia, Estônia e Lituânia) como “compensação” pela celebração do Pacto Ribbentrop-Molotov. Em todos esses países, a simpatia pelo nazismo continua grande, em grupos desorganizados, é verdade, mas com conexões para além das suas fronteiras.
Vários, inclusive, não se apresentam mais com a suástica. Desenvolveram não somente símbolos, como expressões que os identificam. Saem às ruas, veneram Hitler e vários deles sequer pertencem às etnias germânicas. Muitos são eslavos, gênero que o III Reich abominava e considerava tão sub-gente quanto os judeus. Mas esperar coerência desses personagens é pedir demais.
O massacre da Noruega apenas mostra que o país que professa a paz na forma de um prêmio tem seus esqueletos no armário, que a extrema direita não é algo tão desconhecido assim do universo norueguês. A história nem sempre se repete como farsa, mas habitualmente se repete como tragédia.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Eternos jogadores

Definitivamente, não se pode esperar muita coisa do PR. Depois do festival de exonerações promovido ontem pela presidente Dilma Rousseff, voltou a mandar recados, “insatisfeito” com a faxina no Ministério dos Transportes. Seus deputados e senadores falaram numa reunião para avaliar a relação partido-governo e até mesmo num discurso prometido pelo ex-ministro Alfredo Nascimento, dia 2 de agosto, quando reassume oficialmente a cadeira no Senado.
Tudo balela, tudo blefe.
O PR não tem cacife para abandonar a base, embora possa dar trabalho em votações do interesse do Palácio do Planalto. Da mesma maneira que Nascimento não deverá falar coisa alguma, já que, caso se deixe levar por um lampejo de moralização, trará uma luz forte para os oito anos da sua administração.
Vai expor aquilo que era o Ministério no governo Lula, cuja participação do PT era tão decisiva quanto a do PR. E colocará Dilma, ex-superministra-mãe-do-PAC e hoje presidente, na condição de conivente com a bandalheira que existia até poucas semanas atrás.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Irmãos siameses

Acabo de ler um artigo de Larry Flint, na página d’O Estado de São Paulo, condenando a postura de Rupert Murdoch, que alavancou algumas das suas empresas à base de manobras que nada têm a ver com a ética. Muito ao contrário: ultrapassam a medida daquilo que é moral e decente e entram na seara criminosa, violando a individualidade dos cidadãos. Para Murdoch, um predador da imprensa, a notícia poderia ser obtida pelos mais variados meios, inclusive os ilegais. O leitor de hoje pode ser a matéria de amanhã, segundo os ditames do The Sun e do extinto News of the World.
O problema é que acho que algumas pessoas não têm envergadura moral para falar de outras. Uma delas é exatamente Larry Flint. Não, não estou aqui defendendo a censura, tampouco passando para o lado daqueles pastores televisivos de caráter duvidoso que ele enfrentou na década de 70. O povo contra Larry Flin”, brilhante filme de Milos Forman, nos faz pensar, sim, na liberdade de expressão e de opinião, da mesma maneira como faz pensar naquilo que Larry fazia e que virou decisão pacificada pela Suprema Corte dos Estados Unidos.
Definitivamente, o que a Hustler é ou foi está longe de ser imprensa. Quando Flint desencadeou a ira dos pastores pilantras foi porque os estampou na sua revista, chamando-os de tarados edipianos, sem qualquer base para isso. Ainda que eles fossem safados, amorais, se você não tem provas contra a pessoa, a regra da imprensa manda apurar primeiro e publicar depois. Se ainda assim as informações não se consolidarem, recua-se na matéria.
No filme, a Suprema Corte defendeu o direito de Flint de ridicularizar, que, ainda que não concordemos plenamente, é uma forma de expressar opinião. Lembro de um episódio no mínimo bisonho, acontecido não tão longe assim: o processo do ex-governador do Estado do Rio, o advogado criminalista Nilo Batista, contra o “colunista” Agamenon Mendes Pedreira. Nilo ficou em má situação duas vezes: primeiro, porque Agamenon o ridicularizou na sua “coluna”; e segundo porque Agamenon simplesmente não existe. É uma criação magistral da turma do Casseta & Planeta.
Nossos códigos não permitem a ridicularização, a humilhação. Quem tem o hábito de assistir ao programa de David Letterman surpreende-se com as piadas de mau gosto e os ataques que comete contra os presidentes norte-americanos. George W. Bush, não sem razão, foi uma vítima constante de suas críticas ferozes, que incluía chamá-lo de bêbado e de débil-mental. Está lá a Primeira Emenda à constituição que não permite que se admoeste quem é duramente agredido pelas palavras.
Flint foi até o final para defender seu direito de criticar, mas isso não lhe dá o direito de condenar ninguém. Primeiro, porque ele não faz jornalismo. Trata-se de um empresário do ramo da pornografia, com canais pagos e produtoras de filmes de sexo explícito. A Hustler é somente uma das faces desse lucrativo ramo de atividade e, talvez, o mais ingênuo dele. A exploração de homens e mulheres, da prostituição glamurizada, fica para os veículos de vídeo, que eufemisticamente são tratados como entretenimento adulto. Flint foi onde Hugh Hefner não teve coragem de ir.
Ninguém nega que os métodos de Murdoch são, desde muito cedo, os piores possíveis. Diz-se que começaram a se manifestar quando assumiu o comando do seu primeiro jornal, ainda na Austrália. Reza a lenda que, ao ficar à frente da publicação, reuniu toda a redação logo no primeiro dia e prometeu não demitir ninguém, mesmo que os objetivos traçados fossem atingidos. Os jornalistas, claro, acreditaram e, aos poucos, Murdoch foi substituindo um a um, traindo a confiança deles.
Dali para diante, o céu foi o limite para Murdoch. Fez fusões e aquisições de maneira irresistível e construiu o maior império da mídia mundial. E em algumas das suas publicações deixou claro que a ética não entrava na lista das cinco maiores prioridades. O The Sun tornou-se um espaço odiado por todo mundo, já que trazia à tona apenas as indiscrições das celebridades. O News of the World enveredou por caminho ainda pior, trazendo para o público casos de grande impacto, mas que envolvessem gente comum. Era o caso de seqüestro não resolvido, de pedofilia descoberto e coisas do mundo-cão. Murdoch espetacularizou a miséria utilizando os meios mais sujos, com conexões do submundo, ainda que viessem travestidos de policiais.
Flint fez a conexão da nudez com a pornografia. Não que isso fosse incomum nos Estados Unidos, mas ele pegou a base da Playboy, com algum conteúdo jornalístico, para dar a roupagem na vulgarização dos corpos femininos, com fotos mais ousadas do que a medida da época. No seu rastro veio Bob Guccione, aquele que pegou um roteiro fraco de Gore Vidal, atores e atrizes de primeira linha (John Gielgud, Peter O’Toole, Malcom McDowell e Helen Mirren), um diretor de filmes eróticos (Tinto Brass) e fez um filme pornô com roupagem de cinema de arte. Isso não o tornou um produtor de sucesso, tampouco fez da sua Penthouse uma revista respeitada.
Nesse jogo de amoralidades, nem Flint pode condenar Murdoch nem Murdoch atacar Flint. Eles são rigorosamente iguais, embora por correntes diferentes: os dois pensam que fazem jornalismo.

Tá tudo dominado!

Do site da veja. Eis uma leitura instrutiva:

"Após a revelação, feita por VEJA, de um esquema de corrupção implantado no Ministério dos Transportes pela cúpula do PR, que levou a presidente Dilma Rousseff a mandar concluir, ainda essa semana, uma faxina na pasta, mais um negócio em família no já conturbado ramo veio à tona nesta terça-feira. A empreiteira do irmão do superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) em Mato Grosso fechou contratos de 26 milhões de reais com o órgão, nos últimos dois anos, para obras em rodovias federais que cortam o estado, informa reportagem do jornal Folha de S.Paulo.
"Homem de confiança do diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot - que está oficialmente de férias mas não voltará ao cargo por determinação da presidente Dilma Rousseff - Nilton de Brito foi nomeado para o cargo em 2010, depois de ocupar outros postos no órgão, em Brasília. Ele é irmão de Milton de Brito, dono da construtora Engeponte.
"Contratos - A Engeponte foi contratada por 10 milhões de reais para construir quatro pontes na rodovia BR-158. Na época, Nilton era coordenador-geral de desenvolvimento de projetos da direção-geral do Dnit, em Brasília. A empresa recebeu 9 milhões entre 2010 e 2011. No ano passado, quando Nilton já ocupava a superintendência do Dnite em Mato Grosso, a empresa montou consórcio e assinou novo contrato de 41 milhões com o órgão para pavimentação de 48 quiômetros da rodovia BR-242. Pelas regras do consórcio do qual a Engeponte faz parte, ela ficará com 40% do valor do contrato - 16 milhões. Os dois contratos foram assinados após licitação.
"Em entrevista à Folha, o empresário, Milton de Brito, dono da Engeponte, negou favorecimento e disse que pediu ao irmão para deixar a superintendência do Dnit.
"Na semana passada, surgiu um outro negócio familiar: o diretor-geral interino do Dnit, José Henrique Coelho Sadok de Sá, deixou o cargo após a revelação de que a construtora Araújo, que pertence à mulher dele, fechou contratos de R$ 18 milhões para obras de rodovias em Roraima. 
"Limpeza - Nesta segunda-feira, Dilma orientou o ministro dos Transportes,Paulo Passos, a concluir logo a limpeza na pasta - o que inclui o afastamento do petista Hilderaldo Luiz Caron, diretor de Infraestrutura Rodoviária do Dnit, e de Felipe Sanches, presidente interino da Valec.
"Edição de VEJA desta semana revela que, em conversas com correligionários antes de seu depoimento ao Congresso, Pagot apontou que Caron se empenhava pessoalmente para viabilizar alguns "estranhos reajustes" no preço de obras.
"Regras - Também nesta segunda, Dilma desistiu de nomear o contador e administrador Augusto César Carvalho Barbosa de Souza antes mesmo que ele assumisse o comando da Diretoria Administração e Finanças do Dnit. Barbosa de Souza havia sido indicado pela própria presidente para o cargo - Dilma chegou, inclusive, a enviar o nome do contador para análise no Senado. Em ofício publicado no Diário Oficial da União (DOU) nesta segunda, porém, a presidente pediu ao Senado a retirada de pauta do nome de Souza. Outra resolução publicada no DOU muda as regras para a escolha do diretor-geral do Dnit.
As novas regras permitem que o ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, indique um servidor com perfil técnico para ocupar a diretoria-geral do órgão interinamente no caso de o cargo ficar vago. Na prática, o texto permite que o Planalto escolha um novo ocupante para o posto de Luiz Pagot e impeça que ele tenha que ficar no cargo até que o futuro diretor-geral seja sabatinado pelo Senado."

Quem manda mais?

A descoberta de que o PR privatizara o Ministério dos Transportes, a fim de faturar politicamente com uma das pastas mais irrigadas de recursos no Governo federal, tornou-se um problema tamanho, que já começa a corroer as relações dentro do Palácio do Planalto.
Enquanto a presidente Dilma e as ministras Gleisi Hoffman e Ideli Salvatti entoam o coro de que Luiz Antônio Pagot não voltará ao comando do DNIT tão logo retorne das férias, do outro lado está o ministro Gilberto Carvalho tentando negociar a permanência do afilhado do senador Blairo Maggi, a fim de segurar o petista Hideraldo Caron numa das diretorias da autarquia.
O PR já decretou: se Pagot sair, Hideraldo deve ir junto. Dilma, Gleisi e Ideli não parecem muito preocupadas em tirar um e outro, ou até mesmo pôr Pagot para fora e manter Hideraldo por enquanto. O que elas não querem, de forma alguma, é continuar com Pagot no cargo, algo em que Carvalho insiste. Assim, está criado o mal-estar entre os ministros, pois Dilma não parece ter o mesmo compromisso que Lula e seu avatar, Gilberto Carvalho, têm com o PR.