segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Carta a um amigo

No post anterior, falei de um cara sensacional: o Velório. Eduardo era o nome dele e morava perto de mim, na Presidente Baker, coração de Icaraí. Ia sempre à casa dele naquela época em que trocavamos discos, emprestávamos fitas cassete e todos nós estavamos abrindo nossas mentes para o rock. Velório era um cara informado, talvez por estar um ano mais adiantado que eu no colégio. Seu pai, se não me engano, tinha uma charutaria na Visconde de Rio Branco, a "Rua da Praia", no Centro de Niterói. De praia, já naquela época, a rua não tinha nada: era local de comércio popular, popularíssimo, com todos os ônibus que iam para os subúrbios de Niterói e, sobretudo, São Gonçalo, parando de qualquer maneira ao longo do calçadão. E nem sombra de praia ou faixa de areia, já que ali estava a estação das barcas, de água suja de restos jogados pelos passageiros e de diesel vazado dos motores das lanchas. A isso ainda se somava o xixi de muitos que não tinham pudores.
Velório, grande sujeito. Foi na casa dele que conheci o Rush, que então tinha discos editados aqui na surdina. Para variar, no Brasil tudo é uma zona. Naquela época, para que ele completasse a coleção, era preciso comprar o primeiro da banda, simplesmente Rush. Detalhe: o Hemispheres, o sétimo, já tinha sido lançado aqui, um trabalho diametralmente oposto ao orgânico LP de estreia do trio canadense.
Com Velório soube de dois discos do Black Sabbath, até então ignorados por mim: o fabuloso Sabotage e o ótimo Technical ecstasy. Aporrinhei-o até conseguir, à base de troca, esses dois LPs. O Technical ele nem gostava tanto assim e consegui convencê-lo com relativa facilidade, mas o Sabotage eu tive de suar a camisa. Nem lembro o que entrou no negócio, mas não foi fácil, sobretudo porque éramos loucos pela faixa Sympton of the universe. Não os tenho mais, substituídos que foram por edições em CDs. Acho que ambos estão com meu irmão, Leonardo.
Ouvimos Uriah Heep juntos, assim como AC/DC (um colega comum, o Hans, tinha todos os disponíveis no Brasil), Foghat (razão de um terrível mal-entendido entre nós) e Deep Purple, cuja coleção eu começava a encorpar. E muita coisa mais: Grand Funk Railroad, Led Zeppelin, Rainbow, Yes, Emerson, Lake & Palmer... Até mesmo bombas, como Golden Earring - uma estranha banda holandesa, que fazia um rock insosso -, ou Automat - um sub-Kraftwerk italiano, cuja música principal do LP abria o antigo Jornal da Globo -, ou ainda Paul McCartney - lembro que ele tinha o Band on the run -, a gente colocava no 3 em 1 National Panasonic que ele ganhara do pai de presente de Natal. Eu também tinha um da mesma marca, que meu pai importara do Japão, mas que vivia quebrado devido à má qualidade do aparelho.
E as várias fitas cassetes que trocavamos? Eu gravava um monte de coisas de madrugada e, no sábado, passava lá para ouvirmos juntos aquilo que eu e ele conquistávamos em termos sonoros. Tardes regadas a muito Hollywood, que consumíamos em boas proporções. Sem cerveja, só papo, muito papo sobre música.
Tempos ingênuos, tardes generosas. O irmão de Velório, Rafael, era apenas um menino, assim como meu irmão era um pós-bebê. Eu o levava comigo para nossas jornadas sonoras. Leonardo adorava, ficava quietinho, brincando com carrinhos ou só ouvindo música. Já naquela época o garoto estava sendo criado à base de Kansas, Queen, Purple, Zeppelin, Sabbath, Lynyrd Skynyrd, Motorhead, Iron Maiden e uma porrada de outras coisas.
A vida nos levou para longe. Ainda estudante, lembro que Velório foi trabalhar no banco Bamerindus, cuja agência era pegada ao Plaza Shopping, no Centro de Niterói, em frente à extinta megaloja da Mesbla. Eu fui estudar no Rio, era tempo de pré-vestibular. Para nos separar, um disco do importado Foghat, que eu detestava - e troquei com ele -, nos deixou estremecidos. Nos encontramos algumas vezes depois disso, mas foi uma coisa meio sem graça, da minha parte e da dele. Enfim, vida que segue.
Escrevendo sobre música, revendo minhas memórias, reencontrei o Velório e seu rosto de semplante tristonho, mas que não justificava o maldoso apelido colocado pela rapaziada do São Vicente de Paulo. Grande cara. Sempre foi. Um amigão. E esteja onde estiver, receba um abraço desse amigo saudoso daquelas tardes e daqueles papos.   

Sons para se ouvir no carro VI

Há muitos anos, nas tardes de sábado, eu ia para a casa de um amigo, o Velório, ouvir um programa de rock que existia na antiga Rádio 98, no Rio de Janeiro. A 98 era herdeira direta da antiga Eldopop, que velhuscos saudosistas como eu até hoje enchem a boca para homenagear. O programa, creio, era das 3 às 4 da tarde e foi nele que ouvi, pela primeira vez, Stone dead forever, um porradão do Motorhead que curto até hoje, 30 anos depois.
Mas o som que ouço agora no carro começou com um susto. Assim: a guitarra fazia dueto com uma voz rouca, cheia de trejeitos e todo o tempo praguejando. Até que a voz desaparecia. Fazia-se um breve silêncio até que BROOOM-UOOOOON-UEMMMMMM-ROOOOOOOM-ZIIIIIIIIUUUUUUU (essa é minha interpretação onomatopeica para as notas gordas que eram tiradas)... e fechava, com o prato e o baixo, para que imediatamente começasse um solo alucinado. As palhetadas eram velocíssimas, os dedos voavam pelo braço da guitarra.
"Porra, Velório, que som é esse?"
"Sei lá, vamos ver se o locutor anuncia".
E anunciou. "Van Halen, Everybody wants some". Caraca, o Van Halen tinha se superado em matéria de peso e esporro. Não preciso nem dizer que, nas semanas seguintes, depois de passar fome no colégio, lá estava eu com minha edição do LP Women and children first, o terceiro da banda. Como comprei uma das primeiras prensagens no Brasil, tive direito a um pôster de David Lee Roth, o cara da voz rouca, numa pose supergay, de joelhos e com as mãos amarradas por correntes a uma grade. O pôster dei para minha irmã, que, evidentemente, o perdeu. (Quanto não deve estar valendo essa edição hoje...)
Voltando ao LP. Ainda hoje não o considero melhor que o Van Halen I, que pode ser considerado, no mínimo, histórico. Women é um bom disco, melhor que o VH II, que decepcionou muita gente, inclusive a mim. Mas, ouvindo-o agora com ouvidos mais apurados, trata-se de um trabalho cheio de erros, só que com o pecado de ser pretensioso. As grosserias que fazem de VH I um clássico, com sua produção raçuda e semi-tosca - algo deliberadamente traçado por Ted Templeman e Don Landee, que já haviam trabalhado com outros megaartistas, como The Doobie Brothers -, nesse Women parecem desleixo. Parecem a necessidade de corrigir rápido um erro, tal como foi VH II.
Têm execelentes faixas, como Everybody wants some, ou Tora, Tora, ou Take your whisley home. Loss control ou Romeo delight também são estupendas, mas o disco abre em marcha lenta com And the craddle will rock. Ainda que a intenção fosse dar um ar de crescendo ao LP, se já começasse com um porradão, quebrava aquela impressão inicial de que se arrastaria por um rock pouco inspirado, como o de abertura.
Mas não é somente isso. Já ali o Van Halen começava a delirar com faixas como Could this be magic?, acústica e que serve somente para que Roth possa mostrar seu conhecimento do cancioneiro popular norte-americano. A partir disso, os discos do VH passam a mostrar algo do gênero, que pode ser até um exercício de bom-humor e criatividade para alguns, mas para muitos - como eu - são apenas desperdício de espaço e de vinil. São músicas que se fossem suprimidas dos LPs não fariam falta alguma.
Em Women, o VH também assume ares de grande banda, agregando elementos que tiraram a graça e a agressividade inicial do quarteto. Isso fica claro na capa e na contracapa, com Eddie Van Halen segurando uma Kramer feita especialmente segundo suas especificações. Para quem passou a sonhar com aquelas Fender Stratocaster mexidas pelo então pouco conhecido John Suhr, que podem ser vistas nos dois primeiros trabalhos, a troca pareceu um sacrilégio. "Onze entre dez" guitarristas queriam uma Fender daquelas, com aquele som que ninguém nem nenhum guitarrista conseguia reproduzir.
Continuo recomendando: Women não é um disco ruim, muito ao contrário. Ele custa a engatar e talvez seja isso que irrite. É um trabalho que, se um marciano chegasse hoje à terra e quisesse conhecer algo do van Halen, poderia não agradar. Infalível continua sendo o VH I. O VH II é controverso. Já Fair warning, Diver down ou 1984 é para quem já não se assusta mais com o Van Halen.
E evitem sempre conhecer a banda já na fase Sammy Hagar. Pode ser antipatia à primeira vista.

Guerra de guerrilha

Estar dentro de um órgão público é um exercício político muito interessante. Sobretudo quando começam a surgir na imprensa "recados", "notas", todas visivelmente plantadas e com a única intenção de desestabilizar o comandante desse mesmo órgão público. A má-fé de alguns veículos, seja porque se comprazem com o jornalismo especulativo, seja porque assumiram uma postura anti-governo pautada na mais absoluta cegueira, apenas ressalta o contorno de uma imprensa de segunda categoria. É aquela história: os caras ouvem o galo cantar não sabem onde, compram a primeira versão, fazem a fofoca e acham que isso é jornalismo, reportagem ou coisa que o valha.
Não, não mudei de posição. Da mesma forma que critico esse tipo de imprensa, ataco a imobilidade do órgão público, que, mastodôntico, perde tempo precioso deixando que a versão errada se consolide e vire verdade. Arrancar uma resposta, assertiva, rápida, direta, é um jogo de cautelas e medos difícil de entender. A coisa somente anda um pouquinho mais rápido quando tem cheiro de crise ou de articulação, que envolve mais de um jornal, que se deixam saborosamente aprisionar por supostas fontes. Aí o órgão público até se movimenta, mas com a agilidade de uma baleia - fora d'água!
Toda essa peroração aqui é por causa da mais rasteira política partidária, ou melhor, futrica partidária. A secretária chegou ao órgão público com ares de que seria a futura titular, num momento em que a titular jogava mal, chutando bolas para fora e deixando possibilidades de críticas por todos os lados. Também, pudera: o que foi fazer no Rio de Janeiro com dinheiro público e sem agenda clara? Pediu...
A secretária é ambiciosa e, como toda suposta gestora pública, tenha um palavrório impressionante, que dificilmente se traduz em ação concreta. Fala com aqueles jargões sociológicos e psicológicos típicos de quem leu direitinho as inúmeras teorias da comunicação, que têm muito de teoria e pouco de comunicação. É tida como intelectual e consegue mascarar bem a ignorância com uma militância partidária intensa, sem contar uma conexão com ONGs e outros grupos sociais tão caros a esse tipo de figura. É uma "agitadora", para usar um jargão carioca. Frequenta favelas (perdão, comunidades), dá a maior força para grupos que se formam para, evidentemente, levarem aquela voz para outras seções da sociedade e da opinião pública. Ou seja, a secretária é "gente finíssima", "pedra 90".
Já a titular do órgão público é uma figura frágil, de tradicional família intelectual. Não é a de maior destaque, que fica para o pai, o irmão mais velho e uma irmã que chegou a ter carreira internacional. Caçulinha, é boa menina desde sempre, profissional de dotes limitados na lida que abraçou. Mas, por conta das conexões políticas, chegou a um posto que desde muito vem sendo cobiçado por uma deputada e outros grupos político-partidários.
A secretária, por causa da ambição e das conexões na legenda à qual pertence, começa a enfrentar abertamente a titular do cargo. Claro, não está sozinha na aventura de criar saias-justas e factóides. Quanto mais, melhor, pois expõe a fraqueza da titular e a pouquíssima velocidade da máquina do orgão público em responder às ameaças que surgem pela imprensa. Nessa briga de quem pode mais, a secretária passa à condição de ex. E empreende uma verdadeira guerra de guerrilha por meio de jornalistas amigos, alguns mau intencionados, outro apenas ingênuos. Só que ambos servem de amplificador para uma guerra intestina.
Dentro do órgão público, a ex-secretária deixou um passivo de maus relacionamentos e trabalho de eficiência duvidosa. Mas, como transita bem no partido, expõe uma mal escrita carta aberta em perfil num desses instrumentos de rede social, que os cupinchas fazem questão de fazer circular. Utilizam para isso uma ferramenta formidável, o Tuíter, que é uma espécie de rádio de todo mundo: a pessoa fala a bobagem que quiser, por sua conta e risco, e replica aquilo que mais lhe convém, até mesmo mentiras. Exceto os verdadeiros veículos de imprensa, os demais não têm qualquer responsabilidade ou compromisso com a informação correta.
Eis aí um caldo interessante. A ex-secretária ambiciosa, turbinada por um grupo político, assume um estilo de bater e correr pelas redes sociais numa titular de órgão público conhecida por uma doçura que se mistura a uma certa ingenuidade política. De um lado, a estrutura vietcongue contra o gigante lento, obeso, que além de não saber criar agendas positivas, também não sabe agir rápido na contenção de crises fabricadas. O desgaste causado por essa estratégia, com os canais de que dispõe a ex-secretária, lhe são amplamente favoráveis. Pode não se beneficiar diretamente deles, mas consegue solapar a titular do órgão público, consolidando-lhe a má imagem. Não ganha, mas não deixa a outra ganhar.
Um empate com sabor de vitória.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Depois da Belíndia, o Subábue

O que é a Emenda 29? Simples. Se regulamentada, obriga os governadores a alocarem mais recursos na saúde. O que isso quer dizer? Se um governo estadual põe 10%, digamos, da sua receita líquida no setor, será obrigado a botar 15%. E de onde sai esse dinheiro? De outras rubricas. É só diminuir, por exemplo, gastos como os repasses ao Legislativo, contratações de apadrinhados políticos ou compras desnecessárias das administrações estaduais.
E o que está acontecendo? Eles não querem mudar um único centavo de lugar. Querem deixar como está e obrigar o governo federal a inventar mais um imposto para bancar a esperteza e a incompetência dos governadores. Chegaram a elaborar uma nota dizendo que é preciso mais recursos para a saúde, desde que o cidadão seja obrigado a contribuir com isso. É um crime, para dizer o máximo. É cinismo, para dizer o mínimo.
Sérgio Cabral Filho, que não é exemplo de gestão - afinal, gestão pressupõe eficiência -, disse que o fim da CPMF foi um golpe contra a população. Se não disse isso, quis dizer isso. Se eu soubesse antes, teria levado minhas contas para ele pagar. Faz cortesia com o chapéu alheio, com o nosso chapéu. É um brincalhão e é um dos maiores defensores de um novo imposto sobre o cangote do cidadão-contribuinte-eleitor.
A presidente Dilma assumiu um compromisso: o de não aumentar impostos. Disse isso durante a campanha e jogou para seu adversário, José Serra, a impressão de que ele, sim, defendia carga tributária maior. Como tudo grudava na careca do tucano, levou dias se explicando, enquanto Lula e o PT serviam como faróis da população na selva inóspita dos impostos. Dilma, porém, vem sendo pressionada e, dependendo dos interesses em jogo para as eleições de 2012, cederá.
O Congresso faz jogo duplo. Às vezes quer nova taxação, às vezes não. Testa a temperatura do eleitorado, que, é claro, é quente quando se trata de bancar algo cujo resultado continuará sendo abaixo da crítica. Dilma ainda tentou amenizar, dizendo que aceitaria a criação de um novo tributo, mas que não funcionasse nos moldes da antiga CPMF. Presidente: o brasileiro não quer imposto de forma alguma, nem que seja bem empregado. Já se disse que temos carga de Suécia e aplicação de Zimbábue. O Brasil já foi Belíndia, custos de Bélgica e serviços de Índia. Chegou o momento de sermos o Subábue.
Para Dilma, mais impostos representam um prego extra na sua popularidade. A presidente claudicou no caso Palocci, redimiu-se no de Alfredo Nascimento, consolidou-se no de Wagner Rossi, mas voltou a patinar no de Pedro Novais. Sua popularidade está no patamar de 60% do eleitorado. Com um novo imposto, a pretexto de bancar os gastos (que poderiam ser gatos) com a Saúde, tem tudo para chegar ao final do primeiro ano de governo com percepção abaixo dos 50%.
Péssimo. E comprometedor.

Sons para se ouvir no carro V

A gente vai ficando velho e vai admitindo um monte de coisas. Quando eu era mais garoto, não podia sequer me imaginar ouvindo Earth, Wind & Fire. Achava que eles eram a expressão da discoteca mais rastaquera, que acreditava ser música de péssima qualidade. Que bobagem! Fui vendo que os caras tocam pra caramba e que gosto não tem nada a ver com técnica. Resultado dessa minha mudança: adquiri vários discos do EW&F e digo sem medo de errar que eles são excelentes, dos arranjos ao domínio de cada um sobre seu instrumento.
Estou ouvindo um CD chamado "Greatest Hits Live", de 1996. Achei-o perdido numa mesa da redação do Jornal de Brasília, procurei seu dono e ninguém se apresentou. É um CD original, mas carecia da capa, que só descobri agora como é. Improvisei uma para que o bichinho, enjeitado, não tentasse o suicídio. É um discaço, com poucas passagens pelo gênero disco. O funk do EW&F dá a direção, o que quer dizer que o pau quebra todo o tempo.
Maurice White está à frente da banda, mandando ver nos vocais e na kalimba (um instrumentinho africano com teclas de metal), que ele usa em apenas uma música. Verdine, seu irmão, é o alicerce da banda, com seu baixo onipresente. Por ser negrão, poderia se imaginar que buscasse o protagonismo no instrumento, tal como Larry Graham (do Graham Central Station) ou Louis Johnson (do Brothers Johnson), dois dos maiores baixistas do funk. Verdine, porém, joga para o time, embora destile um domínio impecável das quadro cordas.
Como não tenho a capa original, não conseguiria dizer quem forma o restante da banda. Mas alguns caras se sobressaem, como o cantor e percussionista Phillip Bailey (com sua voz feminina), o baterista Sonny Emory (um craque das baquetas) e o sax alto de Scott Mayo (e seus agudíssimos). Com todo o perfeccionismo de times como esses, nem é preciso dizer que os demais são músicos de primeira linha.
Para quem acha que o repertório do EW&F é somente "September" ou "Boogie wonderland", com seus violinos de sintetizador, erra redondamente. Há grandes canções, como "Sun goddess", de autoria de Ramsey Lewis, e "That's the way of the world", que pertencem a trabalhos anteriores à época disco. Também têm baladas encantadoras, como "Reasons", na qual Bailey dá um show de vocal. 
Não conseguiria dizer se este "Greatest hits Live" é melhor que "That's the way of the world - Live in 1975", que foi lançado há poucos anos pela Sony Legacy. Ambos são excelentes, embora o mais antigo seja funk e o recente tenha forte acento pop. De qualquer maneira, este trabalho de 1996 mostra o EW&F em forma grandiosa.
Se tivesse de dar uma nota, daria 10 tranquilamente. É um registro gostoso, que vale a pena, desta que é uma das grandes bandas de funk de todos os tempos. Menos louca que o Parliament Funkadelic, menos pop do que poderia se imaginar, mas com um balanço irresistível. E uma técnica avassaladora.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sons para se ouvir no carro IV

Geralmente tenho mais de um CD no carro. Além daquele do remendado Thin Lizzy de que falei anteriormente, trago outro, este do baixista Jack Bruce: "Live in America".
Poderíamos atribuir à edição brasileira a pobreza do material, mas não seria correto. O CD já sai ruim da matriz, um desses bilhões de selos pequenos que editam trabalhos sem se preocupar muito com informações técnicas, qualidade do som e apresentação. Pior de tudo é que conta com a aquiescência do artista, nesse caso demonstrando pouco interesse pela própria obra.
"Live in America" começa mal. Não há qualquer menção ao início do show. Aquele tradicional "Ladies and gentlemen, please welcome...", nem pensar. Já entra com a voz de Bruce cantando e, pelo que se percebe logo de cara, numa fita retirada da mesa de som. Fica nítido quando a banda entra, pela falta de peso, de divisão do estéreo. Parece incrível, mas ainda há quem edite discos assim. É um pirata oficializado.
A banda, ah!, a banda. Tirando Bruce, que canta e toca o baixo, o restante do time é Clem Clempson (guitarra), David Sancious (teclados) e Billy Cobham (bateria). Como se vê, somente craques de bola, com fluência nas linguagens do rock, do jazz e do fusion. Não chega a ser algo inusitado, já que Bruce e Cobham, por exemplo, se cruzaram em discos de John McLaughlin e de Mose Allison.
Mas como se descobre que são esses quatro? Escutando atentamente às apresentações que Bruce faz, no intervalo de cada música. Ouve-se ainda uma segunda guitarra, que é de... Sancious. Não tinha a menor ideia de que ele também brincava nas seis cordas. E se sai muitíssimo bem, em alguns momento rivalizando com Clempson, que é um especialista na matéria. Nada disso está na ficha técnica, que, aliás, inexiste.
(Um parêntese para falar de Clem Clempson. É desse músicos subestimados, mas muito apreciado por quem realmente entende do assunto. Na época do Colosseum, uma banda que era abertamente de fusion, integrava-se a um time composto só de craques - Dick Hackstall-Smith, David Greenslade, Jon Hisemann, Chris Farlowe e Mark Clarke. Quando se juntou ao Humble Pie, muita gente achou que seria somente para substituir o bonitinho [na época] e talentoso Peter Frampton. Clempson, porém, fez mais, apesar da personalidade forte de Steve Marriott. Discos como "Smokin" ou "Thunderbox" merecem ser ouvidos com imenso carinho.
Fico imaginando se Clempson tivesse entrado no Deep Purple, com a saída de Ritchie Blackmore. Jon Lord mesmo disse que o guitarrista não se adaptou à banda, abrindo a chance para Tommy Bolin. Permitiu o pulo do gato de Bolin, que levou seu estilo totalmente diferente de Blackmore e fez um trabalho único. Talvez tenha sido esse o erro de Clempson: tentar calçar as sandálias do antecessor.)
Quem não se incomodar com a má qualidade sonora, vai ouvir boas versões para clássicos do Cream e sucessos da banda, além de números da carreira-solo de Bruce. Tem espaço para tudo, do rock pesado ao reggae, passando pela fusão com  o jazz. Os quatro estão em excelente forma.
O disco foi gravado em algum lugar dos Estados Unidos e se as versões para as canções do Cream ("White room", "Traintime", "Politician") seguem a fórmula original, bem como as demais, há pelo menos uma novidade: "Theme from an imaginary western". Embora seja de Bruce e seu parceiro Pete Brown, fez parte do repertório do Mountain, banda com a qual o baixista mantinha ligação fraternal.
Na capa, um belo baixo Epiphone modelo SG, igual ao Gibson que Bruce usava. Mas isso não a faz bonita. O disco tem o quê de improviso que incomoda e não vale os R$ 20,00 que provavelmente custam por aí. Minha edição ganhei do amigo Guilherme Lobão, um conhecedor de música e cinema, com o qual sempre tive excelentes papos. Não compraria "Live in America" se o encontrasse nas minhas andanças, a menos que estivesse baratíssimo. E pelos motivos que listei.
Mas já que tenho, o melhor é ouvi-lo. E isso não dói nada.

Sons para se ouvir no carro III

Algumas bandas de rock, quando um dos seus integrantes sai (ou morre), acabam. Com o Led Zeppelin foi assim, com o The Doors, com o Queen, até mesmo com o Deep Purple e com o Black Sabbath que, a despeito de terem prosseguido sem dois integrantes fundamentais, se tornaram algo totalmente diferente daquilo que eram. Evolução? Às vezes sim, às vezes não. Na maioria das vezes, puro oportunismo. Uma marca de sucesso não se pode desperdiçar.
Esse preâmbulo todo se faz por conta do CD que ouço neste instante no carro, do Thin Lizzy. Mas não é "o" Thin Lizzy e sim um arremedo com alguns integrantes do Thin Lizzy. "One night only" é o nome do disco e quisera fosse verdade. Seria um único show, mas a história deu-se de forma bem diferente.
O Thin Lizzy era Phil Lynnott, baixista-cantor-compositor-líder-mentor espiritual. Ele morreu, a banda acabou. Simples. Simples? Não no show bussiness. Três ex-integrantes do Lizzy devem ter acertado um percentual da bilheteria e da vendagem do CD ao dono da marca (talvez a mãe de Lynnott, uma das herdeiras ou a herdeira legal do trabalho intelectual do filho), montaram uma boa banda e foram à luta. O resultado é satisfatório, mas desonesto.
Os tais três são John  Sykes, Scott Gorham (guitarras) e Darren Wharton (teclados). Exceto por Gorham, que ficou mais de uma década no Lizzy, os outros dois eram recém-chegados. Oficialmente, fizeram apenas dois discos oficiais do Lizzy (as edições da BBC e outras não contam aqui), "Thunder and lightning" e "Live-life". Gorham, não. Participou não apenas desses dois, mas de outros nove que vieram antes. Mesmo assim, isso não lhe dava direito sobre a marca; somente a propriedade intelectual pelas composições que lhe são atribuídas.
Não sei de quem foi a ideia de ressuscitar esse Lizzy capenga, mas, dizem, não foi de Gorham. Exceto pela "cozinha" Tommy Aldridge (bateria)-Marco Mendoza (baixo) - cujas passagens incluem Ted Nugent e Whitesnake -, os outros três não vinham fazendo nada de relevante. Wharton é como milhares de tecladistas que existem no rock. Gorham tentou levantar uma banda, a 21 Guns, mas não foi muito longe. E Sykes, desde que saiu do Whitesnake - esteve com David Coverdale antes de Aldridge e Mendoza -, batalhou em vão pelo seu Blue Murder. E naufragou.
Atribuo a ideia desse "Lizzy" a Sykes porque deles são os principais solos, além do vocal. Vá lá que seja o único que canta (razoavelmente), mas, por ocupar duas funções de destaque, acaba sendo o nome maior. Na mixagem, os solos de Gorham estão mais baixos que o de Sykes e não creio que isso tenha sido por acaso. Na época de Lynnott claro que isso não aconteceria.
O disco é ruim? Não, ao contrário. É uma espécie de greatest hits, ou seja, sucesso certo. Nada, aliás, que não se tenha ouvido em discos anteriores do Lizzy. Não há qualquer inovação, como tirar faixas do fundo do baú, novas interpretações ou coisa assim. Não há risco. 
Sykes se sai bem como cantor e a levada da cozinha Aldridge-Mendoza é reta, sem as filigranas de Lynnott e do baterista original, Brian Downey.  Wharton faz sua parte direito e Gorham mostra por que ficou tanto tempo na banda: temperamento doce e adaptável a qualquer outro que completasse o par de guitarra - Brian Robertson, Gary Moore, Snowy White, Midge Ure ou o próprio Sykes. Era uma espécie de apoio de Lynnott na linha de frente.
"One night only" não saiu por aqui e as edições européias são geralmente caras. Eu paguei pelo original e não me arrependi pela relação custo-benefício. Sobretudo porque a melhor maneira de ouvi-lo é como um CD de tributo e não como um trabalho do Lizzy.
Ah!, por fim. Essa banda não durou uma única noite, como sugere o título do CD. Durou várias, muitas noites depois desta, que foi registrada na Alemanha. O que só reforça a desonestidade do projeto.