O que é a Emenda 29? Simples. Se regulamentada, obriga os governadores a alocarem mais recursos na saúde. O que isso quer dizer? Se um governo estadual põe 10%, digamos, da sua receita líquida no setor, será obrigado a botar 15%. E de onde sai esse dinheiro? De outras rubricas. É só diminuir, por exemplo, gastos como os repasses ao Legislativo, contratações de apadrinhados políticos ou compras desnecessárias das administrações estaduais.
E o que está acontecendo? Eles não querem mudar um único centavo de lugar. Querem deixar como está e obrigar o governo federal a inventar mais um imposto para bancar a esperteza e a incompetência dos governadores. Chegaram a elaborar uma nota dizendo que é preciso mais recursos para a saúde, desde que o cidadão seja obrigado a contribuir com isso. É um crime, para dizer o máximo. É cinismo, para dizer o mínimo.
Sérgio Cabral Filho, que não é exemplo de gestão - afinal, gestão pressupõe eficiência -, disse que o fim da CPMF foi um golpe contra a população. Se não disse isso, quis dizer isso. Se eu soubesse antes, teria levado minhas contas para ele pagar. Faz cortesia com o chapéu alheio, com o nosso chapéu. É um brincalhão e é um dos maiores defensores de um novo imposto sobre o cangote do cidadão-contribuinte-eleitor.
A presidente Dilma assumiu um compromisso: o de não aumentar impostos. Disse isso durante a campanha e jogou para seu adversário, José Serra, a impressão de que ele, sim, defendia carga tributária maior. Como tudo grudava na careca do tucano, levou dias se explicando, enquanto Lula e o PT serviam como faróis da população na selva inóspita dos impostos. Dilma, porém, vem sendo pressionada e, dependendo dos interesses em jogo para as eleições de 2012, cederá.
O Congresso faz jogo duplo. Às vezes quer nova taxação, às vezes não. Testa a temperatura do eleitorado, que, é claro, é quente quando se trata de bancar algo cujo resultado continuará sendo abaixo da crítica. Dilma ainda tentou amenizar, dizendo que aceitaria a criação de um novo tributo, mas que não funcionasse nos moldes da antiga CPMF. Presidente: o brasileiro não quer imposto de forma alguma, nem que seja bem empregado. Já se disse que temos carga de Suécia e aplicação de Zimbábue. O Brasil já foi Belíndia, custos de Bélgica e serviços de Índia. Chegou o momento de sermos o Subábue.
Para Dilma, mais impostos representam um prego extra na sua popularidade. A presidente claudicou no caso Palocci, redimiu-se no de Alfredo Nascimento, consolidou-se no de Wagner Rossi, mas voltou a patinar no de Pedro Novais. Sua popularidade está no patamar de 60% do eleitorado. Com um novo imposto, a pretexto de bancar os gastos (que poderiam ser gatos) com a Saúde, tem tudo para chegar ao final do primeiro ano de governo com percepção abaixo dos 50%.
Péssimo. E comprometedor.
Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões (Graciliano Ramos)
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terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
A culpa é do técnico
Assistia a uma discussão ontem, na TV, sobre as razões pelas quais tantos ministros caíram em tão pouco tempo. A certa altura, a pergunta foi feita ao cientista político Murilo de Aragão, que disse ver coincidência na sinistra sequência que enfileirou ministros na direção do olho da rua. Não acredito em lances fortuitos, incumbidos ao destino. Tenho uma explicação própria para tudo isso: trata-se de “fadiga de material”.
O ministério de Dilma é fraco, muito fraco. Ela teve de assumir vários compromissos para ser eleita, que se refletiram na composição do primeiro escalão. Primeiro, vieram os acertos firmados por Lula, com a aquiescência dela, pelo qual vários ministros foram mantidos e outros tantos chegaram. Entre os que vieram, Antônio Palocci e Pedro Novais, um endossado pelo ex-presidente, o outro com a bênção do senador José Sarney. Entre os que foram mantidos, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi e Nelson Jobim, a pedido de Lula, na composição das alianças que levaram Dilma à vitória.
Em segundo, têm os acordos firmados por ela mesma. Nessa carreira aparecem Ideli Salvatti, Paulo Bernardo e Luiz Sérgio, figuras ligadas ao PT e ao governo anterior, que ascenderam ao ministério no balcão de negócios da campanha eleitoral. E finalmente, em terceiro, aqueles que vieram por indicação, mas que ela apenas ouvira falar. Tal como Ana de Hollanda, guindada à condição de ministra por intermédio de Palocci.
Na reforma ministerial de dezembro, boa parte deles sairia. Mas sairia pela porta da frente, com o currículo imaculado. A presidente faria um cotejo, veria quem se saiu bem e quem se saiu mal e trocaria aqueles que estão na segunda condição. Tudo seria sem atropelo, para que biografias não se tornassem folhas corridas. Haveria uma fofoca aqui, outra ali, mas nada que desabonasse ninguém.
Só que, como diz a Lei de Murphy, nada é tão ruim que não possa ficar pior. Um ministério fraco, vulnerável, daria nisso mesmo. Apesar do fogo amigo petista, que de olho num ministério para chamar de seu jogou no ventilador a questão das diárias de Ana de Hollanda, há a concordância geral de que a ministra da Cultura fez questão de se colocar na janela. E aí, conforme a música de Gonzaguinha, deu aos seus adversários a chance de “passar a mão nela”. Todos sabem o que esta expressão quer dizer.
Cair, não caiu, mas a imprensa ficou atenta e mais receptiva a dossiês. Aqui entra a fadiga de material: muitos dos que vinham do governo anterior perderam o cuidado, tornaram-se imprudentes e, principalmente, tinham a certeza de que Dilma seria tão leniente quanto Lula foi. Juntou-se jornalistas atentos com a falta de vergonha e deu no que deu. A explosão que abateu três ministros – o quarto, Nelson Jobim, saiu porque não conseguiu manter a língua dentro da boca – tem potencial para abater mais um tanto, pelas mesmas razões.
Não creio que o casal Gleisi Hoffman e Paulo Bernardo vá sair por causa da carona do jatinho do empresário que tem negócios com o governo. Mas criou-se novo contrangimento. Isso só mostra que o time é fraco e pouco cuidadoso. Aliás, a prova suprema da dura verdade sobre a mediocridade do primeiro escalão foi a troca de Luiz Sérgio por Ideli Salvatti. Ela estava largada num ministério sem visibilidade e sem importância, o da Pesca, e foi puxada para uma das funções mais importantes do governo, que é a articulação política. Ele estava na articulação política com um desempenho pífio e foi relegado a um ministério sem visibilidade, o da Pesca. Ninguém percebeu o engano antes? Que, neste caso, as funções estavam invertidas? É como se tivessem colocado o zagueiro central de volante e o volante de zagueiro central. A culpa na escalação errada é do técnico.
Consideram um grande feito as trocas que Dilma vem executando. Num país desacostumado com isso, é, de fato, um avanço. Sobretudo depois que ela mostrou imensa hesitação no caso Palocci. Mas é pouco, quase nada. A presidente ainda precisa aprender a treinar sua equipe. Somente sabendo onde cada um vai jogar é que será capaz de escalar direito o time.
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Estancando a sangria
A saída de Wagner Rossi é a prova de que a presidente Dilma faz mais política do que muita gente imagina. Claro que houve uma mudança de postura entre a atitude dela ante a crise do Ministério dos Transportes e a do Ministério da Agricultura. Com Alfredo Nascimento, houve sim uma medida maior de força do que com Rossi e a razão disso é o PMDB. O PR não é levado a sério pelo Palácio do Planalto, sobretudo quando o ex-ministro e hoje senador anuncia postura de independência, que o partido entregará os cargos no governo, mas não se tem notícia de nada tenha sido feito nesta direção.
Rossi poderia até não cair agora, mas não resistiria à reforma ministerial que – comenta-se – virá no final do ano. Sairia pela porta da frente e depois de receber tempo suficiente para fechar negócios inacabados. Porém, perdeu-se ao achar que ética é um conceito elástico, que pode ser explicado conforme os olhos de quem o vê. Foi por isso que se traiu ao afirmar que não via nada de mais em pegar carona no jatinho de um empresário que tinha negócios com o Ministério. Negócios, aliás, que experimentaram imenso avanço desde a chegada de Rossi.
Da mesma forma, foi devastadora a entrevista de um funcionário da pasta ao Jornal Nacional, afirmando que nas concorrências do Ministério havia cartas marcadas. Nada disso era novidade: a Veja trouxera o caso na edição do final de semana, dando nomes e datas, e ainda chamou a atenção para o oásis que o ex-ministro tinha no interior de São Paulo. Não terminou aí: mostrou que o patrimônio de Rossi engordou como gado bem nutrido desde que entrou para a política.
A revista mostrou mais. Que o ex-ministro tinha uma ligação umbilical com Michel Temer, que passava pelo Porto de Santos. As histórias envolvendo o vice-presidente e as maiores docas do País são conhecidas há tempos e comentadas à boca pequena. Na medida em que algo assim aparece, com dados concretos, a luz amarela acende. Temer quer ficar com o espólio de Orestes Quércia em São Paulo e suspeitas como essas são pedras no caminho. Sem contar o prejuízo que isso traz para a imagem do governo federal e para a União. Afinal, Temer é o segundo homem da República.
No momento em que todos esses fatores foram misturados, Temer e Dilma tiveram de conversar. O prejuízo causado pela denúncia ameaçava desmoralizar o governo. Era um desgaste que o Palácio do Planalto poderia evitar, não estivesse o PMDB do outro lado da linha. Fisiológico e acostumado com o estilo Lula de atropelar a moralidade, o partido não se conforma com o fato de os ventos não serem mais os mesmos.
O problema era achar uma equação que não colocasse a legenda à beira do precipício. A carta de demissão, sob a justificativa de que a família de Rossi não aguentava mais os aborrecimentos trazidos desde que a denúncia veio à tona, é protocolar. Mas funciona. Afinal, família é família, por pior que seja o chefe dela.
Posso afirmar que em relação a Pedro Novais a mesma saída está sendo gestada. O problema é, mais uma vez, não deixar o partido exposto com outra dispensa desonrosa, apesar de todos os eufemismos e disfarces que uma medida dessas possa ter. Dependendo daquilo que as revistas trouxerem neste final de semana, o ministro do Turismo joga a toalha.
Novais, porém, foi mais traiçoeiro que Rossi: disse que fica à frente da pasta até quando Dilma quiser. Ou seja, jogou para ela a responsabilidade de dispensá-lo, criando um problema entre a presidente e o PMDB. Mas ela não é boba e percebeu a esperteza.
Novamente, se preciso for, Dilma vai chamar Temer para chegarem a um nome para substituir Novais que agrade a todos. No Palácio do Planalto, há o consenso que trocar ministro traz traumas, mas apanhar da imprensa, que expõe os malfeitos de algumas figuras do primeiro escalão, é ainda pior. Trocar ministro não abrevia governo. Pressão de jornalista, sim.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Taca pedra na Geni
O futebol tem uma sabedoria que embute um certo cinismo nas relações pessoais. Uma das primeiras coisas que aprendi, na época e que cobria os clubes do Rio de Janeiro, para a Placar e para O Globo, foi que a expressão “O técnico está prestigiado” não é o que parece ser. Dá a entender que a diretoria, apesar dos maus resultados, está disposta a bancar o treinador, só que é justamente o contrário. O cara está com um pé fora do time. O mau resultado seguinte geralmente o obriga a colocar o segundo pé na rua.
Vejo da mesma maneira a expressão da presidente Dilma em relação ao ministro Wagner Rossi. Ele está “prestigiado”, por assim dizer. A presidente manda, com outras palavras, o seguinte recado: se vier mais uma denúncia, não vou te mandar embora, mas você também não fica. Ou seja, o ministro passará à condição de demitido por uma suposta vontade própria.
A essa altura do campeonato – para continuarmos nas metáforas futebolísticas, embora Dilma não seja Lula –, o recado já foi enviado ao PMDB. O vice Michel Temer até gostaria de segurar o apadrinhado, mas sabe que mais ainda pode vir na direção de Wagner Rossi. Já estaria negociando a entrada de um substituto em cena. O Palácio do Planalto vai trabalhar discretamente, pois é muita crise de corrupção levantada em pouco tempo. A presidente está fazendo uma reforma ministerial que não gostaria de realizar agora.
Na quarta-feira, Rossi vai ao Congresso para dar mais explicações. Vão querer saber da relação entre ele e seu ex-secretário-executivo, Milton Ortolani, com o lobista Júlio Froés. Fróes já deixou claro que conhece o primeiro e o ex-segundo do Ministério; o ministro primeiro disse que não sabia quem era, mas, depois, acabou por “lembrar-se” dele. Ortolani nem se deu ao trabalho de tentar justificar: pediu demissão antes que a coisa fedesse demais. E vai feder, não tenham dúvidas. A oposição não pretende dar trégua, embora algumas coisas nem dependam dela.
O que Dilma está fazendo é dar a chance ao PMDB de resolver uma questão de governo, do qual faz parte. Daí a defesa pública de Rossi. Afinal, se todos forem para o buraco, o PMDB vai junto. Só que uma briga com os peemedebistas não interessa em nada ao Palácio do Planalto, que só teria a perder no Congresso. Isso tudo faz da operação de substituição de Wagner Rossi uma questão extremamente delicada.
Tão delicada que chama a atenção, sobretudo do PR. O partido foi satanizado e tornou-se uma espécie de cloaca do qual não se espera nada além de sujeira e porcaria. O tratamento vip dado ao PMDB vai colocar os republicanos na condição de ainda mais ressentidos do que já estão. Vão trair o governo e não o farão esfaqueando pelas costas. Vão cravar a lâmina de frente mesmo.
Isso não quer dizer que o PMDB vá atuar unido contra uma eventual revolta do PR. Não é um partido disso: dependendo da pressão que sofrer do Palácio para a substituição de Rossi, dá tranquilamente uma rasteira no governo.
A presidente não vai correr o risco de, ao longo desta semana, mais coisas aparecerem no âmbito do Ministério da Agricultura. Mostrou que há um nó ético a ser desfeito e chamou os peemedebistas a meterem a mão na massa. Ou seja: encontrem um substituto para Rossi, que sairá alegando problemas pessoais no caso de mais uma denúncia.
Caso a denúncia não venha e ele permaneça, haverá uma limpeza em regra a partir do segundo escalão do Ministério. Será feita sem alarde e colocada na conta dos méritos do ministro sobrevivente, que poderá salvar-se afirmando que foi ele quem promoveu a faxina e nem precisou de ordem da presidente para fazê-lo. A partir daí as coisas se acalmam e tanto governo, quanto PMDB, respondem à opinião pública, que está com gosto de sangue na boca e quer mais cabeças rolando pela Esplanada dos Ministérios.
E o PR? Continuará como a Geni, que ganhou pedradas ao sair nua com uma mala de dinheiro pelo Eixo Monumental.
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