No post anterior, falei de um cara sensacional: o Velório. Eduardo era o nome dele e morava perto de mim, na Presidente Baker, coração de Icaraí. Ia sempre à casa dele naquela época em que trocavamos discos, emprestávamos fitas cassete e todos nós estavamos abrindo nossas mentes para o rock. Velório era um cara informado, talvez por estar um ano mais adiantado que eu no colégio. Seu pai, se não me engano, tinha uma charutaria na Visconde de Rio Branco, a "Rua da Praia", no Centro de Niterói. De praia, já naquela época, a rua não tinha nada: era local de comércio popular, popularíssimo, com todos os ônibus que iam para os subúrbios de Niterói e, sobretudo, São Gonçalo, parando de qualquer maneira ao longo do calçadão. E nem sombra de praia ou faixa de areia, já que ali estava a estação das barcas, de água suja de restos jogados pelos passageiros e de diesel vazado dos motores das lanchas. A isso ainda se somava o xixi de muitos que não tinham pudores.
Velório, grande sujeito. Foi na casa dele que conheci o Rush, que então tinha discos editados aqui na surdina. Para variar, no Brasil tudo é uma zona. Naquela época, para que ele completasse a coleção, era preciso comprar o primeiro da banda, simplesmente Rush. Detalhe: o Hemispheres, o sétimo, já tinha sido lançado aqui, um trabalho diametralmente oposto ao orgânico LP de estreia do trio canadense.
Com Velório soube de dois discos do Black Sabbath, até então ignorados por mim: o fabuloso Sabotage e o ótimo Technical ecstasy. Aporrinhei-o até conseguir, à base de troca, esses dois LPs. O Technical ele nem gostava tanto assim e consegui convencê-lo com relativa facilidade, mas o Sabotage eu tive de suar a camisa. Nem lembro o que entrou no negócio, mas não foi fácil, sobretudo porque éramos loucos pela faixa Sympton of the universe. Não os tenho mais, substituídos que foram por edições em CDs. Acho que ambos estão com meu irmão, Leonardo.
Ouvimos Uriah Heep juntos, assim como AC/DC (um colega comum, o Hans, tinha todos os disponíveis no Brasil), Foghat (razão de um terrível mal-entendido entre nós) e Deep Purple, cuja coleção eu começava a encorpar. E muita coisa mais: Grand Funk Railroad, Led Zeppelin, Rainbow, Yes, Emerson, Lake & Palmer... Até mesmo bombas, como Golden Earring - uma estranha banda holandesa, que fazia um rock insosso -, ou Automat - um sub-Kraftwerk italiano, cuja música principal do LP abria o antigo Jornal da Globo -, ou ainda Paul McCartney - lembro que ele tinha o Band on the run -, a gente colocava no 3 em 1 National Panasonic que ele ganhara do pai de presente de Natal. Eu também tinha um da mesma marca, que meu pai importara do Japão, mas que vivia quebrado devido à má qualidade do aparelho.
E as várias fitas cassetes que trocavamos? Eu gravava um monte de coisas de madrugada e, no sábado, passava lá para ouvirmos juntos aquilo que eu e ele conquistávamos em termos sonoros. Tardes regadas a muito Hollywood, que consumíamos em boas proporções. Sem cerveja, só papo, muito papo sobre música.
Tempos ingênuos, tardes generosas. O irmão de Velório, Rafael, era apenas um menino, assim como meu irmão era um pós-bebê. Eu o levava comigo para nossas jornadas sonoras. Leonardo adorava, ficava quietinho, brincando com carrinhos ou só ouvindo música. Já naquela época o garoto estava sendo criado à base de Kansas, Queen, Purple, Zeppelin, Sabbath, Lynyrd Skynyrd, Motorhead, Iron Maiden e uma porrada de outras coisas.
A vida nos levou para longe. Ainda estudante, lembro que Velório foi trabalhar no banco Bamerindus, cuja agência era pegada ao Plaza Shopping, no Centro de Niterói, em frente à extinta megaloja da Mesbla. Eu fui estudar no Rio, era tempo de pré-vestibular. Para nos separar, um disco do importado Foghat, que eu detestava - e troquei com ele -, nos deixou estremecidos. Nos encontramos algumas vezes depois disso, mas foi uma coisa meio sem graça, da minha parte e da dele. Enfim, vida que segue.
Escrevendo sobre música, revendo minhas memórias, reencontrei o Velório e seu rosto de semplante tristonho, mas que não justificava o maldoso apelido colocado pela rapaziada do São Vicente de Paulo. Grande cara. Sempre foi. Um amigão. E esteja onde estiver, receba um abraço desse amigo saudoso daquelas tardes e daqueles papos.
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões (Graciliano Ramos)
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Carta a um amigo
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sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Sons para se ouvir no carro III
Algumas bandas de rock, quando um dos seus integrantes sai (ou morre), acabam. Com o Led Zeppelin foi assim, com o The Doors, com o Queen, até mesmo com o Deep Purple e com o Black Sabbath que, a despeito de terem prosseguido sem dois integrantes fundamentais, se tornaram algo totalmente diferente daquilo que eram. Evolução? Às vezes sim, às vezes não. Na maioria das vezes, puro oportunismo. Uma marca de sucesso não se pode desperdiçar.
Esse preâmbulo todo se faz por conta do CD que ouço neste instante no carro, do Thin Lizzy. Mas não é "o" Thin Lizzy e sim um arremedo com alguns integrantes do Thin Lizzy. "One night only" é o nome do disco e quisera fosse verdade. Seria um único show, mas a história deu-se de forma bem diferente.
O Thin Lizzy era Phil Lynnott, baixista-cantor-compositor-líder-mentor espiritual. Ele morreu, a banda acabou. Simples. Simples? Não no show bussiness. Três ex-integrantes do Lizzy devem ter acertado um percentual da bilheteria e da vendagem do CD ao dono da marca (talvez a mãe de Lynnott, uma das herdeiras ou a herdeira legal do trabalho intelectual do filho), montaram uma boa banda e foram à luta. O resultado é satisfatório, mas desonesto.
Os tais três são John Sykes, Scott Gorham (guitarras) e Darren Wharton (teclados). Exceto por Gorham, que ficou mais de uma década no Lizzy, os outros dois eram recém-chegados. Oficialmente, fizeram apenas dois discos oficiais do Lizzy (as edições da BBC e outras não contam aqui), "Thunder and lightning" e "Live-life". Gorham, não. Participou não apenas desses dois, mas de outros nove que vieram antes. Mesmo assim, isso não lhe dava direito sobre a marca; somente a propriedade intelectual pelas composições que lhe são atribuídas.
Não sei de quem foi a ideia de ressuscitar esse Lizzy capenga, mas, dizem, não foi de Gorham. Exceto pela "cozinha" Tommy Aldridge (bateria)-Marco Mendoza (baixo) - cujas passagens incluem Ted Nugent e Whitesnake -, os outros três não vinham fazendo nada de relevante. Wharton é como milhares de tecladistas que existem no rock. Gorham tentou levantar uma banda, a 21 Guns, mas não foi muito longe. E Sykes, desde que saiu do Whitesnake - esteve com David Coverdale antes de Aldridge e Mendoza -, batalhou em vão pelo seu Blue Murder. E naufragou.
Atribuo a ideia desse "Lizzy" a Sykes porque deles são os principais solos, além do vocal. Vá lá que seja o único que canta (razoavelmente), mas, por ocupar duas funções de destaque, acaba sendo o nome maior. Na mixagem, os solos de Gorham estão mais baixos que o de Sykes e não creio que isso tenha sido por acaso. Na época de Lynnott claro que isso não aconteceria.
O disco é ruim? Não, ao contrário. É uma espécie de greatest hits, ou seja, sucesso certo. Nada, aliás, que não se tenha ouvido em discos anteriores do Lizzy. Não há qualquer inovação, como tirar faixas do fundo do baú, novas interpretações ou coisa assim. Não há risco.
Sykes se sai bem como cantor e a levada da cozinha Aldridge-Mendoza é reta, sem as filigranas de Lynnott e do baterista original, Brian Downey. Wharton faz sua parte direito e Gorham mostra por que ficou tanto tempo na banda: temperamento doce e adaptável a qualquer outro que completasse o par de guitarra - Brian Robertson, Gary Moore, Snowy White, Midge Ure ou o próprio Sykes. Era uma espécie de apoio de Lynnott na linha de frente.
"One night only" não saiu por aqui e as edições européias são geralmente caras. Eu paguei pelo original e não me arrependi pela relação custo-benefício. Sobretudo porque a melhor maneira de ouvi-lo é como um CD de tributo e não como um trabalho do Lizzy.
Ah!, por fim. Essa banda não durou uma única noite, como sugere o título do CD. Durou várias, muitas noites depois desta, que foi registrada na Alemanha. O que só reforça a desonestidade do projeto.
Esse preâmbulo todo se faz por conta do CD que ouço neste instante no carro, do Thin Lizzy. Mas não é "o" Thin Lizzy e sim um arremedo com alguns integrantes do Thin Lizzy. "One night only" é o nome do disco e quisera fosse verdade. Seria um único show, mas a história deu-se de forma bem diferente.
O Thin Lizzy era Phil Lynnott, baixista-cantor-compositor-líder-mentor espiritual. Ele morreu, a banda acabou. Simples. Simples? Não no show bussiness. Três ex-integrantes do Lizzy devem ter acertado um percentual da bilheteria e da vendagem do CD ao dono da marca (talvez a mãe de Lynnott, uma das herdeiras ou a herdeira legal do trabalho intelectual do filho), montaram uma boa banda e foram à luta. O resultado é satisfatório, mas desonesto.
Os tais três são John Sykes, Scott Gorham (guitarras) e Darren Wharton (teclados). Exceto por Gorham, que ficou mais de uma década no Lizzy, os outros dois eram recém-chegados. Oficialmente, fizeram apenas dois discos oficiais do Lizzy (as edições da BBC e outras não contam aqui), "Thunder and lightning" e "Live-life". Gorham, não. Participou não apenas desses dois, mas de outros nove que vieram antes. Mesmo assim, isso não lhe dava direito sobre a marca; somente a propriedade intelectual pelas composições que lhe são atribuídas.
Não sei de quem foi a ideia de ressuscitar esse Lizzy capenga, mas, dizem, não foi de Gorham. Exceto pela "cozinha" Tommy Aldridge (bateria)-Marco Mendoza (baixo) - cujas passagens incluem Ted Nugent e Whitesnake -, os outros três não vinham fazendo nada de relevante. Wharton é como milhares de tecladistas que existem no rock. Gorham tentou levantar uma banda, a 21 Guns, mas não foi muito longe. E Sykes, desde que saiu do Whitesnake - esteve com David Coverdale antes de Aldridge e Mendoza -, batalhou em vão pelo seu Blue Murder. E naufragou.
Atribuo a ideia desse "Lizzy" a Sykes porque deles são os principais solos, além do vocal. Vá lá que seja o único que canta (razoavelmente), mas, por ocupar duas funções de destaque, acaba sendo o nome maior. Na mixagem, os solos de Gorham estão mais baixos que o de Sykes e não creio que isso tenha sido por acaso. Na época de Lynnott claro que isso não aconteceria.
O disco é ruim? Não, ao contrário. É uma espécie de greatest hits, ou seja, sucesso certo. Nada, aliás, que não se tenha ouvido em discos anteriores do Lizzy. Não há qualquer inovação, como tirar faixas do fundo do baú, novas interpretações ou coisa assim. Não há risco.
Sykes se sai bem como cantor e a levada da cozinha Aldridge-Mendoza é reta, sem as filigranas de Lynnott e do baterista original, Brian Downey. Wharton faz sua parte direito e Gorham mostra por que ficou tanto tempo na banda: temperamento doce e adaptável a qualquer outro que completasse o par de guitarra - Brian Robertson, Gary Moore, Snowy White, Midge Ure ou o próprio Sykes. Era uma espécie de apoio de Lynnott na linha de frente.
"One night only" não saiu por aqui e as edições européias são geralmente caras. Eu paguei pelo original e não me arrependi pela relação custo-benefício. Sobretudo porque a melhor maneira de ouvi-lo é como um CD de tributo e não como um trabalho do Lizzy.
Ah!, por fim. Essa banda não durou uma única noite, como sugere o título do CD. Durou várias, muitas noites depois desta, que foi registrada na Alemanha. O que só reforça a desonestidade do projeto.
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