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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A careta é para você, babaca

O título remete ao site do Globo, que abro e vejo a foto de um sujeito fazendo careta para a câmara do fotógrafo depois de ter sido devidamente levado em cana. Já na caçapa, algemado, mostra a língua e arregala os olhos, doidão que devia estar de cocaína. Sóbrio ou não, vai entrar para a história da cidade como a face do deboche.
Ele não está debochando de mim, um fluminense (nasci em Niterói e faço questão de deixar claro isso; fluminense é uma coisa, carioca é outra), mas dos cariocas malandros, espertos, que apóiam de alguma forma o tráfico, seja como sócios-consumidores, seja pela leniência. Nélson Rodrigues, para sacanear Dom Hélder Câmara, inventou a figura do "padre de passeata". (Como ele era conservador assumido, direitista empedernido, não admitia que religião e política se unissem na esquerda contra a ditadura militar.) Pois eu invento outra figura: o carioca de passeata.
É aquele que sai às ruas para protestar depois de a porta ter sido arrobanda e sobrearrombada inúmeras vezes. É aquele cara que cheira esportivamente ou dá seus tapinhas no baseado por mera convenção social, mas que não acha que está contribuindo com o tráfico. É aquele cara que tem um "amigo de um amigo" que já comprou um carro roubado, mas não fez coisa alguma - nem se indignou. Foram todos tomar um chope gelado no Bracarense, rindo da vida.
Só quem sai do Rio vê o quanto o carioca/fluminense é malfalado. É tido como indolente, leniente e pernóstico. Se você percorrer o Brasil buscando uma classificação para o carioca/fluminense, vai confirmar estereótipos que, por mais que passe o tempo, não mudam: o paulista é trabalhador (qualificado), o nordestino é trabalhador (desqualificado), o gaúcho/catarinense/paranaense é racista e o carioca/fluminense... vagabundo! Hugo Carvana, quando fez o filme, no comecinho da década de 70 ("Vai trabalhar vagabundo!"), jamais imaginaria que contribuiria para consolidar uma imagem - a do sujeito que não faz nada, que ganha a vida com expedientes, mas é boa gente, simpaticão e inofensivo.
Esse é o carioca (sem fluminense, pois tem desprezo pelo nascido em Niterói) até hoje, que não percebeu que a capital do Brasil mudou de lugar há 51 anos. Não há mais razão para manter a empáfia e acreditar numa falsa integração social, de morros e asfalto. Jamais houve essa integração, falácia de intectuais supostamente progressistas, que retrataram a favela, mas nunca fizeram coisa alguma concreta para levar dignidade ao morro. A poesia, no papel, nas telas e no teatro, é linda sempre, mas na vida real...
Foi a favela que se livrou da favela, não a Zona Sul intelectualizada e paternalista. Foi a favela que se levantou, que cansou de esperar, que quis dar um fim nos bandidos sem e com farda. Foi a favela que cansou do estigma de lugar de marginal e de desocupado. Não foi a Zona Sul do banquinho e do violão, dos saraus na sala de Nara Leão com Cartola e João do Vale. Foi a favela que cansou de tomar borrachada no lombo e ver seus filhos levando tapas na cara, porque o filho branco das classes média e alta molha a mão do policial e sai andando como se nada tivesse havido.
Ontem mesmo, uma porção de gente saiu às ruas contra a redivisão dos royalties do petróleo. Rio e Espírito Santo querem que as coisas fiquem como estão e os demais estados, se contemplados, recebam uma parcela mínima, que reduziria a da União. Mas essa porção de gente, que foi mobilizada por TVs e jornais, por insistentes pedidos do governador do estado, não parou para pensar no seguinte: o que tem sido feito dessa dinheirama toda? Onde o governo tem aplicado, que não vejo? Onde as prefeituras, que reclamam que vão à falência, têm investido? Em saúde, em segurança, em saneamento, em educação, em urbanismo? E o governador? Passa tempo suficiente no estado, resolvendo os problemas?
Não adianta sugerir um raciocínio mais elaborado do que esse. As pessoas querem ver as coisas funcionando: o asfalto liso, o calçamento perfeito, o jardim conservado, o esgoto canalizado, a água farta, a luz constante, a escola de boa qualidade, o posto de saúde funcionando, o pronto-socorro atendendo direito, a polícia bem treinada, a segurança de pegar um ônibus e não ter de esconder cordões, carteiras e relógios. Pagam impostos para isso e querem que o dinheiro dos royalties seja investido assim.
O restante é papo de carioca malandro, que fala chiando o "S" e não necessariamente é Flamengo e tem uma nega chamada Teresa.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Carta a um amigo

No post anterior, falei de um cara sensacional: o Velório. Eduardo era o nome dele e morava perto de mim, na Presidente Baker, coração de Icaraí. Ia sempre à casa dele naquela época em que trocavamos discos, emprestávamos fitas cassete e todos nós estavamos abrindo nossas mentes para o rock. Velório era um cara informado, talvez por estar um ano mais adiantado que eu no colégio. Seu pai, se não me engano, tinha uma charutaria na Visconde de Rio Branco, a "Rua da Praia", no Centro de Niterói. De praia, já naquela época, a rua não tinha nada: era local de comércio popular, popularíssimo, com todos os ônibus que iam para os subúrbios de Niterói e, sobretudo, São Gonçalo, parando de qualquer maneira ao longo do calçadão. E nem sombra de praia ou faixa de areia, já que ali estava a estação das barcas, de água suja de restos jogados pelos passageiros e de diesel vazado dos motores das lanchas. A isso ainda se somava o xixi de muitos que não tinham pudores.
Velório, grande sujeito. Foi na casa dele que conheci o Rush, que então tinha discos editados aqui na surdina. Para variar, no Brasil tudo é uma zona. Naquela época, para que ele completasse a coleção, era preciso comprar o primeiro da banda, simplesmente Rush. Detalhe: o Hemispheres, o sétimo, já tinha sido lançado aqui, um trabalho diametralmente oposto ao orgânico LP de estreia do trio canadense.
Com Velório soube de dois discos do Black Sabbath, até então ignorados por mim: o fabuloso Sabotage e o ótimo Technical ecstasy. Aporrinhei-o até conseguir, à base de troca, esses dois LPs. O Technical ele nem gostava tanto assim e consegui convencê-lo com relativa facilidade, mas o Sabotage eu tive de suar a camisa. Nem lembro o que entrou no negócio, mas não foi fácil, sobretudo porque éramos loucos pela faixa Sympton of the universe. Não os tenho mais, substituídos que foram por edições em CDs. Acho que ambos estão com meu irmão, Leonardo.
Ouvimos Uriah Heep juntos, assim como AC/DC (um colega comum, o Hans, tinha todos os disponíveis no Brasil), Foghat (razão de um terrível mal-entendido entre nós) e Deep Purple, cuja coleção eu começava a encorpar. E muita coisa mais: Grand Funk Railroad, Led Zeppelin, Rainbow, Yes, Emerson, Lake & Palmer... Até mesmo bombas, como Golden Earring - uma estranha banda holandesa, que fazia um rock insosso -, ou Automat - um sub-Kraftwerk italiano, cuja música principal do LP abria o antigo Jornal da Globo -, ou ainda Paul McCartney - lembro que ele tinha o Band on the run -, a gente colocava no 3 em 1 National Panasonic que ele ganhara do pai de presente de Natal. Eu também tinha um da mesma marca, que meu pai importara do Japão, mas que vivia quebrado devido à má qualidade do aparelho.
E as várias fitas cassetes que trocavamos? Eu gravava um monte de coisas de madrugada e, no sábado, passava lá para ouvirmos juntos aquilo que eu e ele conquistávamos em termos sonoros. Tardes regadas a muito Hollywood, que consumíamos em boas proporções. Sem cerveja, só papo, muito papo sobre música.
Tempos ingênuos, tardes generosas. O irmão de Velório, Rafael, era apenas um menino, assim como meu irmão era um pós-bebê. Eu o levava comigo para nossas jornadas sonoras. Leonardo adorava, ficava quietinho, brincando com carrinhos ou só ouvindo música. Já naquela época o garoto estava sendo criado à base de Kansas, Queen, Purple, Zeppelin, Sabbath, Lynyrd Skynyrd, Motorhead, Iron Maiden e uma porrada de outras coisas.
A vida nos levou para longe. Ainda estudante, lembro que Velório foi trabalhar no banco Bamerindus, cuja agência era pegada ao Plaza Shopping, no Centro de Niterói, em frente à extinta megaloja da Mesbla. Eu fui estudar no Rio, era tempo de pré-vestibular. Para nos separar, um disco do importado Foghat, que eu detestava - e troquei com ele -, nos deixou estremecidos. Nos encontramos algumas vezes depois disso, mas foi uma coisa meio sem graça, da minha parte e da dele. Enfim, vida que segue.
Escrevendo sobre música, revendo minhas memórias, reencontrei o Velório e seu rosto de semplante tristonho, mas que não justificava o maldoso apelido colocado pela rapaziada do São Vicente de Paulo. Grande cara. Sempre foi. Um amigão. E esteja onde estiver, receba um abraço desse amigo saudoso daquelas tardes e daqueles papos.   

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Livros e música: poucos

Cresci numa família de poucos livros e pouca música. Meus pais sempre foram trabalhadores, embora um tanto obcecados pela aposentadoria. Questão de geração. É, pode ser. Reconheço que, desde cedo, os dois tiveram uma vida dura: um, filho de um taxista/gesseiro com uma dona de casa; outra, filha de um modesto comerciante de tintas com uma costureira esforçada. Ainda assim não entendo, nem entenderei, a vontade dos velhos de pendurar as chuteiras precocemente.
Melhoraram de vida quando os filhos se foram. Dois casaram e se descasaram e um continua casado. Para a vida eterna? Não se pode apostar nisso. A vida empurra a gente para vários lados. A casa, que antes tinha cinco, passou a ter dois. Três, se for considerado Zezinho, o gato. Dois e 1/3 talvez seja mais justo, mesmo porque Zezinho, se os cálculos para idades de gatos estiverem certos, já passou dos 100 anos. Mas está com corpinho de 25.
Os livros começaram a entrar pelo Círculo do Livro. Foi por ele que li “Os 10 dias que abalaram o mundo”, “Arquipélago Gulag”, “Duce – Ascensão e queda de Benito Mussolini”, “Treblinka”, “Por dentro do Terceiro Reich”. Seus autores: John Reed, Aleksandr Soljenisin, Richard Collyer, Jean-François Steiner e Albert Speer. Nomes que a gente guarda não somente porque marcaram a alma com seus escritos, mas sobretudo pela tenra idade. Na adolescência, se guarda tudo.
A grande maioria dos livros do Círculo era de documentários, livros históricos. Para não brigar com meu pai, que pagava a conta. Romances e contos vieram depois, bem depois.
Cheguei a ter uma bela biblioteca, que custou cerca de R$ 1,2 mil quando precisei de dinheiro. A sobrevivência falou mais alto. A má vontade dos meus pais com os livros também. Acham que livro, na quadra da vida em que estão, é um monte de papel sem proveito. Uma pena. Lamento ter sido obrigado a passar nos cobres, pouco depois que meu filho nasceu. O que me acalenta nesse episódio é que muito do que tinha eu já havia lido. “Judas, o obscuro”, de Thomas Hardy, “O alimento dos deuses”, de HG Wells, ou “O momento supremo”, de Stefan Zweig, são experiências inesquecíveis que do sebo vieram e ao sebo retornaram.
Disse que a casa dos meus pais era de pouca música também. Embolsava o dinheiro da merenda para comprar discos, LPs. Tinha uma loja em Icaraí, na minha Niterói natal, chamada Stop, quase na praia. Era a grande loja, com as novidades. Foi nela que comprei o “Moving pictures”, do Rush, que tenho até hoje. De lá veio também meu “Difficult to cure”, de uma fase do Rainbow que muita gente abomina. E outros vários, mas esses dois me lembro bem. Até hoje, quando passo em frente à loja, vejo a Stop, embora já tenha se tornado, há anos, uma imobiliária.
Depois foi o tempo da Center Sound, de Zé e sua barba de séculos. Ninguém jamais viu Zé sem barba, embora tenha ficado sem ela uma vez, pelo que me lembro. Meus primeiros LPs com ele foram um “Journey to the centre of the Earth”, de Rick Wakeman, e um “Look at youself”, do Uriah Heep. Ambos discos usados, que também negociava. Foram caros, pois estavam fora de catálogo. Dos dois, apenas o do Heep eu ainda tenho, assim mesmo na versão CD.
Lá pela primeira vez ouvi “Ace of spades”, do Motorhead. A aparelhagem de som era ótima e empurrava duas megacaixas de som, que eram excelentes e cristalinas. Me lembro que Zé abriu o gás no volume de um amplificador Sansui (ou Marantz, não tenho certeza; ou ainda Technics). Pela primeira vez ouvi Motorhead como deve ser ouvido.
Alguns discos tive mais de uma, duas vezes. “Made in Europe”, do Deep Purple, tive pelo menos dois, pois o primeiro que comprei estava empenado. O mesmo aconteceu com um “Electric Guitarrist”, do John McLaughlin. Ambos vindos da Stop. Deixei de comprar lá porque não tinham cuidado com o produto. Logo depois a loja fechou. Não tenho nada a ver com isso, por favor.
Dos meus discos eu não me desfiz. Tinha e ainda tenho um quarto só para eles e para os CDs. De vez em quando ainda vou ao sebo, compro uma coisa ou outra. Teve época que eu tirava um dinheiro do orçamento só para isso. Graças a Deus minha ex-mulher não implicava. Tinha vários defeitos, mas esse, não.
Tentei acreditar que meu pai um dia gostaria de livros ou de música. É um leitor de jornais, mas de livros, não. Insisti com ele no ramo dos arranjos e orquestrações, mas ele não deu muita pelota. Tentei apresentar-lhe coisas diferentes: Wayne Shorter, Gary McFarland, Stan Kenton, três nomes que aprecio muitíssimo no jazz. Acho que o único CD que consegui emplacar foi uma coletânea de Harry James que tinha algumas coisas da época do swing. Fora isso, mais nada. Não se abalou muito com o material que lhe ofereci.
Minha mãe não liga para nada disso. Ocupa-se com televisão e palavras cruzadas. Não é muito. Lembro-me, quando era menor, que ela cantava, que gostava. Não sei se a velhice fez com que perdesse o viço e a vontade. Eu lamento que o passar dos anos não tenha feito bem a ela.
Enfim, é a vida. Sei que não é a maneira mais brilhante de terminar um artigo, mas não vejo outro jeito além de cair no lugar comum. Como a vida, que é cheia de lugares-comuns.